FILMES NOTA 03

View:
Log in to copy items to your own lists.
1.
The Accidental Tourist (1988)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.8/10 X  
An emotionally distant writer of travel guides must carry on with his life after his son is killed and his marriage crumbles. (121 mins.)
Director: Lawrence Kasdan
“ "Que fazer com um melancólico como William Hurt, que se fechou para o mundo, odeia viajar e vive de escrever guias de viagem? Bem, Kathleen Turner, sua mulher, sentirá que é hora de pular fora desse barco. Talvez isso pareça estranho para quem se habilitou aos calorosos filmes de Lawrence Kasdan. Mas ele consegue imprimir afeto a um personagem que vive fora dos afetos, como o de "Turista Acidental". Mesmo porque sempre haverá uma mulher disposta a salvar um homem tão fora dos parâmetros. Se essa mulher for Geena Davis, melhor." (* Inácio Araujo *)

Se há uma razão prioritária para voltar a ver "O Turista Acidental", ela é o rosto de William Hurt. Há também a ironia da situação: esse homem que escreve guias de viagens, mas odeia sair do lugar. Mas essa situação exige um rosto a altura, e isso Hurt tem. Não que esse rosto seja dado. Há ali um trabalho de interprete cuidadoso, de tal modo que em seu rosto vem se colar uma espécie de melancolia absoluta ,que designa a morte em vida desse homem. E ainda outra razão para rever (ou ver) este filme de 1988; ele é um dos últimos grandes momentos de Kasdam, que foi uma das grandes esperanças do cimnema americano nos anos 80, mas depois, foi definhando. Como seu turista." (** Inácio Araujo **)

"Macon Leary escreve guias de viagem e detesta viajar. Ele tem o rosto distendido e entediado de William Hurt. De certa forma, o papel em "O Turista Acidental" é o maior momento de Hurt no cinema. Porque em O Beijo da Mulher Aranha, que lhe deu um Oscar, seu personagem existe, como em outros tantos em que foi indicado. Aqui tudo é mais difícil, pois é de inexistência que se trata. Macon Leary não tem o que fazer na vida, e a arte do ator - e do diretor Lawrence Kasdan - consiste em dar-lhe vida, apesar de tudo.Quanto a Kasdan, convém lembrar que seu forte é a sensualidade. Desde Corpos Ardentes é o aspecto que mais torna bem-sucedidos seus filmes bem-sucedidos. Sair-se do desafio que era representar a vida desse homem, seus impasses, seus vislumbres não era coisa fácil. Uma aposta que levou sem entregar os pontos para os apelos habituais da indústria. Será por isso que desapareceu?" (*** Inácio Araujo ***)

61*1989 Oscar / 46*1989 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
2.
Hostel (2005)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.9/10 X  
Three backpackers head to a Slovak city that promises to meet their hedonistic expectations, with no idea of the hell that awaits them. (94 mins.)
Director: Eli Roth
 
3.
Young Guns (1988)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.8/10 X  
A group of young gunmen, led by Billy the Kid, become deputies to avenge the murder of the rancher who became their benefactor. But when Billy takes their authority too far, they become the hunted. (107 mins.)
 
4.
Cutthroat Island (1995)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.6/10 X  
A female pirate and her companion race against their rivals to find a hidden island that contains a fabulous treasure. (124 mins.)
Director: Renny Harlin
 
5.
Dante's Peak (1997)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.9/10 X  
A vulcanologist arrives at a countryside town recently named the second most desirable place to live in America, and discovers that the long dormant volcano, Dante's Peak, may wake up at any moment. (108 mins.)
Director: Roger Donaldson
 
6.
Cobra (1986)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.7/10 X  
A tough-on-crime street cop must protect the only surviving witness to a strange murderous cult with far reaching plans. (87 mins.)
 
7.
9½ Weeks (1986)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.9/10 X  
A woman gets involved in an impersonal affair with a man. She barely knows about his life, only about the sex games they play, so the relationship begins to get complicated. (117 mins.)
Director: Adrian Lyne
 
8.
Friday the 13th: A New Beginning (1985)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.8/10 X  
Still haunted by his past, Tommy Jarvis - who, as a child, killed Jason Voorhees - wonders if the serial killer is connected to a series of brutal murders occurring in and around the secluded halfway house where he now lives. (92 mins.)
Director: Danny Steinmann
 
9.
Flashdance (1983)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.1/10 X  
A Pittsburgh woman with two jobs as a welder and an exotic dancer wants to get into ballet school. (95 mins.)
Director: Adrian Lyne
“ 56*1984 Oscar / 41*1984 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
10.
Oscar (1991)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.4/10 X  
A gangster attempts to keep the promise he made to his dying father: that he would give up his life of crime and "go straight". (109 mins.)
Director: John Landis
 
11.
The NeverEnding Story II: The Next Chapter (1990)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.0/10 X  
A young boy with a distant father enters a world of make-believe and magic through a portal within an antique book. (90 mins.)
Director: George Miller
 
12.
Mad Max Beyond Thunderdome (1985)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.3/10 X  
After being exiled from the most advanced town in post apocalyptic Australia, a drifter travels with a group of abandoned children to rebel against the town's queen. (107 mins.)
“ ****
''Em "O Jogo da Imitação", o matemático Alan Turing esclarece porque o homem gosta da crueldade: dá prazer. Quase sempre, o prazer é de quem pratica a violência. Mas o principal em uma série de filmes, inclusive Mad Max (que retorna, com sorte, levada pelo mesmo George Miller que criou a saga), é que, por trás da capa de civilização, animalidade e violência, é que os atos do homem criam forma. Na crise, some a etiqueta. No original, foi a gasolina que faltou. E, quando chegamos a "Mad Max 3 - Além da Cúpula do Trovão", Mel Gibson virou uma espécie de chofer de diligência que, após ser roubado no deserto, encontra a comunidade na qual pontifica Tina Turner. E, com o perdão de Mel Gibson, será essa mulher perversa que dominará a cena e a tornará memorável. Reina sobre um mundo cruel, mas é marcante.'' (* Inácio Araujo *)

43*1986 Oscar ” - kaparecida445-2-230390
 
13.
Private Benjamin (1980)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.1/10 X  
A sheltered young high society woman joins the United States Army on a whim and finds herself in a more difficult situation than she ever expected. (109 mins.)
Director: Howard Zieff
“ 53*1981 Oscar / 38*1981 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
14.
The Blue Lagoon (1980)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.7/10 X  
In the Victorian period, two children are shipwrecked on a tropical island in the South Pacific. With no adults to guide them, the two make a simple life together, unaware that sexual maturity will eventually intervene. (104 mins.)
Director: Randal Kleiser
“ 53*1981 Oscar / 38*1981 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
15.
Dune (1984)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.6/10 X  
A Duke's son leads desert warriors against the galactic emperor and his father's evil nemesis when they assassinate his father and free their desert world from the emperor's rule. (137 mins.)
Director: David Lynch
“ "Lynch não sabe ser comercial e a temática de Duna está muito destoada de seu estilo, resultando em um filme fraco e cafona. Que bom que ele não cometeu o mesmo erro duas vezes." (Heitor Romero)

57*1985 Oscar ” - kaparecida445-2-230390
 
16.
Forrest Gump (1994)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 8.8/10 X  
JFK, LBJ, Vietnam, Watergate, and other history unfold through the perspective of an Alabama man with an IQ of 75. (142 mins.)
Director: Robert Zemeckis
“ "O que não é o caso de Bob Zemeckis, que acata a regra e determina a seus personagens a assimilação pelo sistema. Caso do nerd de "Forrest Gump", que peleja ser "normal". A fábula, aqui, funciona como veículo da ordem. E não é à toa que a modernidade de Oshima seja tão mais atraente." (Paulo Santos Lima)

"Nascido com ecos de grandeza por ser um “filme das massas” (longe disso ser uma falha), com elementos que agregam e consagram seu cinema detentor de multidões, a obra enfraquece, contudo, na transição do tom fabuloso para um simplório discurso moralista." (Junior Souza)

67*1995 Oscar / 52*1995 Globo

Top 250#28 ” - kaparecida445-2-230390
 
17.
Batman Forever (1995)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.4/10 X  
Batman must battle former district attorney Harvey Dent, who is now Two-Face and Edward Nygma, The Riddler with help from an amorous psychologist and a young circus acrobat who becomes his sidekick, Robin. (121 mins.)
Director: Joel Schumacher
“ "A primeira parte da heresia milionária de Joel Schumacher. Apesar do bom elenco, o roteiro aborrecido proporciona atuações constrangedoras de Tommy Lee Jones e Jim Carrey. Quase um desrespeito à verdadeira história do Homem-Morcego." (Rodrigo Torres de Souza)

68*1996 Oscar / 53*1996 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
18.
Batman Returns (1992)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.0/10 X  
When a corrupt businessman and the grotesque Penguin plot to take control of Gotham City, only Batman can stop them, while the Catwoman has her own agenda. (126 mins.)
Director: Tim Burton
“ 65*1993 Oscar ” - kaparecida445-2-230390
 
19.
The Doors (1991)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.2/10 X  
The story of the famous and influential 1960s rock band The Doors and its lead singer and composer, Jim Morrison, from his days as a UCLA film student in Los Angeles, to his untimely death in Paris, France at age 27 in 1971. (140 mins.)
Director: Oliver Stone
“ ''Uma das grandes críticas à reunião da banda americana The Doors, que veio ao Brasil no mês passado, era a de que a banda não era a mesma sem o vocalista Jim Morrison, substituído por Ian Astbury (ex The Cult). A impressão seria menor se o substituto fosse o ator Val Kilmer, que mais encarnou do que interpretou o poeta na versão cinematográfica da história da banda, "The Doors" (91), de Oliver Stone. Kilmer se parece muito com Morrison, interpreta com trejeitos e talvez convencesse mais pela imagem que Astbury pela voz. O filme mostra formação, sucesso, decadência e fim da banda, com a morte de Morrison em 71. Mais do que reforçar a tese de que o cantor "era" os Doors, pinta uma banda careta, mas competente, que toca com um vocalista lunático, sempre bêbado e drogado, mas capaz de escrever algumas das melhores letras de rock. Morrison é rebelde, promíscuo, desafiador e capaz de encantar a multidão de fãs que a banda conquista. O filme o mostra vivendo a pura essência do sexo, drogas & rock'n'roll permanente, mas que acaba pagando por isso, morto aos 27, vitimado pelos excessos. O ritmo que Stone dá à película muitas vezes faz o espectador se sentir como o protagonista (que apaga em grande parte a presença dos demais membros da banda). Lento, cadenciado, recheado de imagens psicodélicas e surreais que representariam as "viagens" do próprio Morrison, "The Doors" consegue imortalizar o mito do vocalista mas também a obra de toda a banda. A trilha martela músicas da banda de forma quase ininterrupta, no que completa o total prazer dos fãs que assistem ao filme, e inicia muitos desconhecidos ao trabalho de uma das bandas que melhor uniu a poesia ao rock." (Daniel Buarque) ” - kaparecida445-2-230390
 
20.
Boxing Helena (1993)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.6/10 X  
A surgeon becomes obsessed with the seductive woman he once was in an affair with. Refusing to accept that she has moved on, he amputates her limbs and holds her captive in his mansion. (107 mins.)
 
21.
Hulk (2003)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.7/10 X  
Bruce Banner, a genetics researcher with a tragic past, suffers an accident that causes him to transform into a raging green monster when he gets angry. (138 mins.)
Director: Ang Lee
“ "Hulk" faz parte dessa extensa categoria de "blockbusters" que se apóia em antigos "comics". E dessa categoria menos extensa que busca apoio não só nessa origem como em uma passagem anterior do personagem pelo cinema ou pela TV.
A história é infantil, como de lei: devido a uns tantos fenômenos, um pesquisador torna-se verde, monstruoso e superpoderoso. Há conflitos com uma corporação (ah, sempre elas) e uma namorada aflita. Tudo isso serve para as crianças. Há algo, no entanto, que interessará aos adultos, pois Ang Lee ficou célebre pelos personagens que, em O Tigre e o Dragão, voavam e paravam no ar sem que se soubesse como nem por quê. Com "Hulk" acontece o mesmo. E ao menos sabemos por quê." (* Inácio Araujo *) ” - kaparecida445-2-230390
 
22.
Elektra (2005)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.8/10 X  
Elektra the warrior survives a near-death experience, becomes an assassin-for-hire, and tries to protect her two latest targets, a single father and his young daughter, from a group of supernatural assassins. (97 mins.)
Director: Rob Bowman
 
23.
World Trade Center (2006)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.0/10 X  
Two Port Authority police officers become trapped under the rubble of the World Trade Center. (129 mins.)
Director: Oliver Stone
“ AS TORRES GÊMEAS

"Era questão de tempo até algum diretor aclamado aparecer e fazer um filme sobre o ataque de 11 de Setembro. Só não esperava que o resultado fosse sair tão medíocre." (Heitor Romero)

"Mais uma obra insuportável de Oliver Stone." (David Campos) ” - kaparecida445-2-230390
 
24.
Volcano (1997)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.4/10 X  
A volcano erupts in downtown Los Angeles, threatening to destroy the city. (104 mins.)
Director: Mick Jackson
“ VOLCANO - A FÚRIA ” - kaparecida445-2-230390
 
25.
The X Files: I Want to Believe (2008)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.9/10 X  
Mulder and Scully are called back to duty by the FBI when a former priest claims to be receiving psychic visions pertaining to a kidnapped agent. (104 mins.)
Director: Chris Carter
 
26.
Bewitched (2005)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.8/10 X  
Thinking he can overshadow an unknown actress in the part, an egocentric actor unknowingly gets a witch cast in an upcoming television remake of the classic sitcom Bewitched. (102 mins.)
Director: Nora Ephron
 
27.
The Faculty (1998)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.4/10 X  
Students suspect that their teachers are aliens after bizarre occurrences. (104 mins.)
 
28.
From Dusk Till Dawn 2: Texas Blood Money (1999 Video)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.0/10 X  
More people are turned into vampires as they go around spreading their evil satanic hate. (88 mins.)
Director: Scott Spiegel
 
29.
Happy, Texas (1999)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.3/10 X  
Two escaped convicts arrive in the town of Happy, Texas, where they are mistaken for a gay couple who... (98 mins.)
Director: Mark Illsley
 
30.
The Principal (1987)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.2/10 X  
A teacher is assigned to be the principal of a violent and crime-ridden high school. (109 mins.)
 
31.
Herbie Goes Bananas (1980)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.8/10 X  
The adorable little VW helps its owners break up a counterfeiting ring in Mexico. (100 mins.)
“ NOVAS DIABRURAS DO FUSCA ” - kaparecida445-2-230390
 
32.
Gothika (2003)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.8/10 X  
A repressed female psychiatrist wakes up as a patient in the asylum where she worked, with no memory of why she is there or what she has done. (98 mins.)
 
33.
The Shadow (1994)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.0/10 X  
In 1930's New York City, the Shadow battles his nemesis, Shiwan Khan, who is building an atomic bomb. (108 mins.)
Director: Russell Mulcahy
 
34.
Birth (2004)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.1/10 X  
A young boy attempts to convince a woman that he is her dead husband reborn. (100 mins.)
Director: Jonathan Glazer
“ "Como pode uma mulher acreditar num menino de 10 anos que diz ser a reencarnação do marido morto, a ponto de querer uma vida a dois com ele? Tal indagação, feita por muitos que assistem a "Reencarnação", cobra uma verossimilhança desnecessária. Primeiro porque o sentido no cinema sempre se dá pela imagem: a montagem, a duração da tomada, o som, a mise-en-scene. E outra porque, sendo Nicole Kidman a viúva, por que não entrar na dela?" (Paulo Santos Lima)

62*2005 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
35.
Hard Rain (1998)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.8/10 X  
A armored-truck driver and his nephew try to prevent three million dollars from being taken by a local rival gang during a catastrophic flooding caused by a severe storm. (97 mins.)
Director: Mikael Salomon
 
36.
Wayne's World (1992)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.0/10 X  
Two slacker friends try to promote their public-access cable show. (94 mins.)
 
37.
Babel (2006)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.5/10 X  
Tragedy strikes a married couple on vacation in the Moroccan desert, touching off an interlocking story involving four different families. (143 mins.)
“ 79*2007 Oscar / 64*2007 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
38.
The Limits of Control (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.3/10 X  
The story of a mysterious loner, a stranger in the process of completing a criminal job. (116 mins.)
Director: Jim Jarmusch
 
39.
Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer (2007)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.6/10 X  
The Fantastic Four learn that they aren't the only super-powered beings in the universe when they square off against the powerful Silver Surfer and the planet-eating Galactus. (92 mins.)
Director: Tim Story
 
40.
Bad Girls (1994)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.1/10 X  
Four prostitutes join together to travel the Old West. (99 mins.)
Director: Jonathan Kaplan
 
41.
Houdini (1953)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.9/10 X  
The spectacular but tragically short career of magician and illusionist Harry Houdini whose tricks defied explanation and safety. (106 mins.)
Director: George Marshall
 
42.
The Holy Girl (2004)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.7/10 X  
16-year-old Amalia looks to save the soul a middle-aged doctor. (106 mins.)
Director: Lucrecia Martel
“ A MENINA SANTA

"Santa ou endemoninhada, tanto faz. Amalia, a menina de "A Menina Santa" é os dois. Assim é também o médico dela para um congresso sério. É verdade que nas horas vagas ele não é tão sério assim, como notará quem tiver olhos para o filme de Lucrecia Martel (há nele um quê tenebroso, na verdade). Mas quem é santo, a parte os santos, ou alguns deles? O fato é que Amalia, na piscina do hotel ou fora dela, mobiliza a libido dele. O que há de errado é difícil dizer. Mas há: basta olhar. E quanto a garota que se crê destinada a salvar os homens dos pecados, basta olhar, também. Pois nesse hotel antigo apenas a água da piscina é transparente. Quanto ao resto, ninguém é perfeito." (* Inácio Araujo *) ” - kaparecida445-2-230390
 
43.
Season of the Witch (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.4/10 X  
14th-century knights transport a suspected witch to a monastery, where monks deduce her powers could be the source of the Black Plague. (95 mins.)
Director: Dominic Sena
 
44.
Orphan (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.0/10 X  
A husband and wife who recently lost their baby adopt a 9 year-old girl who is not nearly as innocent as she claims to be. (123 mins.)
“ "Apesar da estrutura básica de suspense do século XXI, este aqui é um pouco acima da média, simplesmente por ser divertido, menos estúpido e prender a atenção. A surpresa ao final é gratuita, mas interessante." (Alexandre Koball)

"Um ótimo suspense, o final é surpreendente, de verdade, e faz repensar todo o filme, como deve ser." (Josiane K)

"Esqueça os clichês e a estupidez de alguns personagens e até é possível se divertir com essa versão melhorada de "O Anjo Malvado", com Macaulay Culkin. A presença de Vera Farmiga e Peter Sarsgaard elevam o status de um filme que, no fundo, nasceu trash." (Regis Trigo)

"Surpreendente. Infelizmente, a direção e o roteiro resvalam em alguns clichês óbvios do gênero, mas o filme é eficaz na criação de uma atmosfera de suspense e tem uma protagonista de dar calafrios. Ótimas atuações e um final pra lá de interessante." (Silvio Pilau) ” - kaparecida445-2-230390
 
45.
Signs (2002)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.7/10 X  
A family living on a farm finds mysterious crop circles in their fields which suggests something more frightening to come. (106 mins.)
“ "O mais visceral e atmosférico dos Shyamalan, com uma dúzia de alguns dos momentos mais brilhantes do gênero." ( Luis Henrique Boaventura)

"O terror sendo propulsionado pela sensação de desamparo, seja em sentidos abstratos (a perda da fé) ou dimensionais (o isolamento social daquele lugar). É como estar em um porão, com as luzes apagadas, onde a morte parece iminente de todos os lados." (Junior Souza)

"Shyamalan brinca com a figura mais caricata possível de um E.T. em um filme aparentemente bobo no primeiro momento, mas surpreendentemente horripilante com o seu desenrolar." (Heitor Romero)

"Talvez o filme que melhor serviu à exploração das ideias que permeiam o projeto de cinema de Shyamalan." (David Campos)

"Inequívoca tensão (mal) resolvida em um final cretino. O diretor virtuoso sobrevive."

Rodrigo Torres de Souza

5.0

31/01/2015
"O Shyamalan em sua "primeira fase" talvez fosse um dos diretores/roteiristas mais completos de Hollywood em sua época. Além da exímia construção do clima de suspense, poucos filmes souberam discutir tão bem a perda e a reconquista da fé como 'Sinais'."

Rafael W. Oliveira

''Sinais" é, em princípio, um filme de ETs. Pelo menos é o que se pode deduzir dos estranhos sinais que começam a horas tantas a aparecer na propriedade do protagonista de Mel Gibson. É uma dessas pequenas glebas que abrigam uma América meio fora do mundo. Esses sinais são a princípio interessantes: importam muito aos personagens e pouco aos espectadores. A nós interessa, no entanto, o destino dos personagens. Esse, penso, é mais interessante em suas premissas (a vida solitária, a solidariedade entre irmãos, o luto pela mulher morta por um motorista idiota etc.) do que em suas decorrências. Mas mesmo essas, até certo ponto, se sustentam: seriam mesmo extraterrestres ou criaturas da imaginação? Eis um ponto que o filme não chega a resolver muito bem.'' (* Inácio Araujo *) ” - kaparecida445-2-230390
 
46.
Vinyan (2008)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.3/10 X  
A couple are looking for their child who was lost in the tsunami - their search takes them to the dangerous Thai-Burmese waters, and then into the jungle, where they face unknown but horrifying dangers. (96 mins.)
Director: Fabrice du Welz
 
47.
Cirque du Freak: The Vampire's Assistant (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.9/10 X  
Teenager Darren Shan meets a mysterious man at a freak show who turns out to be a vampire. After a series of events Darren must leave his normal life and go on the road with the Cirque du Freak and become a vampire. (109 mins.)
Director: Paul Weitz
“ CIRCO DE HORRORES - O APRENDIZ DE VAMPIRO ” - kaparecida445-2-230390
 
48.
The Intruder (2004)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.0/10 X  
Louis Trebor, a man nearing 70, lives alone with dogs in the forest near the French-Swiss border. He has heart problems... (130 mins.)
Director: Claire Denis
“ O INTRUSO

2004 Lion Veneza ” - kaparecida445-2-230390
 
49.
The Bounty Hunter (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.5/10 X  
A bounty hunter learns that his next target is his ex-wife, a reporter working on a murder cover-up. Soon after their reunion, the always-at-odds duo find themselves on a run-for-their-lives adventure. (110 mins.)
Director: Andy Tennant
“ "Uma história sem qualquer emoção ou criatividade, servindo unicamente para Butler e Aniston fazerem mais do mesmo. O romance é nulo e as risadas idem. O típico filme-produto, criado para ser esquecido." (Silvio Pilau) ” - kaparecida445-2-230390
 
50.
Psycho III (1986)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.3/10 X  
Norman Bates falls in love with a nun - which makes his "mother" jealous - who has visited the Bates Motel alongside a drifter and a curious reporter. (93 mins.)
Director: Anthony Perkins
 
51.
Julia (2008)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.1/10 X  
A woman tries to extort money, using a young boy as bait. (144 mins.)
Director: Erick Zonca
“ 2009 César / 2009 Urso de Ouro ” - kaparecida445-2-230390
 
52.
The Indian Fighter (1955)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.4/10 X  
A scout leading a wagon train through hostile Indian country unwittingly gets involved with a Sioux chief's daughter. (88 mins.)
Director: Andre de Toth
 
53.
The Gathering (2002)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.7/10 X  
Amnesiac Cassie Grant has a premonition that someone or something wants the family that's helping her recover dead. She investigates the secrets of the town they live in and uncovers darkness, both human and supernatural. (96 mins.)
Director: Brian Gilbert
 
54.
Precious (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.3/10 X  
In New York City's Harlem circa 1987, an overweight, abused, illiterate teen who is pregnant with her second child is invited to enroll in an alternative school in hopes that her life can head in a new direction. (110 mins.)
Director: Lee Daniels
“ "Definivamente, pelas interpretações e história marcante, mereceu a atenção que a crítica lhe deu." (Alexandre Koball)

"Um filme forte e muitíssimo bem interpretado - tirando Mariah Carey, que me incomodou um pouco." (Rodrigo Cunha)

"O diretor Lee Daniels exagera em digressões e recursos visuais, diluindo a força da obra, especialmente em sua primeira metade. Mas a boa construção do roteiro, sem maniqueísmos, e a honestidade das interpretações resultam em um ótimo filme." (Silvio Pilau)

"Preciosa tem atuações impecáveis, direção excepcional, história indigesta, mas não decola como deveria." (Emilio Franco Jr)

"Não há muita coisa a se dizer, exceto que Mo’nique, definitivamente, merecia um veículo melhor que esse." (Junior Souza) < > "Uma história de pouca esperança, carregada, expondo com crueza um cotidiano carente de dinheiro e afeto. Grandes atuações (Mo'Nique está magnífica!) asseguram a eficácia do projeto - por incrível que pareça, baseado em fatos reais bastante recorrentes." (Rodrigo Torres de Souza)

82*2010 Oscar / 67*2010 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
55.
Being Human (1994)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.4/10 X  
One man must learn the meaning of courage across four lifetimes centuries apart. (122 mins.)
Director: Bill Forsyth
 
56.
Mortal Kombat (1995)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.8/10 X  
Three unknowing martial artists are summoned to a mysterious island to compete in a tournament whose outcome will decide the fate of the world. (101 mins.)
Director: Paul Anderson
 
57.
Gulliver's Travels (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.9/10 X  
Travel writer Lemuel Gulliver takes an assignment in Bermuda, but ends up on the island of Liliput, where he towers over its tiny citizens. (85 mins.)
Director: Rob Letterman
“ "Mais necessário do que ressaltar as virtudes de um filme que as preserva quase pudicamente, como O Inventor da Mocidade, é compreender como um belo original, "As Viagens de Gulliver", deixa as suas escorrerem por entre os dedos. Qual a estatura de um homem? Talvez essa pergunta resuma (toscamente) o sentido das aventuras de Gulliver, cuja o navio naufraga, levando-o a terra dos minúsculos seres de Lilliput. A partir dai, o fantástico está solto. Um bom filme a partir dessa ideia só poderia acontecer com os recursos dos efeitos digitais de hoje. A ideia é correta, mas a execução, ruidosa, denominador comum mínimo, liliputiano, do cinema." (* Inácio Araujo *) ” - kaparecida445-2-230390
 
58.
The Dilemma (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.3/10 X  
A man discovers that his best friend's wife is having an affair. (111 mins.)
Director: Ron Howard
 
59.
Highlander II: The Quickening (1991)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.1/10 X  
In the future, Highlander Connor MacLeod must prevent the destruction of Earth under an anti-ozone shield. (91 mins.)
Director: Russell Mulcahy
“ HIGHLANDER II - A RESSURREIÇÂO ” - kaparecida445-2-230390
 
60.
Tenderness (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.5/10 X  
A policeman works to figure out whether a violent teen murdered his family. (101 mins.)
Director: John Polson
“ NA TRILHA DO ASSASSINO ” - kaparecida445-2-230390
 
61.
Love Happens (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.6/10 X  
A widower whose book about coping with loss turns him into a best-selling self-help guru, falls for the hotel florist where his seminar is given, only to learn that he hasn't yet truly confronted his wife's passing. (109 mins.)
Director: Brandon Camp
 
62.
The Skin I Live In (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.6/10 X  
A brilliant plastic surgeon, haunted by past tragedies, creates a type of synthetic skin that withstands any kind of damage. His guinea pig: a mysterious and volatile woman who holds the key to his obsession. (120 mins.)
“ "A surpresa da incursão de Almodóvar dá lugar ao fascínio do espectador perante o controle que o cineasta estabelece em sua narrativa, depreendendo tensão e surpresa mesmo quando já sabemos a que rumos a história nos levará. E sua marca permanece intacta." (Rodrigo Torres de Souza)

"É um belo título "A Pele que Habito". Designa, por um lado, essa estranha distância que cada um pode sentir entre o próprio corpo e o espírito, como se fossem ambos entidades autônomas. Mas também nos leva a pensar sobre os avanços da ciência, que tanto tem transformado o corpo. E aqui o diretor espanhol Pedro Almodóvar coloca em cena, para começar, um cientista capaz de mirabolantes invenções em matéria de operação plástica. Invenções que fazem da aparência pouco mais do que uma aparência. À hipótese de transformação total do corpo, de recuperação de um ser após sua morte, Almodóvar acrescentará outros aspectos, também rocambolescos, a criar para o doutor Ledgard (Antonio Banderas) e seus próximos um inferno fascinante." (* Inácio Araujo *)

"Existe uma proposição radical já no título "A Pele que Habito": ela é uma habitação, algo que se ocupa. Como se o ser escapasse dela, ou como se sua natureza fosse mesmo transitória, mutante. Assim são as coisas nesse magnífico filme de Almodóvar. Lá está o doutor Ledgard, que já pelo nome vemos que só pode ser um maluco. Ele tratará de reconstituir a pele (e o corpo) de sua finada mulher no sujeito que estuprou e matou sua filha. O que vem a seguir (e antes também) é de um rocambolesco melodramático em que parece sentir-se a mão de um Buñuel, de um Hitchcock. Mas estamos na Espanha moderna, ao mesmo tempo trágica e clean, barroca e transgressora. É dessa que dá conta a obra de Almodóvar." (** Inácio Araujo **)

"Quem diz "meu corpo" talvez não tenha se dado conta de como mudou o corpo contemporâneo. Ele pode passar por tal multidão de transformações médicas, cosméticas e plásticas que talvez seja mais conveniente chamá-lo, como Almodóvar, de "A Pele que Habito''. No caso, o espanhol trabalha a partir de uma matriz de puro terror: a do médico que opera, sinistramente, transformações estranhas em seus pacientes. E, embora o doutor vivido por Antonio Banderas não pareça um cientista louco, é bem isso que ele é. A diferença é que, desta vez, as metamorfoses que opera têm sentido nitidamente sexual." (*** Inácio Araujo ***

"Desde o título, "A Pele que Habito" designa uma tensão entre o sujeito e seu corpo. Como se fossem duas coisas distintas. Ou antes: nesse que é talvez seu filme mais complexo, Pedro Almodóvar separa essas duas entidades. Já não somos nossa aparência, somos objetos mutantes. E quem nos transforma é o brilhante cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas), que, tendo perdido a mulher num incêndio, desenvolve uma pele resistente a praticamente tudo. Estamos no registro do melodrama descabelado, tipo cientista louco: os seres que desafiam a natureza e a ordem cósmica. Como um filme de David Cronenberg com um lado latino e uma paciência com o humano. Mais até do que de hábito, aqui Almodóvar investe no excessivo. Para o espanhol parece que só o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria." (**** Inácio Araujo ****)

"Deve ser o primeiro trabalho do cineasta em uns dez anos que me deixa genuinaamente interessado, porém o intrigante ponto de partida termina sufocado pelo excesso de cálculo para torná-lo um "filme de Almodovar" e submetê-lo ao seu universo pessoal." (Vlademir Lazo)

"Grande e original história! Toda a engrenagem de mistério proposta por Almodóvar envolve o espectador mesmo que este perceba os caminhos da história. Um filme que acaba em seu ápice, em grande estilo." (Emlio franco Jr)

"Interessante a maneira como Almodóvar se apropria da obra da artista plástica Louise Bourgeois." (Demetrius Caesar)

"O filme mais engraçado do ano." (Daniel Dalpizzolo)

"Fiquei sem palavras..." (Junior Souza)

"A primeira metade é morna, mas isso é proposital, uma vez que Almodóvar costura revelações no pedaço subsequente - de maneira que jamais soa forçada, diga-se de passagem . Bom filme, principalmente nos momentos em que o diretor tem de mostrar a que veio." (David Campos)

"Um Hitchcock versão transgênero." (Bernardo D I Brum)

"Almodóvar volta ao seu melhor em um filme original do início ao fim, com uma trama surpreendente e bizarra, que só poderia ser levada às telas por um cineasta de seu talento. Narrativa bem pensada e construída, que ao mesmo tempo perturba e faz pensar." (Silvio Pilau)

"Hipnotizante. Ao nu!" (Josiane K)

"Diferenciado, Almodóvar se aventura num novo gênero e concebe uma obra esplêndida, um tipo de Frankenstein particular. Há uma herança de "Ata-me" com a relação entre o torturado e o torturador." (Marcelo Leme)

"Thriller de classe, muita classe." (Alexandre Koball)

"É possível que seja um dos filmes mais pessoais e reprimidos de Almodóvar. As duas viradas são absolutamente sensacionais." (Rodrigo Cunha)

"Almodóvar volta à forma e espanta o enfado que sua carreira começava a resvalar após a derrapada de "Abraços Partidos". "A Pele que Habito" usa da estética noir para discutir aquilo que forma a nossa própria individualidade. Destaque para Elena Anaya." (Regis Trigo)

"Em seu 19* longa, o cineasta espanhol Pedro Almodovar entrega o que mais se espera de um autor: um trabalho no qual se reconhecem as marcas reiteradas de um estilo; ao mesmo tempo, introduz elementos de renovação ou possibilidades a serem aprofundadas adiante. Nesse sentido, "A Pele que Habito" também ganha os contornos de um paradigma de uma obra que, titulo a titulo, amadureceu agregando a cada momento um elemento diverso, surpreendente, sem trair a coerência nem a inovação. Resumir o enredo do filme implica em destruir a facinante arquitetura de segredos e mentiras que Pedro e seu irmão, Auustin, desenvolveram no roteiro que toma por base o romance Tarântula , de Thiierry Jonquet, publicado no brasil pela Record. O máximo que se pode entregar sem estragar a experiência do espectador é que a trama joga todo o tempo com as identidades, suspendendo os limites que separam o masculino e feminino e apagando nesse movimento, a nitidez que se contrapõem bem e mal, amor e ódio, vida e morte. A supressão das fronteiras entre os gêneros sexuais prolonga-se, na estética e na trama do filme, na costura de gêneros narrativos tecida com habilidade formidável pelo diretor. Parte das situações e as estratégias de revelação ainda pertencem a ordem de melodrama, gênero predominante nos títulos que Almodovar dirigiu na última década e meia. Por outo lado, o retorno de Antonio Bandeiras, ausente desde 1990 da filmografia do diretor espanhol, sugere uma releitura em outra chave, agora sombria e trágica, do desejo, que na primeira fase da obra tendia a celebração festiva da sexualidade. A aparição de um personagem fantasiado de fera e que vive o sexo como excesso reitera a característica carnavalesca e cômica dominante nos filmes da primeira época. No entanto, o modo como o cineasta o introduz e suprime revela um tratamento bem distinto, avesso da alegria e do escracho que identificavam os trabalhos que realizou na juventude. Há também, nas articulações monstruosas da ciência no filme, uma força subterrânea oculta, típica do cinema de horror, gênero abundante na fantasiosa tradição espanhola. E, mais importante, há por fim a emergência de uma linhagem que vinha se mantendo a sombra, guardada sob os efeitos maneiristas que fazem reluzir tanto seus filmes. Além das referências evidentes a Os Olhos sem Rosto, clássico de horror do francês Georges Franju, e a Um Corpo que Cai, de Hitchcock, o vinculo de "A Pele que Habito" com a obra de luis Bunuel emerge como mais fundamental e profícuo. Almodóvar revelou em entrevistas que procurou profissionais que participaram de Tristana, título dirigido por Bunuel ao retornar a Espanha em 1970, para identificar o ponto exato onde foi feita a tomada que mostra a vista geral de Toledo que abre ambos os filmes. Autor de uma obra constituída com base em fértil apropriação de códigos de gêneros, Buñuel continua a ocupar o lugar de um dos artistas mais devotados a trazer os ocultamentos do desejo a superfície.'' (Cassio Starling Carlos)

Pedro Almodóvar faz as pazes com o cinema de gênero em seu Frankenstein moderno.

"Por que você está me barbeando?, questiona o paciente ao cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas). Essa é uma boa pergunta, responde o médico, antes de passar-lhe a navalha pelo pescoço. A cena diz muito sobre ''A Pele que Habito'' (La Piel que Habito), o novo filme de Pedro Almodóvar (Má Educação, Volver), que está cheio de perguntas aparentemente simples, respondidas com enigmas. As intenções do cirurgião ficarão claras mais adiante, mas, naquele momento, uma navalha é só uma navalha - ela está ali não por conter alguma conotação rara, ela está ali por ser um instrumento de terror. O contexto vem só depois. De início sabemos que, desde que perdeu sua esposa, Robert Ledgard se dedica a construir a pele perfeita, capaz de resistir à dor, misturando DNA humano com suíno. Embora negue, este Dr. Frankenstein moderno está tentando recriar a sua mulher por meio da ciência, é mais do que evidente. Mas, como na outra cena, a evidência é só uma primeira camada... Quando decidiu adaptar ao cinema o livro Tarantula, do escritor francês Thierry Jonquet, Almodóvar disse que faria um filme de terror sem gritos ou sustos. A Pele que Habito é justamente isso - antes de surgir da consequência dos atos, o terror e a violência estão presentes na própria natureza dos objetos, seja uma lâmina, um pano rasgado ou um rabo fálico de tigre. É um terror mais puro, por assim dizer, e mais angustiante, porque é o pavor do mal-estar, nós o sentimos sem saber direito o porquê. À medida em que os enigmas vão sendo respondidos, A Pele que Habito inevitavelmente perde um pouco do seu encanto. Até lá, porém, Almodóvar manipula bem os elementos que são típicos do terror (o cientista louco, a cobaia, o voyeurismo) e faz as pazes com o cinema de gênero. É verdade que o cineasta espanhol nunca o largou, mas em seus trabalhos recentes, especialmente no instável Abraços Partidos, o cinema de gênero (naquele caso, a trama de mistério) termina sufocado pelo autorismo. Todo objeto e toda situação vêm carregados de tanto simbolismo que a ação, em si, se esvazia de sentido. E cinema de gênero existe em função da ação, não dos significados dessa ação. Como em ''A Pele que Habito'' continua valendo a lógica da lâmina - o símbolo pode eventualmente surgir na interpretação do espectador, mas não é inerente ao objeto - Almodóvar consegue expurgar o autorismo e retornar a uma certa clareza da ação. Repare como as situações de morte, no filme, nunca são apenas uma ameaça - elas se consumam. Afinal, lâminas foram feitas para cortar e armas, para atirar. Mesmo os objetos mais simbólicos do mundo, os falos, neste filme são apenas isso: falos. O médico louco tem uma coleção deles, pintos de muitos tamanhos. E não são meros enfeites, emblemas da virilidade etc. Falos também foram feitos para ser usados, e em A Pele que Habito eles são. Não deve haver terror maior." (Marcelo Hessel)

"Em mais de 35 anos de carreira, Pedro Almodóvar levou grandes obras ao público admirador de um cinema irreverente e original. Suas tramas, sempre focadas na imprevisibilidade de seus personagens, experimentaram os limites do drama, como em “Fale com Ela”, e da comédia exagerada ou kitsch, como em “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, dentro de uma filmografia praticamente irretocável. Em ''A Pele que Habito'', um thriller surpreendente, o cineasta experimenta uma temática diferente de suas obras anteriores e obtém sucesso ao elaborar uma de suas películas mais curiosas. Na trama, Robert (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico renomado que abriga em sua mansão um curioso experimento científico. Vera (Elena Anaya) é o objeto de trabalho de Robert, que está em processo da construção de uma pele resistente para implantar na moça que aparenta ser uma sobrevivente de alguma tragédia. Ainda que negue, o cirurgião implanta em Vera traços muitos semelhantes de sua ex esposa, que morreu em um acidente. Contar além disso é comprometer o desenrolar do enredo, que mostra seis anos da vida desses personagens e as transformações que enfrentaram neste tempo. O que é mais marcante no longa é a forma como Almodóvar estrutura sua narrativa. Com os três atos bem definidos do roteiro, de forma não linear e estratégica, o primeiro deles nos entrega ao início de uma trama estranha, que pouco lembra as obras anteriores do cineasta. Logo o suspense é encaminhado para o segundo ato e começamos a compreender a vida daquelas pessoas em tela. E principalmente: como elas chegaram até onde estão. Seis anos vão e vem no tempo do filme, agregando informações e em um crescente interessante. No último dos atos, intitulado curiosamente como Volta ao presente, tudo é possível. De repente, o público fica imerso em uma história que supera expectativas não só per si, mas principalmente do próprio Almodóvar. O primeiro ato mostra delicadamente e com diversos planos detalhes os experimentos realizados por Robert, sem necessitar ser autoexplicativo, já que isso é o de menos para aquele momento. É uma característica forte de “A Pele que Habito” a tendência da não explicação, que será compreendida nas cenas seguintes ou nos flashbacks bem posicionados. Tecnicamente, Almodóvar investe na clausura dos ambientes, não apenas dentro da “cadeia” em que Vera vive, mas de uma forma geral. Suas cores saltam os olhos quando aparecem meio à penumbra ou até mesmo nos planos fechados que o cineasta opta fazer. Os momentos seguintes possibilitam que o público possa juntar as peças e, principalmente, ter as reações corretas sobre a trama. É impressionante o terror e o pavor causados pelo filme. O transtorno psicológico dos personagens é passado em tela de forma magistral, fazendo com que ali não tenhamos vilões nem mocinhos, mas pessoas presas em novos mundos. Robert não tem limites para seus experimentos e castra completamente a liberdade de Vera que, por sua vez, induz ao desenvolvimento de uma síndrome de Estocolmo sempre duvidosa. Até onde ela realmente aceita seu novo destino? Em paralelo, Marília tem uma função delicada, condicionada a ajudar Robert, mas bastante vulnerável às situações. O alívio cômico fica por conta de seu filho Zeca (Roberto Álamo), em uma das sequências mais bizarras de Almodóvar, que mistura o kitsch, o machismo e a ganância. As características famosas de Almodóvar estão lá. As cores quentes permeiam os cenários, quebrando a sobriedade de determinadas sequências. Aliás, para quê elemento melhor do que o sangue vermelho que se torna arte nas mãos do cineasta? Percebam também como os quadros da casa de Robert mostram muito de sua correlação com a própria obra, com corpos desnudos e sem rostos. A direção de arte e o figurino deslumbram e criam todo aquele universo apresentado com personagens estão sempre prontos a se desfazerem uns dos outros, sejam empunhando uma arma ou proferindo rápidos jogos de palavras. A trilha sonora de Alberto Iglesias, parceiro antigo de Almodóvar, pontua os níveis de tensão que a trama alcança até o seu desfecho, quando o público já está impressionado por aquelas sequências tão ousadas e cruéis. A música é fator essencial para a construção da atmosfera da trama, que varia entre tensão, drama e até mesmo terror. Em diversos momentos, os olhos mais atentos podem notar referências a outras obras dele mesmo, como “Áta-me” e “De Salto Alto”, ou até mesmo do mestre do suspense, Alfred Hitchcock.O elenco, encabeçado por Banderas em mais uma parceria com Almodóvar, é um espetáculo a parte. Banderas dosa suas diferentes nuances no decorrer da trama, ainda que possa ser visto como um psicopata ou um homem vingativo. A todo tempo, questionamos sua paixão pela ciência em contraponto com a paixão pela ex-esposa, ou mesmo a angústia dos acontecimentos que abateram sobre sua filha. A beleza estonteante de Elena Anaya faz com que os olhos não sejam tirados dela, sempre inebriados com aquela personagem tão paradoxal e instável. Marisa Paredes, sempre divina, é responsável pelo melodrama familiar, mas que não cai no mal gosto por esconder dos próprios personagens do filme algumas verdades. O público é o seu principal canal de comunicação. Jan Cornet e Roberto Álamo cumprem suas devidas funções, se transformando (de diferentes formas) diante do espectador. A jovem Bianca Suárez, que interpreta Norma, filha de Robert, tem pouco a fazer em cena, mas assume com peito seu conflito que talvez seja o motivador de toda aquela loucura vista na obra. Baseado em uma história escrita por Thierry Jonquet, “A Pele que Habito” é um espetáculo narrativo que há um bom tempo Almodóvar não nos trazia (o que não exclui suas últimas obras, sempre ótimas). Aqui, ele constrói mais um mundo cheio de imprevisibilidades e coerente em seus argumentos. Com uma metáfora magnífica em seu título, além dos jogos de cena (como os canais de televisão que Vera tem acesso, que fazem uma representação do seu mundo de prisão e caça), a obra está pronta para ser aclamada pelos próximos anos por oferecer mais um trabalho de contação de histórias irretocável de Pedro Almodóvar e se estabelecer como uma de suas principais contribuições cinematográficas." (Diego Benevides)

A metamorfose ambulante de Pedro Almodóvar.

''Em Fale com Ela (Hable com Ella, 2002), um de seus filmes mais sóbrios, Almodóvar se intensificou em um tipo de abordagem até então coadjuvante em sua filmografia – sobre o lado feminino existente em cada homem. Se em seus filmes anteriores, e também alguns posteriores, são as mulheres que tomam as rédeas da situação e dão forma ao trabalho em geral, em Fale com Ela são os homens que ganham uma projeção maior, mesmo sendo as mulheres em coma as grandes protagonistas. Apesar de representar o lado masculino da questão, os dois homens da história são dotados de características assexuadas, que muitas vezes pendem mais para a visão feminina dos assuntos em pauta. Em seu filme seguinte, Má Educação (La Mala Educación, 2004), o travestitismo e a homossexualidade são elementos usados para unir os dois sexos opostos e mostrar o quão é presente em cada homem o lado feminino. Ou seja, mesmo se valendo da diferença dos sexos para moldar boa parte de suas tramas, Almodóvar sempre quis através desse mesmo recurso unir os dois em seus personagens. O resultado nós já conhecemos muito bem. Em seu novo trabalho, ''A Pele que Habito'' (La Piel que Habito, 2011), o cineasta volta com força total nesse tipo de construção de personagens. Agora se valendo de recursos inéditos, como o terror, ficção científica e o noir, Almodóvar nada mais faz do que reafirmar seu estilo de fazer cinema, só que com a ajuda de alguns apetrechos que potencializam suas ideias. Agora tudo está elevado a nível exponencial e essa questão de um homem deixar aflorar seu lado feminino será berrante, beirando o status de aberração – como somente um filme de horror é capaz de elevar. Aqui temos um cientista maluco à lá Frankenstein, uma cobaia humana indefesa e um motivo de vingança propulsor para dar um pontapé inicial. Em A Pele que Habito temos um conto de horror refletido na imagem de um cinema assexuado e ilimitado. O brilhante cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas) tem sua vida destruída quando sua esposa morre em um acidente. Anos depois sua filha é estuprada em uma festa de casamento e depois vai parar em uma clínica psiquiátrica, completamente fora de si. Mergulhado em seu trabalho para esquecer seus problemas, ele começa a projetar um tipo de pele sintética capaz de proteger o corpo humano de danos físicos, e sua cobaia é uma misteriosa mulher cativa em um cômodo trancado de sua mansão. A única cúmplice de seu projeto megalomaníaco é sua própria mãe, Marilia (Marisa Paredes), que por algum motivo parece não confiar nem um pouco na tal mulher mantida em cativeiro. Apesar dessa premissa esquisita e aparentemente difícil de conduzir, não podemos esquecer que o cinema de Almodóvar é muito orgânico, e tudo flui naturalmente sem muita dificuldade. Como se estivesse ciente dos possíveis obstáculos que esse tipo de história poderia acarretar, o cineasta ignora alguns tipos de tradições do terror e da ficção científica, e se foca apenas no drama, evitando assim se perder em explicações que jamais dariam conta de esclarecer racionalmente cada idéia apresentada. Sendo assim, resta apenas nos deixar levar por essa fluidez com que tudo ocorre. Uma vez em que o próprio diretor se mostra indiferente a esses elementos periféricos, para nós espectadores só resta acompanhar a trama da maneira como ele deseja que façamos. A partir deste parágrafo, alerto que alguns detalhes reveladores da trama serão comentados, então fica por conta de cada leitor decidir continuar ou não. Apesar de se basear no romance de Thierry Jonquet, A Pele que Habito é um filme que não poderia combinar melhor com a essência da persona de Pedro Almodóvar. Seu cinema é quase que inteiramente dedicado a retratar a cultura gay de uma maneira universal, portanto é interessante notar o papel da pele nesse contexto. Não é à toa que a pele se mostra o elemento catalisador de tudo a ser transmitido, já que na história ela prende a tal mulher em um sexo que não lhe pertence. Como é mostrado em determinado momento da trama, aquela mulher na verdade se trata de Vicente, o garoto drogado que estuprou a filha de Robert durante a festa de casamento, e que agora foi capturado pelo cirurgião, dopado e teve seu sexo mudado em uma cirurgia clandestina. Determinado a se vingar, Robert quer que Vicente passe por tudo aquilo que sua filha passou, trancafiando-o como uma mulher em uma pele vedante. Assim sendo, temos Vicente – um heterossexual convicto – obrigado ter seu sexo mudado, a estrutura de seu corpo inteiramente modificada nos moldes do corpo feminino. Querendo ou não, ele está preso àquilo, e a sua pele sintética lhe serve como as grades de uma prisão. Trata-se de um processo inverso ao que vemos no cinema quando se trata de um personagem travestido, que repudia seu corpo e expõe ao mundo seu desejo de ser como uma mulher, se vestir, falar, e se relacionar como uma. Vicente representa então nesse contexto um travesti introvertido, preso a uma condição que deplora e que deseja a todo custo voltar a seu sexo original. Enquanto os travestis estão presos a um corpo de homem, Vicente se vê habitando a pele de uma mulher. Inacreditavelmente, Almodóvar faz dessa metamorfose horrenda e desnatural algo quase artístico. As cores de sua fotografia, vivas e sagazes, a escolha de enfeitar seus cenários constantemente com quadros de corpos nus e disformes (inclusive um deles é de Tarsila do Amaral), ampliados em paredes imponentes, não passam de sugestões para nós espectadores, auxiliadores narrativos. Vemos nessas obras de arte o corpo humano deformado, estilizado em cores que representam em um filme de horror algo medonho, gritante, aprisionador. Não poderia esperar menos de um diretor como Almodóvar se aventurando em um gênero tão curioso como o terror. Ele redimensiona o gênero e o usa em prol de suas idéias incomuns, fazendo de ''A Pele que Habito'' um filme por vezes horrendo, por vezes belíssimo. Pode ser visto como um neo noir, como um drama ou até mesmo como um tipo de comédia cruel, mas o que une todas essas classificações em uma só é a arte. Arte pura e eclética vista sob a lente de um cineasta sensível e autoral como poucos hoje em dia." (Heitor Romero)

As cores do noir.

''Se no texto sobre Melancolia (Melancholia, 2011) falávamos do furor causado pela figura de Lars Von Trier em Cannes (que conseguiu a proeza de sair daqui como persona non grata), a presença de Almodóvar não faz menos barulho, ainda que de forma bastante mais inofensiva. É impressionante sua horda de groupies, mesmo em uma sessão que em tese se destinaria a profissionais da imprensa. O clima da sessão de A Pele que Habito (La Piel Que Habito, 2011) lembrava essas estréias de filmes como Star Wars, nas quais pessoas assistem aos filmes com espadas à mão, peculiares próteses auriculares e artefatos os mais diversos, porém, aqui, numa chave mais ONG-Cult, viva as minorias e tal e coisa. Esse clima de ovação, ainda que legítimo, acaba não fazendo jus às próprias complexidades e sutilezas do filme, já que a aprovação ao que seria exibido em tela precedia a exibição em si: em diversos momentos a platéia ria antes mesmo que a piada se completasse (em outros o riso vinha mesmo quando não se tratava propriamente de uma piada). Mas nem ele, o belo cineasta que é Pedro Almodóvar, nem La piel que habito, esse filme estranho, algo desconjuntado e sempre interessante, têm muito a ver com este relato, cuja existência deve ser creditada a uma vontade de passar ao leitor um pouco do clima por aqui. Neste novo trabalho, Almodóvar confirma a tendência recente de aprofundamento das relações entre seu único e indistinto universo particular e o cinema de gênero. Algo sempre presente em sua obra (ver, por exemplo, como agencia Noite de Estréia [Opening Night, 1977], de John Cassavetes, e A Malvada [All About Eve, 1950], de Joseph Mankiewicz, em Tudo Sobre Minha Mãe [Todo Sobre Mi Madre, 1999]), é, no entanto, a partir de Má Educação (La Mala Educación, 2004) que esta aproximação se intensifica, tendo em Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, 2009) outro peculiar momento – em um filme que me parece ter sido “abandonado” um pouco antes da hora, diga-se de passagem. Embora estejamos em território misto, onde se transita pela ficção científica e o cinema de terror dos anos 1930, a base de La Piel que Habito é o noir, principalmente no que diz respeito à estrutura de sua narrativa: uma trama complexa, cheia de melindres, que oferece novas aberturas e angulações dependendo da perspectiva de entre quem olha e quem mostra - criando o clima essencialmente ambíguo que marca o subgênero tanto em sua matriz literária (o filme é inspirado em Mygale, de Thierry Jonquet, escritor noir) quanto cinematográfica – e Almodóvar revindica, muito coerentemente, Fritz Lang como referência principal para o projeto. Em pequeno parêntese, há também no filme uma presença marcante da pintura, tanto de forma direta (os diversos quadros na casa do protagonista), quanto mesmo na atmosfera, que pessoalmente me remeteu à obra de Bosch – mas é preciso maior tempo de maturação estética para adentrarmos nesta seara. É, enfim, na maneira com que Almodóvar consegue articular as possibilidades e liberdades do gênero com as questões que está em interessado em abordar que se dá a força deste novo filme, cuja trama gira basicamente em torno de Robert Ledgard (Antonio Bandeiras), um cirurgião plástico renomado que também conduz secretamente pesquisas relativas à construção do tecido epitelial humano e que empreenderá uma peculiaríssima vingança contra Vicente (Jan Cornet), aquele que acredita ter estuprado sua filha (Blanca Suares). Se ao mesmo tempo o noir demanda uma condução segura, firme, uma habilidade na construção e manutenção da força e da verdade própria do universo construído, ele também abriga o lugar da coincidência improvável, da virada inesperada e logicamente pouco crível. E é justamente essa fresta do gênero, por assim dizer, que parece interessar a Almodóvar. Tudo é possível desde que se mantenha a relação de encanto e mistério com o que se vê na tela. E o próprio personagem de Bandeiras é incrível de tão improvável: aqui temos uma espécie de Dr. Frankeinstein fatal, um cientista louco e obstinado e um latin lover conquistador, bonito e bem sucedido. E a composição fica ainda mais rica se considerarmos os vestígios da presença anterior de Bandeiras na obra de Almodóvar. É como se Bandeiras fosse ele também uma metáfora da condição mutante dos corpos em Almodóvar, para quem o corpo pode ser tanto clausura como libertação – tema decisivo de sua obra e também deste La Piel que Habito. No entanto, o excesso, que também é componente de seu cinema, torna por vezes o filme um pouco desigual e multifocado demais: é possível fazer um thriller que fala sobre a doentia vaidade contemporânea, os limites éticos da ciência, relação entre pais e filhos, corpos em mutação, e ainda sobre a dimensão contingencial das coisas, dentre vários outros temas tocados pela polifonia dramática de Almodóvar? Essa interessante e única articulação entre o excesso (dele) e a concisão (do thriller) parece constituir tanto a principal virtude de La Piel que Habito, quanto suas possíveis fragilidades. A sensação é a de que o melhor equilíbrio ainda esteja por vir." (Rafael Ciccarini)

"A primeira imagem é a do dorso desnudo da mulher que fascina o vingador. Ali está um corpo transformado pela arte de um cirurgião plástico, interpretado por Antônio Bandeiras, no último filme de Almodóvar, ''A Pele que Habito''. Aos poucos, por meio de flashbacks, o espectador reconhece o estilo inconfundível desse Diretor espanhol que sabe tratar com profundidade questões de amor e morte, sexualidade e poder. Aqui se observa um feroz e oblíquo libelo contra a intolerância frente a opções não-heterossexuais; oblíquo, porque não se dá a ver de modo direto e sim de forma especular como na tópica carnavalesca do mundo às avessas; feroz, porque, à sua revelia, este corpo foi alterado com uma violência que o espectador custa a reconhecer. Pelo rompimento da linearidade narrativa, voltamos ao passado recente para saber que, por acaso, o dono do corpo esteve a ponto de estuprar a filha do médico, tornando-se por isso a vítima do psicopático pai que o caça na estrada e o mantém preso como um animal na masmorra de sua luxuosa clínica onde realiza afamadas, ousadas e controvertidas experiências científicas. A ferocidade paterna é compreensível embora o estupro não se tenha concretizado em vista da reação histérica da moça que, àquela altura, estava sob forte tratamento psiquiátrico. Por sua vez o presumido estuprador havia ingerido alguma droga, mas não o suficiente para perder a cabeça, o que lhe permite afastar-se da cena com prudência depois de rearranjar delicadamente as roupas da moça. Torna-se claro que sua opção heterossexual não está em causa, pois gosta de mulheres, trabalha para elas e com elas – sua mãe e uma funcionária lésbica(?) – divide uma loja de roupas femininas. No entanto o zeloso pai da donzela interpreta mal alguns sinais deixados pela moça no caminho – um casaco caído, uns sapatos abandonados – e acaba por encontrá-la desacordada no bosque, ao pé da árvore, mas inteiramente composta. Ao dobrar-se sobre a filha, que abre os olhos, acontece nova cena histérica, agora contra o pai que a menina supõe ser o estuprador, o que agrava fatalmente o seu estado psíquico daí em diante. Que melhor desforra do que submeter o violentador ao mesmo tipo de violência experimentada pela sua filha? Desse modo o Dr. Ledgard prepara lentamente o prato frio da vingança na pele do jovem sequestrado. Graças a procedimentos cirúrgicos bem sucedidos, eticamente contestados pelos colegas médicos, a vítima toma a forma de uma linda e doce criatura dotada de todos os atributos femininos, em especial uma vagina artificial cuja destinação é clara: o vingador prepara o canal para a vingança. No entanto, a criatura acaba por ganhar a admiração e a confiança do seu criador (o velho tema de Pigmaleão), fazendo-nos esquecer sob aquela pele “feminina” habita um homem que sofre. Este é um esquecimento provocado pela genialidade de Almodóvar que traz à tona uma pequena verdade invisível: a violência de se ter um corpo em desacordo com a alma. Para escapar da opressão, Vicente / Vera (dupla onomástica do personagem) disfarça o seu dissabor e seduz o carrasco. Depois de muitas peripécias para se libertar, busca nas duas mulheres o refúgio e o apoio de que precisará daí para frente. No jogo especular de gêneros que cruza sexualidades, a obra convoca um espectador ideal, espécie de leitor ideal na terminologia de Humberto Eco: o macho heterossexual incapaz de compreender a irreversível situação de se possuir uma alma feminina num corpo grosso e peludo, tal como a que vive o próprio Diretor, homossexual assumido. Vivendo de forma inversa a mesma dissonância – uma alma masculina num corpo feminino – , Vicente é o personagem com o qual o espectador homofóbico é chamado a se identificar, a se comover e, quem sabe?, entender e reverter o preconceito por meio da experiência de se colocar na sua pele. Em suma, o filme é um libelo contra dois tipos de violência: a que é praticada pelos médicos prepotentes, donos dos corpos, na suposição de que sabem o que é melhor para os pacientes; e a que é dirigida por este mesmo tipo de gente contra homossexuais cujos corpos são vistos como imperfeitos por não combinarem com suas almas. De tudo isso deduz-se a postulação da soberania do desejo como forma de ultrapassar os violentos desacordos entre corpo X espírito ou pele X identidade sexual. Recado dado, recado entendido. Na pele que (bem) habita, caberia ao Diretor levantar alguma estatueta de Melhor Filme da temporada. Simplesmente genial!" (Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira)

2011 Palma de Cannes

Top 200#199 Cineplayeres (Usuários) ” - kaparecida445-2-230390
 
63.
The Ward (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.6/10 X  
An institutionalized young woman becomes terrorized by a ghost. (89 mins.)
Director: John Carpenter
“ "Sem base, e absolutamente vazio." (Josiane K)

"Embora alguns insights nos lembrem se tratar de um filme de John Carpenter, Aterrorizada é, em sua forma geral, o mais fraco dos trabalhos do mestre. Mesmo assim, bom filme." (Daniel Dalpizzolo)

"Se prende a desculpa da saúde mental, e por conhecermos obras parecidas e muito superiores, acabamos descartando." (Marcelo Leme) < > "Um "suspense" sem peso algum. Impressiona a direção quase inexistente de Carpenter, que parece ter trabalhado dormindo." (Alexamdre Koball) ” - kaparecida445-2-230390
 
64.
Prophecy (1979)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.4/10 X  
A log company's waste mutates the environment, creating a giant killer bear-monster. (102 mins.)
 
65.
Water for Elephants (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.9/10 X  
Set in the 1930s, a former veterinary student takes a job in a traveling circus and falls in love with the ringmaster's wife. (120 mins.)
“ "Plastificado e lindo!" (Alexandre Koball)

"Certas descobertas deixam a gente de queixo caído. Por exemplo, o que pode ter passado na cabeça de Christoph Waltz, que fez um magnífico coronel nazista em Bastardos Inglórios, ao trocar a possibilidade de interpretar um Freud com Cronenberg pelo inglório papel do dono do circo de maus bofes em "Água para Elefantes"? Nada contra o circo e seus donos. Podem dar grandes papéis. Mas as imagens criadas por Francis Lawrence não deixam dúvida desde o começo: isso só pode ser abacaxi. Quem vai encarar esse dono de circo é Robert Pattinson, um quase veterinário que as circunstâncias levam a estrada. Com ele, chega a questão: por quem o dono é mais apaixonado, pelo circo ou pela mulher?" (* Inácio Araujo *)

''O mais impressionante em "Água para Elefantes" é saber que Christopher Waltz desprezou o papel de Freud em "Um Método Perigoso" para assumir, aqui, o de destemperado dono de um circo. O problema não é a nobreza (intelectual) de um personagem e o caráter plebeu do outro. É que estamos aqui diante de um drama invertebrado, onde Robert Pattinson faz um estudante de veterinária que, após a morte dos pais, com uma mão na frente e outra atrás, aceita tarefas em tese humilhantes no circo de Waltz, isto é, August, para sobreviver. É verdade que lá não há só sofrimento: a bela mulher do dono do circo também está por lá. Isso melhora as coisas para o rapaz. Para nós, nem tanto." (* Inácio Araujo *) ” - kaparecida445-2-230390
 
66.
Just Go with It (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.4/10 X  
On a weekend trip to Hawaii, a plastic surgeon convinces his loyal assistant to pose as his soon-to-be-divorced wife in order to cover up a careless lie he told to his much-younger girlfriend. (117 mins.)
Director: Dennis Dugan
“ "O roteiro terrível, cheio de argumentos pífios. Mas as aleatoriedades (cenas desconexas do enredo principal) são hilariantes, e conseguem tirar risadas genuínas. No final não é nem bem um filme, mas vale definitivamente a diversão." (Alexandre Koball)

"Leve e divertido, dentro de suas limitações (filme de matinê, vai passar na Sessão da Tarde muitas vezes daqui a uns anos). As músicas são especialmente boas - a trilha sonora agrada muito." (Josiane K)

"As piadas são horríveis, as situações todas artificiais e Adam Sandler segue sem qualquer graça. Nem mesmo o talento cômico de Jennifer Aniston salva. Sem exageros, trata-se de um dos piores roteiros dos últimos anos em comédias do cinemão hollywoodiano." (Silvio Pilau)

"As comédias americanas populares estão ficando cada vez mais burras e apelativas a uma velocidade preocupante. Jennifer Aniston e Adam Sandler nunca foram de salvar filme nenhum, mas não precisavam se prestar a isso tão cedo." (Heitor Romero)

"As mesmas típicas situações dos filmes de Sandler/Dugan num contexto diferente." (Marcelo Leme)

"De "Happy Gilmore" a "Esposa de Mentirinha": há anos que Adam Sandler mantém o seu - baixo - padrão de qualidade. Mas se seus filmes são à prova do boca a boca negativo, de que adianta ficar aqui apontando os vários defeitos de seus filmes?" (Regis Trigo) ” - kaparecida445-2-230390
 
67.
Brüno (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.8/10 X  
Flamboyant and gay Austrian Brüno looks for new fame in America. (81 mins.)
Director: Larry Charles
“ "Basicamente uma remontagem de Borat, só que bastante gratuita. Mesmo assim Sacha Baron Cohen continua inspirado (às vezes) e ousado (mas não tanto quanto ele gostaria, possivelmente)." (Alexandre Koball)

"Há claros exageros e falta ao filme o contexto crítico de 'Borat' (exceto pela entrevista com os pais). Ainda assim, é uma hilária comédia com momentos de pura genialidade. Cohen merece aplausos pela ousadia e por contestar o politicamente correto." (Silvio Pilau)

"Sacha Baron Cohen consegue dozar suas piadas sarcásticas com críticas a todos os alvos de suas piadas. Basta boa vontade em entendê-las. Nesse sentido, o filme cumpre perfeitamente seu papel. Engraçado e crítico." (Emilio Franco Jr)

"Brüno usa um humor apelativo e banal com a desculpa de que veio para abolir as leis do politicamente correto no cinema. Ok, ele é politicamente incorreto; mas também é um péssimo filme." (Heitor Romero)

"Concebido após 'Borat', a saída encontrada pelos realizadores para (tentar) contornar a perda de originalidade da fórmula é exacerbar os momentos constragedores e as piadas de mau gosto, redundando num exagero até mesmo pro padrão estabelecido por Cohen." (Rodrigo Torres de Souza) ” - kaparecida445-2-230390
 
68.
Biutiful (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.5/10 X  
This is the story of Uxbal, a man living in this world, but able to see his death, which guides his every move. (148 mins.)
“ "Podem dizer que é mais do mesmo para Iñárritu (e é mesmo, aqui), mas a força das histórias e a realidade de sua direção são muito poderosos." (Regis Trigo)

"Podem dizer que é mais do mesmo para Iñárritu (e é mesmo, aqui), mas a força das histórias e a realidade de sua direção são muito poderosos." (Alexandre Koball)

"Bardem, mais uma vez, comprova ser um grande ator, com uma interpretação contida e repleta de sentimento. Iñarritú, por sua vez, é hábil ao captar dor e realismo, mas a história tem digressões demais, o que resulta em certo distanciamento emocional." (Silvio Pilau)

"Biutiful estreou supervalorizado, mas o público tratará de colocá-lo em seu lugar: é apenas um bom filme." (Emilio Franco Souza)

"Um bom drama, denso, cuja qualidade independe da grande atuação de Javier Bardem" (Rodrigues Torres Souza)

“Biutiful” distorce a palavra original como metáfora do drama de seus personagens cujas vidas carecem de brilho, beleza e sentido. Bardem rouba a cena." (Marcelo Leme)

"Um filme propositalmente feio em sua estética, em sua narrativa e em seu conteúdo para ir de contra a ideia provocada pelo seu título. No fim das contas, Iñárritu consegue nos fazer achar beleza em seu universo repulsivo." (Heitor Romero)

83*2011 Oscar / 68*2011 Globo / 2010 Palma de Cannes ” - kaparecida445-2-230390
 
69.
Poltergeist III (1988)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.6/10 X  
Carol Anne is staying with her aunt in a highrise building, and the supernatural forces that have haunted her previously follow her there. (98 mins.)
Director: Gary Sherman
“ "A série já estava cansada e este capítulo é inócuo. Algumas brincadeiras visuais são divertidas e a trilha sonora de suspense é interessante, mas fica só nisso mesmo." (Alexandre Koball) ” - kaparecida445-2-230390
 
70.
Child's Play 3 (1991)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.0/10 X  
Chucky, the doll possessed by a serial killer, returns for revenge against Andy, the young boy who defeated him and who has since become a teenager. (90 mins.)
Director: Jack Bender
 
71.
The Losers (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.4/10 X  
A CIA special forces team are betrayed and left for dead by their superiors, galvanizing them to mount an offensive on the CIA. (97 mins.)
Director: Sylvain White
 
72.
The Informant! (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.5/10 X  
The U.S. government decides to go after an agro-business giant with a price-fixing accusation, based on the evidence submitted by their star witness, vice president-turned-informant Mark Whitacre. (108 mins.)
“ "Deliciosamente satírico, o timing cômico é maravilhoso, e Mark Whitacre mostra-se um personagem brilhante." (Alexandre Koball)

"Lembra um pouco 'Prenda-me se For Capaz'. Tanto na temática quanto nos defeitos. Assim como o filme de Spielberg, 'O Desinformante' é descartável demais se consideramos todos os talentos envolvidos." (Regis Trigo)

67*2010 Globo
"A abordagem farsesca de Soderbergh, a interpretação de Damon e a própria construção do personagem principal não deixam de ser admiráveis, mas o filme é aborrecido e simplesmente não consegue se conectar com a plateia. Chato, mas não necessariamente ruim."(Silvio Pilau) ” - kaparecida445-2-230390
 
73.
Hanna (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.8/10 X  
A sixteen-year-old girl who was raised by her father to be the perfect assassin is dispatched on a mission across Europe, tracked by a ruthless intelligence agent and her operatives. (111 mins.)
Director: Joe Wright
“ "Hanna é um suspense de ação que explica pouco (isso é bom, pois querer aprofundar um enredo tão limitado seria tolo), tem personagens superficiais e ação previsível. Joe Wright continua ordinário." (Alexandre Koball)

"Mais um passo em falso de Joe Wright. O filme até começa interessante, propondo um Jason Bourne adolescente, mas se perde nos excessos do cineasta e na total falta de lógica, que faz de tudo uma grande bobagem. Mas Ronan é ótima." (Silvio Pilau) ” - kaparecida445-2-230390
 
74.
From Paris with Love (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.5/10 X  
In Paris, a young employee in the office of the US Ambassador hooks up with an American spy looking to stop a terrorist attack in the city. (92 mins.)
Director: Pierre Morel
 
75.
Sanctum (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.9/10 X  
An underwater cave diving team experiences a life-threatening crisis during an expedition to the unexplored and least accessible cave system in the world. (108 mins.)
“ Um filme perdido na superfície.

"Impressiona como o cinema norte americano investe em produtos de consumo fácil, de retorno financeiro quase garantido, comprometendo sua qualidade no que diz respeito à arte em si. O adicional que faz com que Santuário (Sanctum, 2011) se “destaque” nesse meio é, naturalmente, o nome de James Cameron na produção executiva. O cineasta possui o chamado “toque mágico” que tanto agrada Hollywood; suas produções fazem parte do cinema das massas, aquele que detém facilmente as multidões e arrasa quarteirões. Isso ficou evidente com o sucesso descomunal de Titanic (idem, 1997), que por muito tempo manteve-se como a maior bilheteria da história, sendo barrado, mais de dez anos depois, por Avatar (idem, 2009), outra produção de Cameron que legitima de vez sua habilidade em realizar trabalhos plenamente comerciais. É fato que Santuário é o tipo de filme que se não contasse com tantos chamarizes, dificilmente se sustentaria de pé. Tanto os roteiristas quanto o próprio diretor são novatos em longas-metragens (embora o cineasta já tenha dirigido uma produção pouco conhecida em 2006), o que permite que caiam em armadilhas com maior facilidade, ou mesmo se comprometam na hora de livrarem-se delas. Além de beber da fonte de vários projetos tematicamente semelhantes, o filme não consegue se libertar dos vícios que tanto atrapalham a condução desse subgênero. Por razão da morte de um ou outro personagem, a narrativa estaciona em lamentos inúteis e lágrimas aborrecidas, mesmo que se trate de um claro jogo de sobrevivência, onde naturalmente pouquíssimos sobreviverão. É claro que a frieza não auxiliaria em nada a trama, contudo falta a noção de onde e quando descarregar o apelo dramático. Para falar a verdade, não me incomodaria tanto se os personagens despencassem ao pranto, ou à tristeza profunda, quando um companheiro não resistisse ou mesmo quando o fardo daquela situação estivesse pesado demais, desde que compreendessem a dimensão do problema. Mas é nítido que eles não possuem a mínima consciência de suas condições e da proporção do evento - fato evidenciado pelos constantes desentendimentos e discussões superficiais. Josh, filho do líder da expedição, por exemplo, mesmo sabendo do estado emocional precário de seu pai e dos demais membros da equipe, não hesita em se portar como um garoto mimado e insuportável, que mais parece estar num acampamento que numa caverna obscura com a vida posta em risco. E isso não é característica somente do rapaz, mas também de outros que, a todo instante, se incomodam com as ações e medidas tomadas pelo protagonista. Tudo isso para construir um arco dramático para a trajetória daquela equipe de mergulho. O que os roteiristas parecem não compreender é que a potência da situação a qual os personagens se encontram não necessitava de um ou outro conflito artificial para assegurar sua força dramática, bastava somente trabalhar melhor com as nuances daquele episódio registrado como real. Ao invés disso, a morte iminente que assombra os personagens presos naquele sistema de cavernas e grutas tido como menos acessível da Terra é aproveitada somente como recurso visual (apesar de render alguns interessantes momentos de claustrofobia), uma vez que o filme foi convertido à famosa técnica das três dimensões simplesmente como isca para espectadores. Eles precisavam garantir que o produto seria vendido, não é mesmo? Mas não há nada de errado em querer vender seu peixe, o problema está em quais os recursos que se usará para estabelecer a oferta. Aqui a profundidade dramática dos personagens e da própria trama é anulada em prol do exibicionismo estético e do comercialismo barato. Muito disso os realizadores do projeto parecem ter aprendido com o próprio Cameron, já que seu Avatar não se distancia tanto dessas características. O caso é que Santuário muito fez para atrair consumidores, lançando mão da sempre chamativa tecnologia tridimensional e dos demais artifícios visuais que dispunha. Mas no fim de tudo fracassou. E é triste constatar que nem ao menos podemos dizer que ele nadou para morrer na praia, já que, diante de todos os seus equívocos, ele não resistiu nem ao primeiro mergulho." (Junior Souza) ” - kaparecida445-2-230390
 
76.
How Do You Know (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.4/10 X  
After being cut from the USA softball team and feeling a bit past her prime, Lisa finds herself evaluating her life and in the middle of a love triangle, as a corporate guy in crisis competes with her current, baseball-playing beau. (121 mins.)
Director: James L. Brooks
“ "Brooks segue com uma boa mão para comédias e como diretor de atores (as atuações do elenco principal sustentam o interesse), mas o filme sobre um bocado com uma maior falta de foco em sua primeira metade." (Vlademir Lazo)

Um filme inexistente.

"Tinha tudo para dar certo. Um elenco dos melhores, formado por um trio de jovens talentos e de inegável carisma, todos escorados por um dos maiores – o maior? – atores da sua geração; um diretor experiente, também roteirista de seus próprios filmes, e que, mesmo nos fracassos, sempre teve algo interessante a dizer; uma trama contemporânea, que envolvia comédia, romance, relacionamentos entre homens e mulheres e entre pais e filhos, solidão, esportes, e até especulação financeira. A premissa era interessante e até nos permitia imaginar que o diretor James L. Brooks quisesse reviver na Hollywood atual a época das grandes screwballs comedies, algo próximo a Cupido é Moleque Teimoso (The Awful Truth, 1937) ou Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story, 1940). Mas algo deu errado. Bem errado. Como Você Sabe – afinal de contas, o que quer dizer esse título? – é um filme que não funciona em nenhuma das suas frentes. Um filme que nasceu morto. A narrativa começa nos apresentando Lisa, ainda garotinha (Karsen Skinner). Ela observa um garoto dar os primeiros passos no beisebol. Ou ao menos, tentando. Por mais que ele repita o movimento, o bastão nunca atinge a bolinha no ponto exato. Depois de duas ou três tentativas, o menino desiste. Lisa se aproxima, pega o instrumento abandonado pelo garoto, e na primeira tacada, acerta a gorduchinha em cheio. Ele não se conforma com o êxito da concorrente, chega bem perto da menina e a empurra ao chão. Lisa não reage. Seu espanto não é pela violência que lhe fora imposta pelo agressor invejoso, mas pelo talento especial que acabara de revelar. O filme avança no tempo. Lisa (agora interpretada por Reese Whiterspoon) já tem 31 anos. O softball virou sua obsessão. Ela integra a seleção americana. Sua presença inspira as outras jogadoras. Ela é uma líder nata. Mas apesar disso, sua idade avançada para a prática do esporte a faz ser mais lenta que as colegas. O técnico sabe que dentro do campo, esses segundos preciosos farão mais falta que o significado moral de Lisa para a equipe. Ele pensa com razão e não com o coração e a corte do time. A vida de Lisa desaba. Paralelamente, o roteiro abre espaço para George (Paul Rudd), um jovem executivo, que vive à sombra do pai Charles (Jack Nicholson), e que de uma hora para a outra se vê como o personagem principal de uma investigação criminal por supostas práticas fraudulentas praticadas pela companhia. George namora Terry (Shelley Conn), mas ao saber da suspeita que recai sobre ele, a garota arruma uma desculpa e pula fora do barco. Sozinho e na fossa, George aceita a sugestão de uma amiga e telefona para Lisa para um jantar a dois. Só que a essa altura, Lisa está de rolo com Matty (Owen Wilson), um badalado jogador de beisebol, podre de rico e narcisista até o último fio de cabelo. Está formado o triângulo amoroso. Em seus trabalhos anteriores, James L. Brooks sempre demonstrou interesse em conflitos triangulares. Foi assim em Laços de Ternura (Terms of Endearment, 1983), talvez seu filme mais conhecido e principal vencedor dos Oscars daquele ano, em que um casal (Jeff Daniel e Debra Winger) vive com a eterna sombra da mãe da esposa (Shirley MacLaine). Em Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News, 1987), a tensão advém das disputas amorosas entre três jornalistas (William Hurt, Holly Hunter e Albert Brooks). Já em Melhor é Impossível (As Good as it Gets, 1997), os problemas surgem da estranha relação entre uma garçonete (Helen Hunt), um maníaco-compulsivo (Jack Nicholson) e um homossexual (Gregg Kinnear). Em Espanglês (Spanglish, 1994), o choque se dá entre um casal (Adam Sandler e Tea Leoni) e a emigrante mexicana que tenta vida nos EUA (Paz Vega). Em Como Você Sabe, a estrutura é a rigorosamente a mesma. No entanto, se nas obras anteriores Brooks tinha algo a dizer, aqui ele parece não ter uma história para contar. Mais que isso, sua maior habilidade de alternar suas narrativas entre o drama e a comédia, simplesmente desapareceu. Os personagens são desinteressantes. Os conflitos, tolos. E a graça, inexistente. Não sei se é possível classifica-lo dessa forma, mas Como Você Sabe é um filme inexistente. Considerando que James L. Brooks é o roteirista do projeto, me espanta como ele desconhece a psicologia dos próprios personagens que criou. Suas posturas, atitudes, decisões e ações, são incoerentes com os seus respectivos momentos de vida. Tome-se, por exemplo, Lisa. Por maior que fosse sua liderança em relação às demais jogadoras, é obvio que aos 31 anos de idade, ela deveria ao menos considerar o risco ser cortada. Mesmo assim, Lisa não tinha qualquer Plano B montado para quando esse dia chegasse. Quem sabe, uma outra profissão já engatilhada ou uma vaga de técnica num outro time profissional. Sua vida se resumia ao softball e nada mais. Se o filme desenvolvesse a paixão de Lisa pelo esporte, o público poderia ao menos tentar compreender o motivo que a deixou tão cega por um futuro que claramente já se anunciava. Nada disso. Então, como ficar chocada e deprimida ao receber a notícia do seu desligamento? Se as atitudes de Lisa perante sua vida profissional soam ingênuas, Brooks erra também ao construir a parte amorosa da personagem. Em primeiro lugar, temos o seu relacionamento com Matty, o jogador de beisebol. Matty é daqueles que vêem nas mulheres apenas duas utilidades: sexo e fazer delas ouvintes dos seus problemas. À noite, quando Lisa pensa em sair para curtir um jantar a dois, ele prefere ficar em casa e ver na televisão a reprise de um seus jogos. Mais que avaliar sua atuação, ele quer que Lisa veja o quanto ele é bom naquilo que faz. Em outro momento, ela percebe que Matty guarda em seu banheiro várias escovas de dentes, todas elas fechadinhas, novinhas em folha, e destinadas às outras mulheres que frequentam aquela casa. Não bastasse esse exemplo, Matty reserva para as suas amantes várias roupas cor-de-rosa, de diversos tamanhos, e que devem ser entregues de manhã, de modo que elas não saiam do seu apartamento com o mesmo figurino do dia anterior. Lisa é alvo de toda essa humilhação e, mesmo assim, aceita a condição de mulher objeto passivamente. Pior que isso, a certa altura, ela se arrepende de ter terminado o namoro e pede desculpas ao seu parceiro pelo gesto precipitado. Ainda que eu possa admitir a existência de mulheres que ainda aceitem – ou até preferem – a condição de eterna coadjuvante, não me parece que a personagem de Lisa, por mais deprimida que estivesse em função do seu corte do time de softball, teria esse tipo de comportamento. A relação entre Lisa e George também não se explica nem se justifica. O primeiro encontro dos dois é, no mínimo, bizarro. Ele acabou de terminar o namoro e, decididamente, não é a melhor companhia para o momento. Mesmo assim, eles marcam um jantar. Como ela não quer criar falsas esperanças (afinal, seu namoro com Matty está ficando sério), ambos combinam de comer em absoluto silêncio. E é desse jeito, sem trocar uma palavra, sem poder desabafar com sua companhia, que George se apaixona por Lisa. Mas pensando bem, talvez eu esteja errado. Talvez Brooks tenha querido definir a personalidade de Lisa pela primeira cena, já citada acima. Ao ser empurrada pelo garoto, ela não chora, não grita, não reclama, não revida. Ela olha o agressor sem nada dizer. Ela aceita a violência. Ou em outros termos, ela parece não se importar ou nem mesmo notar que foi alvo de uma agressão masculina. Isso talvez explique as condutas que adota em seus relacionamentos. Nas mãos dos homens, ela vira um joguete, aceitando sua condição de escada para o outro bilhar. O que mais me impressiona, é que ela nem se incomoda com isso. O filme sequer considera a possibilidade de Lisa curar suas mágoas profissionais sozinha. Pelo jeito, James L. Brooks ainda acha que as mulheres somente estarão plenamente felizes e realizadas se tiverem um homem ao seu lado. Mesmo se deixarmos de observar o filme pelo ponto de vista de Lisa, o filme permanece com erros. Matty, por exemplo, de narcisista e egocêntrico se transforma num homem atencioso, carinhoso e monogâmico. Ainda que isso possa ser tido como uma evolução da personagem, a mudança é muito brusca para ser verossímil. Já George é inocente e abobalhado demais para o aceitarmos na condução de uma grande empresa (ainda que ele seja o filho do fundador). E está claro que sua secretária, Annie (Kathryn Hann), que o consola durante as investigações criminais, não foi criada para ter vida própria, mas sim para servir de contraponto aos diálogos de George. Os equívocos de Brooks não estão só no desenvolvimento dos personagens, mas também na própria estrutura do filme. Há alguns deslizes primários, como a repetição de cenas inteiras dentro de uma mesma sequência. É o caso da visita de Lisa ao psiquiatra (em que uma piada é dita duas vezes, uma com ela dentro do consultório e outra, com ela fora), o nascimento da filha de Annie (quando a declaração de amor do seu marido fujão é também repetida, após o erro de George no manuseio da câmera), e o ônibus que afasta e aproxima os personagens centrais. Além disso, a habilidade de Brooks em desenvolver tramas paralelas que enriquecem o eixo central do filme, está ausente aqui. Em Laços de Ternura, por exemplo, os personagens do astronauta (Jack Nicholson) e do amigo de Debra Winger (feito por John Lithgow), intensificavam os conflitos das histórias principais. A mesma coisa se dava com o subplot do cachorrinho em Melhor é Impossível. Em Como Você Sabe, nenhum desses enredos secundários leva a lugar algum. Exemplo disso é a longa explicação da fraude empresarial e da consequente investigação criminal. Também não acrescentam em nada os diálogos de Lisa com sua ex-treinadora Sally (Molly Price). Numa salada mista como essa, o que dizer do elenco? Com todas as limitações do seu personagem, até que Reese Whiterspoon defende-se bem. Não espere a repetição de sua atuação em Eleição (Election, 1999), talvez seu melhor filme, mas até que ela não faz feio. Reese não é especialmente bonita, nem tem altura para se impor em cena, mas tem timing de comédia e sensibilidade dramática para saber se virar. Paul Rudd parece estar tentando se transformar numa espécie de Jack Lemmon da nova geração: o cara comum, boa praça, simpático, acessível, que poderia perfeitamente ser nosso vizinho. O roteiro não lhe dá maiores oportunidades, mas sua demonstração de paixão por Lisa é bastante sincera e serve de contraponto ao machismo de Matty. Já Owen Wilson é quem se sai melhor. O roteiro lhe reserva as melhores piadas, e o ator as aproveita. Seu jeito relaxado e meio cafajeste de interpretar se adapta bem ao personagem. E a cara lavada com que diz cada frase inadequada e ofensiva nos deixa desarmados. Ele sabe que trata mal as mulheres, mas é como se o fizesse com a melhor das intenções e da forma mais digna possível. Quanto a Jack Nicholson (sim, ele está no filme), há tempos que não se via o ator tão deslocado, tão pouco à vontade, e tão preguiçoso num papel. Nicholson parece ter aceitado o trabalho mais pela amizade com Brooks (é o quarto trabalho da dupla) do que pela crença no material. Pelos talentos envolvidos, tanto à frente quanto principalmente atrás das câmeras, o resultado final de Como Você Sabe é sim uma grande decepção." (Regis Trigo) ” - kaparecida445-2-230390
 
77.
Red Dawn (1984)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.4/10 X  
It is the dawn of World War III. In mid-western America, a group of teenagers bands together to defend their town, and their country, from invading Soviet forces. (114 mins.)
Director: John Milius
“ Um dos mistérios do correr do tempo é a mudança do título conhecido de filmes. Assim, A Invasão da América, não é outro senão "Amanhecer Violento", interessantíssimo filme de John Milius, de 1984. O que ocorre ali é uma invasão dos EUA. Não é de um planeta ou nada assim. São os comunistas mesmo. O país é pego de surpresa. Será defendido por um grupo de rapazes, antes de tudo, imbuídos dos valores americanos. Parece piada, em vista do fim da Cortina de Ferro, que já se esboçava. Mas não parece nada piada, vista a desenvoltura com que a América consegue voltar as costas a seus melhores valores. (* Inácio Araujo *) ” - kaparecida445-2-230390
 
78.
Winter's Bone (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.2/10 X  
An unflinching Ozark Mountain girl hacks through dangerous social terrain as she hunts down her drug-dealing father while trying to keep her family intact. (100 mins.)
Director: Debra Granik
“ "O segundo filme de Debra Granik segue a cartilha do cinema independente americano recente: direção frouxa que não valoriza momentos dramáticos. América profunda e seus habitantes com cara de malvados, clima e tons invernais e personagens desiludidos, que deixam outros sem esperança. O diferencial novo exemplar desse cinema moribundo é o ótimo desempenho da jovem atriz Jennifer Lawrence. Ela, que interpreta Ree, garota de 17 anos empenhada na busca pelo pai desaparecido, é o maior trunfo do filme - para não dizer o único. A trama pode inspirar algumas perguntas. Por que o pai esta desaparecido? Por que as pessoas que poderiam ajudar na busca se comportam de maneira tão hostil? Por que alguém quer morar num inferno desses? Quem respostas interessantes pode se decepcionar. Mas, pensando bem, os primeiros minutos de "Inverno da Alma" já indicam que nada de especial se poderia esperar desse filme, que parece ter sido dirigido por um computador." (Sergio Alpendre)

"Constrangedor. O que foi a tal cena da mão? No final, é um nada." (Alexandre Koball)

"O peso do passado e a responsabilidade do futuro de uma família nos ombros de uma garotinha de 17 anos. Bonito filme de Granik e a melhor atuação feminina desta temporada de Oscar." (Daniel Dalpizzolo)

"A atmosfera cuidadosamente construída e o ritmo cadenciado dão o tom da jornada de uma personagem muito bem desenvolvida, beneficiada pela belíssima performance de Lawrence. No entanto, o filme pouco recompensa o espectador, soando distante e frio." (Silvio Pilau)

"Jennifer Lawrence é alma do filme e quem garante o interesse pela história de ritmo excessivamente cadenciado. Não é um dos melhores longas do ano, mas serve a seu tipo de cinema." (Emilio Franco Jr)

"Bem mais equilibrado do que a média do cinema independente norte-americano, é gélido e ao mesmo tempo deprime e provoca comiseração. Filme pra fazer carreira em festivais, daqueles que começam em Sundance e terminam no Oscar." (Vlademir Lazo)

"Sob a direção segura de Debra Granik o roteiro costura situações que colocam a protagonista numa espiral de informações que culminam no 'osso do inverno' do título original. Jennifer Lawrence mostra uma segurança notável, mas todo o elenco está bem." (Welinton Vicente)

"Mesmo que difunda questões sociais com impressionante veracidade, falha gravemente por sua distância emocional para com o público, emitindo uma estranha sensação de vazio ao fim da exibição." (Junior Souza)

"Forte e cru na medida certa." (David Campos)

"Poucas vezes a América do Norte profunda foi filmada com uma visceralidade tão grande. Em um crescendo constante de tensão e desespero, Inverno da Alma é aquele tipo de obra que só te solta quando termina." (Bernardo D I Brum)

"Fotografia lindíssima em realce com o clima e o comportamento frios dos habitantes de uma cidadezinha que é personagem na saga da jovem vivida com intensidade por Jennifer Lawrence." (Rodrigo Torres de Souza)

Cinema independente americano vazio, que poderia ter ido mais longe. Ainda assim, bom.

Na virada dos anos 1980 para os anos 1990, quando uma produtora chamada Miramax, controlada pelo gordinho invocado Harvey Weinstein, comprou os direitos de distribuição de um pequeno filme chamado Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies, and Videotape, 1989), dirigido por um desconhecido Steven Soderbergh, nasceu o que se convencionou chamar de "cinema independente americano" (assim mesmo, entre aspas). Essa expressão abrigava um tipo de cinema mais autoral, de temática mais ousada, e pouco visto nas produções bancadas pelos grandes estúdios. De lá pra cá, a coisa mudou muito. Hoje, o tal "cinema independente" já aceita filmes de maior orçamento e com atores mais renomados. O único traço comum que os une é a preferência por histórias e tipos bizarros (quanto mais estranho, melhor) e por uma retrato cru da realidade (quanto mais sujo o filme, melhor). De todo o modo, esse movimento (se é que ele pode ser chamado dessa forma) trouxe um novo frescor ao cinema americano na primeira metade dos anos 90; ele que já vinha meio combalido da década anterior. Talvez isso explique o porquê a indústria, quem sabe tentando prestar contas ao passado recente, faça questão de celebrar um filme independente por ano. Veja que o fenômeno se repete com uma constância e pontualidade britânicas: de repente, sem mais nem menos, começamos a ouvir falar de um determinado filme que foi sensação em algum festival de cinema. A obra vai adquirindo força ao longo da temporada. Chega a época das premiações, e a produção confirma as expectativas e é indicada para vários deles. Passa-se alguns meses e esse mesmo filme estréia no circuito comercial brasileiro. O público, incentivado pelo hype que se formou ao seu redor, vai correndo e, surpresa, o filme, longe de ser ruim, não é tudo aquilo que falaram. Foi assim em 2001, com Entre Quatro Paredes (In The Bedroom, 2001); em 2002, com Secretária (Secretary, 2002); em 2003, com The Cooler - Quebrando a Banca (The Cooler, 2003) e O Agente da Estação (The Station Agent, 2003); em 2004, com Maria Cheia de Graça (Maria Full of Grace, 2004) e Napoleon Dynamite (idem, 2004); em 2005, com Retratos de Família (Junebug, 2005) e Eu, Você e Todos Nós (Me and You and Everyone We Know, 2005); em 2006, com Half Nelson (idem, 2006) e Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006); em 2007, com Juno (idem, 2007) e A Família Savage (The Savages, 2007); em 2008, com Rio Congelado (Frozen River, 2008) e Wendy e Lucy (idem, 2008); em 2009, com Educação (An Education, 2009) e Preciosa - Uma História de Esperança (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire, 2009). Em 2010, é a vez de Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010). "Inverno da Alma" começa sua narrativa nos apresentando Ree Dolly (Jennifer Lawrence). Aos 17 anos, ela não tem tempo para se preocupar com baladas, namorados e paqueras. Sua realidade é outra. Ela precisa cuidar de seus dois irmãos menores, Sonny, de 12 anos, e Ashlee, de 7, e da mãe, que praticamente vegeta pela casa em estado inconsciente. Eles moram na afastada região montanhosa de Ozark, no Estado do Missouri. Quem, como eu, tiver curiosidade de procurá-la na internet, descobrirá que ela se situa exatamente no miolo dos EUA, num território desconhecido até mesmo dos americanos. O pai, Jessup, está ausente. Logo saberemos o motivo: ele está preso por tráfico de metanfetamina, droga que pode ser fabricada em pequenos laboratórios e cujo poder destrutivo é maior do que o crack. Ree recebe a visita do xerife Baskin (Garret Dillahunt). Ela não o tolera. Ela ainda está convencida de que foi ele que denunciou seu pai sem se preocupar com as provas do delito. O xerife a informa que Jessup acabara de ser solto, mas se não comparecer a um determinado ato judicial, sua fiança será executada. E o bem dado em garantia foi simplesmente a casa em que a família reside. Para não perdê-la, Ree tem duas opções: achar seu pai e conduzi-lo às autoridades, ou provar que ele está morto. A jovem começa a investigação e nós acompanhamos sua história. Na sua estrutura, Inverno da Alma pode ser visto como um filme noir. As principais características do gênero estão lá: um personagem desaparecido (que pode ou não estar vivo), os obstáculos que se impõem pelo caminho (os parentes e amigos consultados por Ree não revelam tudo aquilo que parecem saber), e o fator tempo (se a moça não localizar seu pai, perderá a casa). Mas é claro que a diretora Debra Granik não estava nem um pouco interessada em realizar um thriller. Sua preocupação é usar o desaparecimento de Jessup apenas como um fio condutor da narrativa. O que importa para Granik é contar a história de uma jovem que luta para manter sua família unida, preservando sua dignidade num meio hostil. "Inverno da Alma" é o segundo filme da diretora Granik. Em 2004, ela escreveu e dirigiu Down to the Bone (idem, 2004), pelo qual ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Sundance. Lá, ela contava a história de uma mulher que cria seus filhos ao mesmo tempo que tem lidar com seu vício em cocaína. Aqui, Granik, com a colaboração de Anne Rossellini no roteiro, revisita alguns desses mesmos temas, em especial a crise da família e o consumo de drogas. Como diretora, Granik tem o mérito de passar seu recado mais pelas ações do que pelos diálogos. Ao mostrar o modo pelo qual Ashlee acorda Sonny pela manhã, como eles brincam no pula-pula, e criam vários cachorros ao mesmo tempo, a diretora nos transmite a sensação de existe ali uma família verdadeira e não apenas aquela imaginada numa tela de computador. Granik opta por colar a câmera nos rostos de seus atores. Percebemos as marcas de expressão, as rugas, os vincos do tempo. Sentimos o quão sofrida é aquela gente. Um sofrimento que advém, sim, das adversidades naturais (o frio nas montanhas torna o local quase inabitável), mas também da criminalidade, dos segredos, e da falta de perspectiva (a grande oportunidade para os jovens é o alistamento militar). Há uma derrapadas, como a sequência da feira de animais, em que Granik insere uma desnecessária trilha sonora para acentuar a tensão do momento. Mas nada muito grave que coloque tudo a perder. Em certo sentido, Inverno da Alma podia muito bem ser um filme dirigido pelos irmãos Dardenne. Outra virtude de Granik, é empregar os cenários naturais no desenvolvimento da trama e dos personagens. As paisagens inóspitas em que a história é ambientada, os trailers que servem de residências aos moradores, as roupas penduradas nos varais a céu aberto. Nada é desperdiçado. Em determinados momentos, as paisagens descoloridas nos remetem ao mundo pós-apocaplíptico que vimos em A Estrada (The Road, 2009), em que a civilização e o progresso ainda não chegou (ou já foi embora). Em Inverno da Alma, os elementos externos definem e explicam os internos. O elenco, formado na sua maioria por desconhecidos, também chama atenção. O destaque vai para Jennifer Lawrence, no papel de Ree. Sua personagem está em praticamente todas as cenas. Ree são várias mulheres em uma: ao peregrinar de casa em casa, em busca de informações sobre o paradeiro do pai, Ree é determinada. Ao cuidar de seus irmãos, Ree é maternal. Ao chorar na frente da mãe, Ree é simplesmente uma adolescente que precisa de colo. A falta de dinheiro faz com que ela sempre dependa da doa vontade dos vizinhos. Mesmo assim, ela ensina aos seus irmãos que não se deve suplicar por aquilo que deve ser oferecido. Ao lado dessa lição de dignidade, Ree mostra uma coragem (talvez não seja à toa que a imagem da atriz que surge no pôster do filme, com os cabelos loiros soltos ao vento, assemelha-se muito à de uma leoa) e um amadurecimento que vão muito além da sua idade cronológica. Dada à ausência do pai e à doença da mãe, ficamos imaginando de quem ela adquiriu essas virtudes. Dentro do seu mundo, Ree é uma super-heroína às avessas, sem super-poderes, e sem capa. O nome de maior destaque do restante do elenco é John Hawkes, que interpreta seu tio Teardrop. Hawkes é daqueles atores que raramente vemos em grandes produções. De fato, seu tipo marginal (uma estranha combinação de John Carradine e Vincent Gallo), e seu rosto marcado, encaixa-se à perfeição com filmes no estilo de Inverno da Alma. Sempre de barba, com aspecto sujo, e cheirando cocaína como quem troca de camisa, Teardrop a princípio se recusa – com violência, inclusive – a ajudar sua sobrinha na busca pelo pai. Mas ele sabe que Ree é inteligente e que fará as perguntas certas que a levarão a se deparar com a verdade. O tempo vai mostrar a Teardrop que as relações de sangue são mais fortes que pensa e que, ao som de um banjo (ecos de Amargo Pesadelo [Deliverance, 1972]?), nunca é tarde para voltar ao seio da família. Para o bem e para o mal, Inverno da Alma tem todos os tiques do cinema independente atual: baixo orçamento, elenco desconhecido do grande público, ritmo lento, câmera na mão, tremida e desfocada, fotografia escura e filmagens em locação. Como em quase todos os filmes desse gênero, sente-se uma necessidade de passar a imagem de que se está fazendo algo autoral. Por outro lado, transpira-se a garra dos envolvidos, como se a vida de cada um deles dependesse daquele projeto (o que talvez não seja de todo uma inverdade). No final das contas, Inverno da Alma entrega exatamente aquilo que promete: uma boa história de superação, ambientada num universo bem distante de nós brasileiros, com personagens bem desenvolvidos e com os quais podemos nos identificar e torcer. Mas fica no ar uma sensação de vazio, de que o filme poderia ter ido mais longe. O que, no fundo, talvez sejam as principais características do cinema independente americano." (Regis Trigo)

"Existe um bom filme de gênero dentro de Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010), um thriller sobre o desaparecimento de um traficante. Por fora, porém, há uma casca de filme de festival que impede que esta adaptação do romance de Daniel Woodrell se movimente com mais naturalidade. O próprio Woodrell cunhou uma expressão, country noir, para definir o gênero que ele pratica em seus livros de mistério ambientados nas montanhas Ozarks, no estado americano do Missouri. Winter's Bone, o mais recente, publicado em 2006, é o oitavo. Na trama, uma adolescente com dois irmãos menores precisa encontrar o seu pai, procurado pela polícia, para impedir que a justiça tome a sua casa. Todo rótulo é uma redução, mas a diferença principal do filme de gênero para o filme de festival é que o primeiro tem como base a familiaridade e o segundo, a estranheza. A ação de um filme de gênero é quase espontânea, o que muda são os fatores que a fazem andar. Já um filme de festival parte do zero, da observação do mundo; é preciso antes situar o espectador, e a ação é determinada por essa aproximação. O problema de O Inverno da Alma é que esses dois perfis tentam se impor juntos. O mistério do sumiço do pai já está em curso; a comunidade ali em Ozarks vive da contravenção, pode ter acontecido com ele qualquer coisa. Mas a narrativa é travada pelo documentalismo, por assim dizer. Seguimos a rotina da filha, Ree (Jennifer Lawrence), como se ela estivesse entrando em contato com tudo pela primeira vez, o que soa artificial. Na cena da escola, ela assiste ao treino militar com encanto, mas sentimos que ela já viu aquilo mil vezes. A atuação indicada ao Oscar de Jennifer Lawrence é clara e manifesta porque a câmera não larga dela. Ree é a nossa cicerone neste retrato que a diretora Debra Granik, em seu segundo longa, força para parecer autêntico: todo mundo tem camiseta de estampa de lobo e mal pode aparecer um banjo que alguém já senta pra tocar. A apresentação dos coadjuvantes é sintomática do choque de estilos. Ela é funcional como em todo filme de gênero (cada personagem é uma peça a mais no mistério) mas quer soar natural, e fica difícil ser ambos ao mesmo tempo. Então tome personagem, inicialmente curvado e de costas (a privacidade é respeitada nos registros naturalistas), virando-se para a câmera na hora de cheirar cocaína, para tipificar esse personagem e funcionalizar o momento. Antes de ser indicado a quatro Oscars - filme, roteiro adaptado, ator coadjuvante para John Hawkes e atriz para Lawrence -, Inverno da Alma levou prêmios em Sundance e Berlim. É, portanto, um filme de festival consumado. Infelizmente, só começa a se aceitar como filme de gênero a partir da metade, ao caminhar para a resolução do mistério (o clímax é notável), quando as suas obrigações com a apresentação naturalista foram todas cumpridas. Não deixa de ser uma situação perversa. Esse filme nunca chegaria ao Brasil se não fossem os prêmios, mas a sua faceta B, mundana, policialesca, que não dá prestígio pra ninguém, muito menos Oscars, é muito melhor que a sua parcela de arte." (Marcelo Hessel)

83*2011 Oscar / 68*2011 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
79.
The Dancer and the Thief (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.3/10 X  
With the advent of democracy in Chile, a general amnesty for prisoners of non violent crime is enacted... (127 mins.)
Director: Fernando Trueba
“ "Serve ao menos para provar a força do nome de Ricardo Darin no Brasil: sem ele, esta verdadeira bomba seria destinada ao mercado de home-video, e lá seria devidamente esquecido. E pensar que, em 1992, Trueba dedicou seu Oscar por "Sedução" a Billy Wilder!" (Regis Trigo)

"A Dançarina e o Ladrão" se parece com um presente barato, do qual você não precisa, mas embrulhado numa embalagem tão sofisticada que por um momento tem-se a impressão de se estar diante de uma preciosidade. Uma comédia dramática com certa aura de realismo mágico que almeja muito mais do que aquilo que realmente consegue transmitir. O roteiro do diretor espanhol Fernando Trueba (Quero Dizer que te Amo), de seu filho Jonás Trueba e de Antonio Skármeta é inspirado na obra homônima do escritor chileno lançada em 2003. Não tive a oportunidade de ler o livro, então não sei até que ponto do filme toma liberdades. O fato é que essa adaptação faz uma mistura de gêneros mal azeitada onde sobra pretensão e falta talento para manter a coesão. Por mais que Trueba se esforce para fazer a amálgama dar certo, A Dançaria e o Ladrão, no final das contas, é um filme sem norte. E assim segue, perdido, até o final. Visualmente de encher os olhos – a fotografia aqui faz parte do soberbo embrulho -, o longa começa com a notícia de que o governo chileno, agora democrático, decidiu anistiar diversos presos do país. Em consequência, voltam à liberdade Angel Santiago (Abel Ayala), um bandidinho de pouca importância, e Nicolás Vergara Grey (Ricardo Darín), famoso ladrão de cofres e caixas fortes. Os dois ainda não se conhecem pessoalmente, mas Ángel carrega um plano criminoso que envolve Vergara Grey. Este sai da cadeia com a intenção de se aposentar, com a esperança de recuperar sua família e o dinheiro do último roubo, mas descobre que as coisas mudaram bastante durante seu tempo na cadeia. Ángel, por sua vez, em seu primeiro dia livre, conhece Victoria Ponce (Miranda Bodenhofer), uma dançarina de rua com um passado que decide ajudar. Insistindo em vão em alcançar harmonia e poesia com suas belas imagens destituídas de um história coesa, Trueba apela para o sentimento do público para não perdê-lo, forçando situações de suposto peso dramático para conquistar o coração da audiência. Alguns desses momentos soam ridículos, como a sequência em que os personagens de Ricardo Darin e Ariadna Gil conversam mentalmente. Outros, amadores, como a demonização dos professores de uma escola de balé que avaliam Victoria. Mais uma artimanha a compor o pomposo pacote do filme. A suposta sensibilidade buscada por "A Dançaria e o Ladrão" nunca é achada. Sua riqueza de imagens se confronta com uma narrativa lamentável e irregular. Depois de aberto o embrulho, a surpresa é nada agradável." (Roberto Guerra)

"Não se pode negar que as distribuidoras no Brasil tiveram uma grande melhora no tempo de lançamento dos filmes por aqui, mas ainda vemos alguns casos que chega a impressionar - A Dançarina e o Ladrão que foi lançado em 2009 em sua terra natal, somente agora, 3 anos depois chega em circuito comercial aqui no Brasil. Por não se tratar de um filme norte americano até que faz um certo sentido. O filme foi o representante da Espanha no Oscar de 2010 na categoria de filme estrangeiro, não chegou a ficar entre os 5 indicados, mas seus representantes levavam muita fé no sucesso do longa, pois além de um tema forte ainda conta Ricardo Darín e a direção de Fernando Trueba um dos mais elogiados diretores espanhóis da atualidade. O que vemos nesse longa é uma mistura interessante de poesia com metalinguagem e infelizmente excesso de clichês em alguns momentos, mesmo assim é um filme muito agradável para conferir. O filme tem inicio com a chegada da democracia no Chile, os presos do período da ditadura estão sendo soltos, um deles é o jovem Ángel (Abel Ayala) que sai decidido a se vingar dos abusos sexuais que sofreu na prisão, além de procurar outro detento que foi solto, Vergara Grey (Ricardo Darín) para ajuda-lo em um plano ambicioso de um assalto num cofre do antigo regime militar chileno. O problema é que Vergara sai com o objetivo de reencontrar sua família e retomar sua vida, mas ele ao chegar percebe que não vai ser uma tarefa fácil. Tudo parecia estar perfeito para que ambos se aproximassem e dessem inicio nesse plano, mas Ángel conhece Victoria (Miranda Bodenhofer) uma dançarina muda que mexe com o rapaz, transformando seu "ódio" em força para buscar uma nova vida na Argentina com a amada. O roteiro escrito por Fernando Trueba, Jonás Trueba e Antonio Skármeta foi adaptado da obra homônima do escritor Skármeta, e como já citei acima busca uma narrativa poética para contar essa história de recomeço, de esperança e de amor, o único problema é que em várias passagens o uso abusivo de clichês tira um pouco o encantamento que foi buscado pelo trio. O diretor Fernando Trueba tenta equilibrar as duas tramas paralelas do filme a de Ángel e do Vergara, mas o casal formado Ángel e Victoria acaba roubando a cena e tomando conta dos melhores momentos do longa, pois o diretor usa do lirismo para, aos poucos, desvendar detalhes dos dois personagens. Talvez essa dupla trama, que na verdade se mistura, foi responsável por um certo desequilíbrio no ritmo do filme, ora sendo empolgante e divertido com a carisma enorme de Ángel ora arrastado e repleto de clichês com Vergara. E por falar em carisma o elenco é um grande achado do filme. Ricardo Darín um dos grandes atores da atualidade está bem, como se espera de um ator de seu nível, mas seu personagem não cresce devido a dinâmica do roteiro, os grandes destaques são para os jovens atores: Miranda Bodenhofer e o mega carismático Abel Ayala que como disse tomam conta do filme, sendo responsáveis pelos melhores momentos do longa - por eles, vale muito a pena conferir o filme. Antes de concluir vale dizer que o uso de clichês em algumas ocasiões é relevante quando isso faz sentido e principalmente, quando a execução é bem realizada, nesse longa existe isso, o que atrapalha é que no decorrer do longa existe um abuso desnecessário, o que para muitos pode soar como inferior frente a outros longas, mas o Ccine recomenda, mesmo não sendo uma obra prima é um filme que consegue manter o interesse do público para os desfechos das tramas e principalmente encantar com a doçura da dança misturada com a "dureza" dos ladrões." (Kadu Silva)

"Durante o período de reabertura democrática chilena, dois bandidos anistiados, um veterano e um jovem, possuem planos diferentes para o futuro. O veterano, interpretado por Ricardo Darin, só quer reencontrar sua família e conquistar a confiança e o carinho do filho. Já o mais novo quer por em ação um golpe idealizado por um companheiro de cela. Essas duas visões de mundo, a de um jovem que ainda romantiza o crime e a de um homem mais velho que se resignou, se alternam ao longo do filme, entrecortadas por uma terceira, a da jovem moça muda que sonha em ser bailarina. O destino dos três se cruza numa narrativa que tem certo ar de fantasia. O personagem mais interessante é o de Darin, que pode ser resumido na cena em que, numa festa em fim de tarde, ele conversa com a ex-mulher enquanto canta My Way no Karaokê. Esse hino internacional do ressentimento que diz mais ou menos fiz tudo errado, mas faria de novo, reforça a constatação do personagem: só se vive uma vez, ou seja, um único erro pode marcar uma vida toda." (Luiz Carlos Oliveira Jr) ” - kaparecida445-2-230390
 
80.
Henry's Crime (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.0/10 X  
Released from prison for a crime he didn't commit, an ex-con targets the same bank he was sent away for robbing. (108 mins.)
“ "Não convence em momento algum, mas até que dá para levar." Rodrigo Cunha)

A viagem do personagem nos mostra que por mais esquisito que seja seu sonho, ele deve ser alimentado.

"Nunca se afaste de seus sonhos, porque se eles forem, você continuará vivendo, mas também terá deixado de existir. Essas palavras não são minhas, mas do grande escritor Mark Twain, que revelam a importância dos sonhos na vida de alguém, por mais desgraças ou sorte que este tenha. Os sonhos são o tecido da pele do homem. No entanto, no caso de Henry(Keanu Reeves), nada disto faz sentido. Em “A Ocasião Faz O Ladrão“(Henry´s Crime, 2010, EUA) ele é uma pessoa que apenas se contenta em ser normal. Da casa para o trabalho, da sua esposa de volta para o trabalho, segue sua rotina inerte. Sem sonhos, vê as coisas acontecendo ao seu redor pacatamente, como se os outros tomassem as decisões por ele, vivendo refém das circunstâncias. Tudo muda quando Henry é preso acusado de roubar um banco, crime que, obviamente, não cometeu. Condenado a cumprir três anos, vê sua mulher o trocar por outro homem no momento mais trágico de sua vida. Mas ele não sofre. Na prisão, conhece o velho Max(James Caan), que lhe pergunta qual era seu sonho. Acho que não tenho nenhum, responde Henry. Bem, o verdadeiro crime é você não explorar o seu sonho”. Passado o tempo de sua pena, agora ele tem um sonho: roubar o banco que não roubou. O longa marca a estreia de Reeves como produtor. Afastado dos holofotes desde os tempos de Matrix, apesar de ter feito outros filmes como A Casa do Lago, o ator não encontrou o prestígio de outrora. Seu sucesso teve efeitos colaterais, marcando-o como inexpressivo em qualquer papel, fato que ele próprio, agora, parece notar. Aqui, a escolha do personagem torna sua limitação uma virtude. A intenção do filme é transformar todas as tragédias e infortúnios de Henry em fatos engraçados. Não são. Ao longo da trama podemos ver suas mudanças, que aos poucos o fazem encontrar seu lugar na vida, como quando conhece Julie(Vera Formiga), e decide participar de uma peça de Tchekov. Nada disso será problema, desde que você não espere uma comédia, pois se trata de um verdadeiro drama. A viagem do personagem nos mostra que por mais esquisito que seja seu sonho, ele deve ser alimentado. Por vezes nos dobramos as imposições que a vida nos faz atribuindo explicações à única verdade: falta coragem. O passo seguinte é a frustração, e a falta de sonhos pode nos fazer possuir coisas que não escolhemos. Daí a indiferença diante das tragédias. Twain tinha razão. Os sonhos também podem ser um sofrimento. Um bom começo para Reeves em sua nova função. Para ficar melhor, falta sonhar com roteiros e diretores melhores." (Thiago Miota)

"Numa discussão sobre qual seria o pior filme de Keanu Reeves, este com certeza seria um páreo duro e disputaria palmo a palmo com O Dia em que a Terra Parou. Aqui Reeves é Henry, um sujeito apático que leva uma vida monótona e sempre se conformou com tudo o que lhe acontece, até que é preso por engano num assalto a banco. Após sair da cadeia ele decide que já que cumpriu a pena, deve pelo menos tentar assaltar o tal banco e assim se envolve com um ex-presidiário gente boa (James Caan de Nova York Eu Te Amo) e com uma aspirante a atriz (Vera Farmiga de Contra o Tempo) que ensaia para uma peça no teatro ao lado do banco. Apatia – tal qual o protagonista – seria a palavra exata para descrever a produção. O próprio fato do personagem parecer não sentir nada a partir dos estímulos externos faz com que o espectador sinta menos ainda. E o roteiro maçante não ajuda, torando a seqüência de eventos morosa e absurda desde o início quando Hanry vê praticamente uma propaganda dizendo a maneira de roubar o banco. Pior é o trânsito livre que eles tem no teatro, como se não houvesse segurança nenhuma; ou até mesmo o artifício ridículo que faz com que Henry, desprovido de qualquer carisma, ainda consiga ser o protagonista da peça. Mas nada é coincidência: o diretor dessa pasmaceira é Malcolm Venville, o mesmo que vez o chatíssimo Código de Sangue. Quem se salva é James Caan que faz uma interpretação com um humor na medida certa. “A Ocasião Faz o Ladrão” traz Reeves num dos piores papéis de sua carreira, precisando ressuscitar urgentemente o mundo de Matrix pra nos trazer algo que valha a pena." (Cinecríticas) ” - kaparecida445-2-230390
 
81.
Mao's Last Dancer (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.4/10 X  
A drama based on the autobiography by Li Cunxin. At the age of 11, Li was plucked from a poor Chinese... (117 mins.)
Director: Bruce Beresford
“ "Volta e meia algum diretor ocidental decide filmar a realidade de países orientais como se pudesse dar conta de um mundo tão diferente. Danny Boyle acha que fez um filme indiano com Quem Quer Ser um Milionário, e Bruce Beresford (do oscarizado Conduzindo Miss Daisy) decidiu contar uma história chinesa em "O Último Dançarino de Mao" Inspirados em fatos reais (o que serve para dar mais autencidade a coisa), o filme narra a história de Li Cunxin, talentoso bailarino que no fim dos anos 1970 é enviado para estágio no balé de Houston. Li se apaixona por uma colega americana e logo começa a desafiar o governo chinês, resistindo a voltar ao seu pais. Regado a música piegas, o filme é uma cartilha de como os comunistas são ruins e de como um chinês comum pode perceber a superioridade da liberdade americana, desafiar um regime atrasado e tornar-se herói. Não seria preciso defender o autoritarismo chinês. Mas um maniqueísmo tão infantil só pode resultar numa outra armação política, tão nociva quanto a do inimigo." (Thiago Stivaletti)

"Um relato muito correto da rigorosa política promovida por Mao Tsé Tung, carece de ousadia, mas não incomoda e funciona bem como curiosidade histórica. As cenas de balé são muito bem filmadas, o que eleva a qualidade da experiência." (Rodrigo Torres de Souza0

"O cineasta australiano Bruce Beresford ( do premiado Conduzindo Miss Daisy) dirige o longa "O Último Dançarino de Mao" com delicadeza e sensibilidade. Na tela temos a uma história inspiradora de coragem, determinação e amor pontuada por excelentes números de dança. Beresford escapa habilmente de alguns clichês, recaí em outros, mas, no conjunto, realiza um filme que merece a atenção do espectador. Baseado numa história real, o longa é a adaptação do best seller autobiográfico Adeus China: O Último Bailarino de Mao, de Li Cunxin. Começa em 1979 com o personagem central chegando aos Estados Unidos para estudar na Companhia Houston Ballet, do Texas. Em seguida, flashbacks nos levam à província rural de Qingdao, onde Li vive em condições de subsistência ao lado dos muitos irmãos e dos pais. Aos 11 anos, sua vida muda para sempre quando é selecionado por um grupo de inspetores do governo para ir a Pequim e torna-se um bailarino na Academia Madame Mao Dance. Todo o desenrolar dessa primeira parte do filme, que se concentra no amadurecimento do personagem e suas provações, conta com excelente reconstituição de época, fruto de um trabalho de direção de arte elogiável. Os dois jovens atores que vivem Li antes da fase adulta (Wen Bin Huang, quando criança, e Guo Chengwu como adolescente) imprimem verdade e emoção a seus papéis e alicerçam o terreno para o ator Chi Cao, que nos Estados Unidos aprende a apreciar a liberdade do país e apaixona-se por uma dançarina, o que o leva a não quer mais voltar para sua terra natal. A situação causa estresse diplomático entre as nações e faz com que o bailarino fique proibido de voltar à China para rever seus familiares. É na parte do filme ambientada na América que notamos alguns dos problemas da produção. O choque cultural de Li é desenvolvido apelando-se para toda sorte de clichês, que incluem olhares de admiração para arranha-céus, queixo caído diante de um caixa eletrônico cuspindo dinheiro e desconforto no ambiente descontraído e iluminado de uma danceteria. Da mesma forma simplória são exploradas as questões políticas, levadas de forma maniqueísta e rasa: de um lado os chineses retrógrados e insensíveis, do outro a América amante da liberdade e paradisíaca. Apesar dessas e de outras escorregadas, que incluem alguns diálogos mal elaborados, "O Último Dançarino de Mao" se redime em seus 15 minutos finais com um desfecho forte, feito com o intuito claro de emocionar, sim, mas de cinema verdadeiramente bem realizado. Em tempo: vale destacar a ótima atuação de Bruce Greenwood (de Super 8). Ele interpreta Ben Stevenson, diretor artístico da Companhia Houston Ballet, sem as afetações e maneirismos que muitos atores costumam imprimir em personagens homossexuais." (Roberto Guerra)

"O Último Dançarino de Mao" é a versão para cinema da autobiografia de Li Cunxin, nascido num vilarejo chinês, e que se tornou uma referência na dança mundial, fazendo carreira nos Estados Unidos e na Austrália, onde hoje vive. O drama é dirigido por Bruce Beresford, cujo filme mais conhecido é Conduzindo Miss Daisy, vencedor de quatro Oscars em 1990, incluindo o de melhor filme. Quem viu Conduzindo Miss Daisy sabe que a tendência do australiano Beresford o leva para as proximidades perigosas da pieguice, mas, sem, talvez, nela mergulhar de maneira acrítica. Há disso também nessa bela história de Li Cunxin, uma trajetória de realização pessoal, mas também de renúncias e conflitos, envolvendo algumas questões políticas próprias da Guerra Fria. Claro que este não é o foco principal do filme, mas ele atravessa essas circunstâncias históricas de maneira inevitável. Por exemplo, quando vemos o pequeno Li Cunxin, com sua família pobre do interior da China, há uma situação política bem marcada – a da Revolução Cultural, comandada pela então esposa de Mao Tsé-tung, Chiang Ching. Ela, com seus característicos óculos redondos, vê um bailado local e logo questiona o líder da comunidade: E onde está a revolução? Onde estão as armas? Maneira de dizer que arte deveria ser politizada, deveria servir à educação do povo para os valores da revolução. Onde fica a estética nesse mundo em que a arte deve, de forma programática, ser colocada a serviço de uma causa, não importa seja ela boa ou má? Há toques assim espalhados pelo filme. Talvez sejam transcrição exata da autobiografia do dançarino; talvez esses pontos tenham sido reforçados por Beresford segundo suas próprias convicções. No fundo, pouco importa, porque, ao vermos um filme, analisamos o resultado exposto na tela, e nada mais. O filme se diz a si próprio, independente do que dele diga o diretor. De qualquer forma, acompanhamos a trajetória de Li Cunxin na meninice até sua transferência a Pequim, beneficiado por uma bolsa de estudos do governo. Anos depois, o grande passo, a viagem aos Estados Unidos num programa de intercâmbio. Li, já um rapaz, chega a Houston, no Texas, e talvez seu deslumbramento boquiaberto diante dos arranha-céus tenha chegado perto do caricatural. Entendemos que um jovem saído do interior chinês fique surpreso com a opulência arquitetônica dos Estados Unidos mas, mesmo assim, a reação parece um tanto exagerada, feita para assinalar a diferença de estágios entre as duas civilizações. E, claro, não está no filme à toa, mas para marcar determinada posição do diretor. Isso não tira o encanto da história de Li Cunxin, com seus elementos de superação pessoal, tão a gosto do Ocidente cinematográfico. Ou, pelo menos, do mainstream, a corrente dominante desse cinema, da qual Beresford faz parte. Boa parte dessa força vem de Chi Cao, que interpreta Cunxin quando adulto. Sóbrio, vencendo aos poucos a timidez, apaixonado e determinado, ele dá ao filme uma pulsão que de outra forma não teria. Compreende-se. Os pais de Cao foram antigos professores de Cunxin na Academia de Dança de Pequim. O próprio Cunxin escolheu Cao para interpretá-lo no cinema. Essa familiaridade contribui muito para a autenticidade do filme, em que pesem seus momentos menos felizes porque cortejam a emoção fácil e mais caricaturais porque flertam com a ideologia." (Luiz Zanin) ” - kaparecida445-2-230390
 
82.
Audrey Rose (1977)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.9/10 X  
A stranger attempts to convince a happily married couple that their daughter is actually his daughter reincarnated. (113 mins.)
Director: Robert Wise
“ "Este filme dirigido pelo veterano Robert Wise defende, com toda a seriedade, a tese da reencarnação. Achei isso corajoso, interessante. Anthony Hopkins faz um sujeito rico e estudado que tenta convencer um casal (Marsha Mason e John Beck), em plena Nova York, capital do mundo, de que a filha deles é a reencarnação da sua própria filha, Audrey Rose, que morreu queimada em um acidente de carro. Aparentemente, pouca gente levou o filme a sério, apesar do peso do nome de Wise, vencedor de quatro Oscars, diretor de A Noviça Rebelde/The Sound of Music, um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos, e do extraordinário Amor, Sublime Amor/West Side Story, para citar apenas duas obras de sua vasta filmografia – que inclui o trabalho de montagem de Cidadão Kane/Citizen Kane. O livro The United Artists Story diz que o filme é uma história improvável de reencarnação, e que ele próprio é uma reencarnação de O Exorcista/The Exorcist. Leonard Maltin o define como um thriller de reencarnação longo demais e com atuações ruins. Já o AllMovie, numa crítica assinada por Craig Butler, dá importância ao filme. “Audrey Rose", parte do ciclo de filmes de terror dos anos 1970 causado pelo enorme sucesso de O Exorcista, é um exemplo mais inteligente, cheio de nuances, do gênero – o que é ao mesmo tempo sua bênção e sua maldição. Robert Wise o dirigiu numa maneira relativamente suavizada, mas ainda assim tem diversos momentos apavorantes. Trabalhando sobre um roteiro muito palavroso – e que tenta discutir racionalmente o conceito de reencarnação ao mesmo tempo em que mantém uma atmosfera de horror -, Wise inteligentemente faz das palavras uma vantagem. Mantém o foco no diálogo – ou, muitas vezes, monólogo -, enquanto sutilmente dá grande ênfase aos movimentos para criar tensão ou suspense. Wise também dá ao filme um estilo visual, e a cena do homem de neve na escola é particularmente bem feita. Ele é ajudado pela atuação intensa, cheia de dor, de Anthony Hopkins, e pela mudança impressionante por que passa Susan Swift no papel título. Ao fim e ao cabo, as pretensões do roteiro impedem que ele seja um thriller de primeira linha, mas ainda assim é uma alternativa decente a outros thrillers mais conhecidos.” (50 Anos de Filme) ” - kaparecida445-2-230390
 
83.
Grandma's Reading Glass (1900 Short Film)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.0/10 X  
A boy looks through glasses at various objects, seen magnified. (2 mins.)
 
84.
The Rum Diary (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.2/10 X  
American journalist Paul Kemp takes on a freelance job in Puerto Rico for a local newspaper during the 1960s and struggles to find a balance between island culture and the expatriates who live there. (120 mins.)
Director: Bruce Robinson
“ "Depp desta vez está caricatural, a trama é chata, o formato é muito quadradinho e mesmo o núcleo jornalístico é covarde. Enormemente inferior a Medo e Delírio, de Terry Gilliam." (Heitor Romero)

Os anos desinteressantes de Hunter S. Thompson.

''Hunter S. Thompson foi um ser humano interessantíssimo. Provocativo, contestador e criador do chamado Jornalismo Gonzo, no qual os autores inseriam a si mesmos e suas experiências nas histórias, o jornalista morto em 2005 ficou conhecido por sua falta de limites no uso de álcool e alucinógenos, sem contar um constante embate contra as autoridades. Seus livros, ao longo dos anos, tornaram-se cultuadíssimos e o autor, inclusive, teve a sua obra mais famosa levada aos cinemas como Medo e Delírio (Fear and Loathing in Las Vegas, 1998). Comandado pelo maluco montypythioniano Terry Gilliam e estrelado por um ensandecido Johnny Depp, o filme cultivou uma legião de fãs por representar de forma única e criativa a viagem (nos dois sentidos) de Thompson rumo a Las Vegas com o objetivo de escrever uma matéria. Durante a produção, o autor e Depp tornaram-se amigos e o astro convenceu Thompson a publicar um de seus manuscritos que jamais tinham chegado ao público: exatamente aquele que deu origem a ''Diário de um Jornalista Bêbado'' (The Rum Diary, 2012). No entanto, por mais que tenha sido uma figura fascinante nas décadas posteriores, Hunter S. Thompson ainda não o era em 1960, quando viajou a Porto Rico para trabalhar em um jornal. E, infelizmente, é esse o período de sua vida retratado em Diário de um Jornalista Bêbado. Novamente trazendo Johnny Depp no papel do jornalista (aqui com o pseudônimo de Paul Kemp), a produção retrata Thompson naquilo que mais parece um período de formação de sua personalidade, quando, aos 22 anos, ainda não era o personagem ainda hoje reverenciado por muitos. Aliás, o próprio filme parece fazer questão de esclarecer isso: se, em seus trabalhos posteriores, Thompson demonstrava desdém com regras, como a entrega de textos no prazo, e não dava a menor bola à hierarquia, aqui seu alter ego Paul Kemp ainda se preocupa em manter uma certa imagem positiva – o fato do protagonista dizer a Hal Sanderson que continuará esperando no aeroporto por uma personalidade já atrasada ou como lembra em ligar para a redação do jornal com o objetivo de avisar que vai se atrasar são exemplos disso. Assim, Diário de um Jornalista Bêbado vale mais pela curiosidade do que por ser realmente interessante: trata-se, de certa forma, de um ensaio do personagem que Hunter S. Thompson viria a se tornar. E é exatamente aí que mora o primeiro problema da produção: não há realmente algo a ser contado. O personagem ainda não tem o apelo necessário, praticamente não existe uma trama e o diretor Bruce Robinson está a anos-luz da inventividade narrativa de Terry Gilliam. Dessa forma, resta ao público acompanhar Paul Kemp em situações pouco interessantes por Porto Rico e envolvendo-se com outros personagens igualmente enfadonhos. Aliás, ao contrário do que o título filme pode dar a entender, em Diário de Um Jornalista Bêbado, Thompson ainda não é o borracho que se tornaria notório (ou, ao menos, o filme é incapaz de transmitir isso). Na realidade, são poucas as vezes em que o protagonista surge alcoolizado e mesmo quando isso acontece a questão é tratada de forma desleixada por Robinson e pelo roteiro (escrito pelo próprio cineasta). Um exemplo é a festa na casa de Sanderson e de sua esposa: Kemp parece estar são na festa, porém, basta seu amigo Sala chamá-lo para ir embora que o personagem parece entrar em um estado de embriaguez total, inclusive brigando com moradores locais e com a polícia, em um exemplo da falta de lógica e da pouca preocupação com a continuidade por parte de Robinson. Sabe-se lá por que Depp e os demais produtores escolheram para a obra um cineasta que não dirigia um filme há vinte anos - seu último trabalho havia sido o suspense Jennifer 8 – A Próxima Vítima (Jennifer Eight, 1992). Talvez por estar enferrujado, talvez por simplesmente não possuir talento algum para conduzir uma história, Bruce Robinson jamais encontra o tom certo da sua narrativa. Em certos momentos, a produção assume quase um tom cartunesco (como quando Kemp põe fogo no rosto de um policial e, logo depois, o mesmo policial já está na audiência do protagonista em frente ao juiz), enquanto em outros adota uma postura mais séria (como na tentativa do protagonista de acertar as contas com Sanderson). Da mesma forma, o cineasta parece não ter certeza do que pretende dizer com o filme: há uma cena em que um dos personagens faz um discurso sobre o que é sonho e o que é realidade, outros instantes em que a história parece trazer uma mensagem sobre a ganância e as sequências nas quais tudo parece ser uma história de amor. Robinson é incapaz de encontrar o equilíbrio entre estes diferentes gêneros, fazendo de Diário de um Jornalista Bêbado um filme confuso, ao invés de um filme sobre um período confuso da vida de Thompson. Para piorar, o cineasta não se dá conta de que o seu filme é sobre um fanfarrão como Thompson e oferece um tratamento sério e quadrado demais à produção. As tentativas de comédia caem no vazio ou no óbvio (Não me deixe ver faróis! Não me deixe ver faróis! Acabo de ver faróis.), ao mesmo tempo em que os poucos momentos em que Robinson assume a insanidade funcionam como uma mera amostra da viagem que tudo poderia ter sido (como a cena da alucinação com a língua). Enquanto isso, a obra também sofre com problemas de ritmo: será que, por exemplo, a cena com a feiticeira, já no terceiro ato da história, não poderia ser reduzida? Na maior parte do tempo, a produção, ironicamente, encontra sua perfeita definição na própria análise do caminhar de um bêbado: caminha de um lado para o outro sem conseguir encontrar o seu foco. Mas o principal problema narrativo de ''Diário de um Jornalista Bêbado'' é que o filme simplesmente não consegue construir um conflito para gerar o mínimo de dramaticidade à história – ou melhor, constroi diversos, mas todos de forma precária e insatisfatória. O roteiro dá início a certas tramas, mas não apenas ignora algumas no decorrer da narrativa, como também fica no meio do caminho em relação às outras: a história com Sanderson não possui final, o romance com Chenault encerra da mesma maneira súbita e abrupta como começou e o próprio arco dramático do protagonista não convence – se houve alguma mudança no Paul Kemp do fim do filme e o Paul Kemp do início, isso se deve apenas à necessidade do roteiro, não a alguma construção gradual do personagem. Aliás, Robinson também demonstra falta de talento para criar diálogos interessantes ou, ao menos, lógicos. Em determinado instante, Kemp diz: “Não sei escrever como eu”. Isso faz algum sentido? O que significa? Parece apenas o cineasta dando tapinhas nas próprias costas com a impressão de ter feito algo profundo. O mesmo vale para a frase de Sanderson ao final: Você estragou tudo, Kemp. Não é preciso muita reflexão sobre os acontecimentos do filme para perceber que o protagonista não fez quase nada e que a fala não faz sentido. Interpretando Thompson de forma significativamente mais contida do que em Medo e Delírio, Johnny Depp parece usar a sua atuação como forma de reforçar a impressão de que a persona do escritor ainda estava sendo formada. Ainda assim, a empatia do astro é suficiente para criar um personagem carismático, que conquista a plateia sem muito esforço. Em contrapartida, se Depp prefere evitar os excessos em seu trabalho, Giovanni Ribisi se esbalda com as possibilidades de uma trama que gira em torno de personagens nem sempre sãos: seu Moburg se torna rapidamente a figura mais interessante e divertida de um universo onde elas deveriam existir em maior quantidade. Enquanto isso, Aaron Eckhart parece à vontade, equilibrando charme e vilania, ao passo que Amber Heard nada tem a fazer além de esbanjar sensualidade. ''Diário de um Jornalista Bêbado'' parece um filme feito entre amigos, no qual o processo de filmagem parece ter sido mais divertido do que o resultado final. É insosso, desinteressante e quadrado demais. E a caretice do plano final, com o protagonista navegando rumo ao sol, é a prova de que, ao menos dessa vez, o espírito irreverente de Hunter S. Thompson ficou em algum outro lugar." (Silvio Pilau)

Depois de Medo e Delírio, agora Johnny Depp encarna Hunter Thompson como um proto-gonzo idealista.

''Embora tenha sido publicado apenas em 1998, Diário de um Jornalista Bêbado é o segundo romance que Hunter S. Thompson escreveu, logo depois de trabalhar brevemente, em 1960, como repórter em um jornal em Porto Rico. Embora o criador do jornalismo gonzo já tivesse, àquela altura, dois anos de experiência de campo, o livro acusa a inocência com que Thompson ainda encarava o ofício - era um jornalista romântico, como o próprio reconheceu anos depois. O filme Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary), que o amigo (e ótimo imitador) de Thompson Johnny Depp insistiu por anos para que saísse do papel, exacerba esse romantismo. Depois de emular Thompson na fase mais surtada do escritor, em Medo e Delírio (1998), agora Depp faz Paul Kemp, alter-ego de começo de carreira do gonzo. Kemp arruma um vaga em um jornaleco em San Juan, Porto Rico, e logo se vê num dilema moral: seguir as ordens do patrão (e dos endinheirados dos EUA) e reportar as maravilhas paradisíacas do Caribe ou investigar a especulação imobiliária que está tirando o poder da terra dos portorriquenhos. Como se esperaria, há em Diário... muito rum, cabeças inchadas e insolação, com as tiradas certeiras do escritor preservadas (Porto Rico parece aquela pessoa que você comeu e ainda não saiu debaixo de você) e um elenco bastante inspirado (especialmente Depp, com seu timing cômico, e Richard Jenkins), apesar da timidez com que o diretor Bruce Robinson se arrisca na comédia física. O que dá o tom do filme, porém, não é a acidez ou o cinismo - que hoje em dia parece ser norma - e sim a melancolia e o idealismo de Kemp. Como a subtrama que gira em torno da paixão de Kemp pela bela Chenault (Amber Heard) a certa altura domina o filme, esse ideal localizado - livrar a loira doce do vilão burocrático e dar a ela um amor à altura da sua alegria de viver - irradia-se por toda a relação que Kemp mantém com Porto Rico e sua gente (também exótica e viva, com suas rinhas de galo, seu carnaval e suas feitiçarias). Mas essa relação só vai até certo ponto. Diário... é mais um filme sobre a descoberta súbita do outro do que sobre a descoberta de uma possível influência que se pode ter sobre esse outro. É como se estivéssemos diante de um Hunter Thompson Begins (e o final inconclusivo reforça isso). Em outras palavras, é o proto-gonzo - já que, por definição, o jornalismo gonzo implica um observador que invade e altera de tal forma seu objeto de observação que ele torna-se protagonista da própria pauta. Aqui, Kemp/Thompson é mais um figurante (inclusive servindo de intérprete para o espectador, no ingênuo diálogo em que o jornalista pergunta se o conchavo dos poderosos não seria ilegal) do que propriamente esse protagonista. O que o filme de Robinson tem de mais interessante, portanto, é um dos momentos exatos em que podemos perceber a gênese do gonzo: quando Kemp (depois de ter bebido o filme todo, o que favorece) experimenta ácido e, sob a influência do piscotrópico, "altera" literalmente a realidade ao seu redor. Medo e Delírio leva isso ao extremo; é a ordem física do mundo alterada por completo na viagem - individual e intransferível - do LSD. Em Diário de um Jornalista Bêbado, essa transformação do entorno é mais sutil, mas não menos definitiva e definidora." (Marcelo Hessel)

''Se você é o tipo de pessoa que precisa de uma linha de história definitiva e trama consistente para desfrutar de um filme, então o filme Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary) provavelmente não é para você. Paul Kemp (Johnny Depp) é um jovem tentando fazer o seu caminho em um lugar novo, fazendo novos amigos e inimigos ao longo de sua jornada. Eu não sabia o que esperar desse filme, apesar de ter alguns grandes atores, como Johnny Depp e Giovanni Ribisi, mas o conceito do filme era um tanto quanto estranho. Fiquei bastante surpreendido, o diretor Bruce Robinson fez um ótimo trabalho com este filme, que foi um trabalho bastante difícil de ser adaptado de um romance de Hunter S. Thompson e tecnicamente não ter praticamente nenhum furo na história. O filme em si é impressionante, os locais são incríveis e muito bem filmado, e o estilo de edição e tiros trabalham de forma brilhante com o tipo de filme e, o mais importante, com Johnny Depp, que tem uma presença enorme na tela em tudo que faz, e mais uma vez executa um magnífico trabalho como em outros grandes filmes que participou. Este filme tem tudo o que eu espero ver em um bom filme, personagens fortes, grandes conjunto da obra e uma comédia brilhante, juntamente com significado para a história. Isso realmente faz você pensar sobre a sociedade e a vida de hoje e como principalmente, nada mudou na forma dela, e como o mundo dá voltas com o tipo de corrupção e manipulação que continuam ainda hoje em torno de nós, como aconteceu nos anos cinquenta, apenas em menor escala. Em uma nota mais clara, este filme é divertido e ótimo para assistir mais de uma vez, há algo bastante satisfatório sobre assistir a um homem beber grandes quantidades de rum e ter que lidar com as conseqüências na manhã seguinte. Por fim posso dizer que o ''Diário de um Jornalista Bêbado'' é uma ótima surpresa, com ótimas atuações e um filme bastante divertido." (Criticas de filmes) ” - kaparecida445-2-230390
 
85.
Restless (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.8/10 X  
The story of a terminally ill teenage girl who falls for a boy who likes to attend funerals and their encounters with the ghost of a Japanese kamikaze pilot from WWII. (91 mins.)
Director: Gus Van Sant
“ "A morte como companheira não deixa de ser um incômodo constante, mas fica evidente que o filme não traz nada de novo - ainda que filmes assim devam existir de tempos em tempos, pois sempre serão os melhores do mundo para uma nova geração." (Rodrigo Cunha)

"Por vezes gira em falso mas não deixa de provocar fascínio com a estranha atração que seus protagonistas despertam e pelo diretor deixando sua marca num material mais corriqueiro e o transformando em um romance moribundo adolescente." (Vlademir Lazo)

"Van Sant consegue entregar um filme sobre adolescência e doença terminal sem atingir o melodrama e se há clichês é porque esses adolescentes não são lá muito originais mesmo (e não têm que ser): eles querem o que todos nós queremos, amor." (Alexandre Koball)

You and I Have Memories.

''Em meio ao turbilhão de emoções e ao cansaço que a maratona de Cannes impõe ao corpo e à mente, um filme como Restless é uma espécie de aconchego para a alma, tanto do ponto de vista cinematográfico – pois é cada vez mais raro vermos na tela uma narrativa tão límpida e bem resolvida - quanto do ponto de vista do espírito mesmo – pois parece difícil sair da cena final deste novo filme de Gus Van Sant sem ser tocado por sua profunda e singela beleza.O filme começa ao som de Two of Us, das mais simples e belas baladas dos Beatles, composta muito perto do fim da banda, e que traz consigo essa ambivalência: é uma canção alegre, leve, harmoniosa, mas também algo melancólica. Cantada num dueto Lennon/McCartney particularmente inspirado, como que trazendo em si a plenitude do durante e a inevitabilidade do fim: uma despedida implícita, uma celebração já saudosa - e nem por isso menos plena. Temos aqui a história dos jovens Enoch e Anabelle, ambos imersos em tragédias pessoais: ele perdeu os pais em um acidente de carro, ela tem câncer em fase terminal, lhe restando apenas três meses de vida. Uma história de um amor destinada a um fim trágico, pois. A rigor, mais uma versão de Romeu e Julieta que, se nada tem de novo em sua estrutura dramatúrgica básica, apenas reafirma a centralidade da mise-en-scéne como forma de estabelecer a poesia da duração, a eternidade que se constrói no balé que coloca os corpos em contato entre si próprios e com o espaço que circundam. Não é por outro motivo que os clichês funcionam tão bem para alguns diretores e são o calvário para outros: lembremos, por exemplo, da beleza límpida da obra-prima que é História Real (The Straight Story, 1999), de David Lynch, onde cada elemento (de diálogo, enquadramento, música, o que quer que seja) somente vem reforçar a inteireza da fábula. Em Restless a sensação é semelhante: somos inteiramente envolvidos no universo dos personagens, que ganha aconchego na encenação tranqüila, no delicioso 4:3 com o qual Van Sant os acolhe. Aliás, se citamos Lynch, é curioso notar como vários nomes dessa geração a qual Gus Van Sant faz parte (os independentes do cinema dos EUA nos anos 1980) têm em comum a característica de passearem com enorme desenvoltura entre projetos de origem e pegada claramente mais pessoal e outros aparentemente mais genéricos, mas se observados com cuidado também constituidores de todo um universo de singularidades e potências muitas vezes negligenciadas porque menos óbvias. Mas isso fica para outra hora. Por agora, a sensação deliciosa de ver um diretor como Gus Van Sant, que outrora vencera a Palma de Ouro com um filme como Elefante (Elephant, 2001), emocionar meia sala Debussy com esse Restless, ao som de Beatles e Nico, reafirmando o que sabemos e que o cinema – essa arte do tempo - felizmente volta e meia reforça: que, se o fim é algo inevitável, a memória é uma forma de eternidade." (Rafael Ciccarini)

''A juventude diante da morte não é novidade no cinema de Gus Van Sant. Seus filmes, de uma maneira ou de outra, abordam esse tema. O que muda em ''Inquietos'' é o tipo de morte, Antes, era brutal, inesperada, por acidente, massacre, overdose. Agora, é um câncer que consome em que vive a primeira paixão. Normalmente, adolescente ignoram a morte, não a sentem como inerente a vida, só a experimentam na chave do choque, da aparição abrupta. ''Inquietos'' contudo, mostra dois adolescentes aprendendo a conviver em presença da morte. Van Sant está mais discreto, retorna ao artesanato singelo de bons trabalhos com enredo romântico (Gênio Indómavel, Encontrando Forrester). Os filmes adolescentes, mesmo os mais festivos (na linha Curtindo a Vida Adoidado), têm subtexto triste, pois mostram um conjunto de experiências e sentimentos que a vida atual está prestes a matar para sempre. Van Sant escancara essa tristeza, mostrando que o único destino reservado a juventude é a morte.'' (Luiz Carlos Oliveira Jr)

A aceitação da vida e da morte pelas lentes de Van Sant.

"Filho de Denis Hopper, lenda da época que marcou o rito passagem de Hollywood da inocência melodramática para os temas adultos com o seu Sem Destino (Easy Rider, 1969), Henry Hopper já havia anunciado numa entrevista que o que menos o interessava era atuar em filmes infanto-juvenis como fazem tantos atores da sua idade. Essa mentalidade mais alternativa aprendida com o pai (notório por participar de um sem-número de produções pouco comerciais) o levou a ser protagonista da nova obra de Gus Van Sant, um dos mais prestigiados realizadores independentes a surgirem em meados da década de 80, ao lado de David Lynch, Steven Sodebergh, Jim Jarmusch e Spike Lee, entre outros. O viés notoriamente indie de Van Sant deu origem a filmes como os adultos Drugstore Cowboy (idem, 1989) e Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991) e outros trabalhos conceitualmente e esteticamente radicais como Elefante (Elephant, 2003) e Gerry (idem, 2002) – que lhe rendeu a Palma de Ouro. Van Sant conquistou sua fama como um realizador que apontava sua câmera para párias sociais – como os atiradores e vítimas de bullying em Elefante ou os humanistas ativistas da Rua Castro na busca por um tratamento mais humano e igualitário em Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008). No apenas correto Inquietos (Restless, 2011), o escopo é um pouco diferente. Os personagens tão extremos quanto atiradores, viciados e gigolôs, as situações limítrofes como as tensões entre liberais e conservadores de Milk e os acidentes fatais com conseqüências ainda mais sombrias de Paranoid Park (idem, 2006) são substituídos por um tom mais intimista, mais aprisionado no espaço-tempo diegético onde os personagens vivem, e que aposta numa linguagem que vem se popularizando bastante – os filmes independentes da nova geração, do qual Van Sant tem sua parcela de influenciador, mas que agora vem pisar nesse terreno procurando sempre atualizar suas temáticas –, o que soa como um caminho natural para um artista que sempre apostou em limiares em seus filmes, tanto os alternativos por vocação quanto os projetos mais comerciais. É de se esperar, portanto, características populares que mesclam tanto humor negro quanto drama sobre assuntos complexos e pesados, tendência de cinemas como o de Wes Anderson e que provou poder ser bastante popular em filmes como Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are Alright, 2010) Hopper interpreta Enoch, um jovem que perdeu os pais em um horrível acidente de carro que inclusive o deixou em coma por meses. Agora morando com sua tia, o jovem mostra que ainda não aceitou a morte dos pais tão bem assim: seu melhor amigo é Hiroshi, um fantasma japonês kamikaze que só ele vê, e seu principal hobby após ser expulso da escola é ser penetra de funerais. Logo de cara, nos primeiros minutos, ele conhece Annabela (Mia Wasikowska, a única atriz razoavelmente conhecida do elenco), uma jovem com câncer terminal. A amizade que surge quase que imediatamente vira paixão e, nos três meses que restam a jovem, eles passarão por todos os arcos que tanto acostumamos a ver em filmes. Com momentos um tanto irônicos (como quando ensaiam a despedida) e outros bastante dramáticos, o filme passa o tempo todo buscando uma forma mais leve de se olhar para a vida e de poder aceitar assuntos ainda tão doloridos para nós como perda e doenças ainda incuráveis. O que diferencia o filme dos demais deste filão é a direção de Van Sant, com sua decupagem e resolução dramática bastante simples e eficiente na hora de compôr um filme direto e honesto em suas intenções, mas que mesmo assim não sai do terreno do comum e da pouca ambição de seu roteiro. É um alívio que o filme tenha a velocidade de seu estilo bem reduzida – vêem-se novamente, como em vários dos seus filmes, seqüências praticamente resolvidas em três ou quatro planos, encenação em profundidade, grandes seqüências baseadas unicamente em diálogos e poucas mirabolâncias visuais. Os malabarismos digitais ou fotográficos são poucos. Ainda que trate de um tema tão pesado, é um filme leve, suave e introspectivo – não à toa, todos os choros dos personagens são escondidos da visão dos outros, exceto de nós. É um cinema que quer acompanhar nosso íntimo, não invadi-lo. Mas é claro que só o diretor não faz um filme – ainda que seja ancorado por belas canções pop e a trilha-sonora discreta, mas sempre melancólica e presente de Danny Elfman – e o roteiro não vai muito além do famoso drama de aceitação sobre a infelicidade, angústias e inevitabilidades que nos cercam – e que a felicidade seria como a relação entre Enoch e Annabela, algo rápido, intenso e breve – como a vida humana, que como diz a protagonista é equivalente a segundos em toda a existência do universo. História bem delineada e até previsível em seus três arcos, com todos os clichês simpáticos que evitam a dor e o desespero absoluto e que, pelo menos dessa vez, mostra como os desajustados, vez ou outra, podem resolver suas questões íntimas para tornar a vida nesse globo azul menos insuportável. Mas há de se dizer, olhando em retrospecto, que Van Sant já foi muito mais “inquieto'' em relação a seu cinema. Contido e sutil, esse novo passo a algum lugar de Van Sant ainda não mostrou ao que veio, mas tem qualidades inegáveis. Uma elegância sábia que só a experiência poderia prover – mas não muito além disso." (Bernardo D I Brum) ” - kaparecida445-2-230390
 
86.
Letters from Iwo Jima (2006)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.9/10 X  
The story of the battle of Iwo Jima between the United States and Imperial Japan during World War II, as told from the perspective of the Japanese who fought it. (141 mins.)
Director: Clint Eastwood
“ Clint se firma como grande cineasta ao apresentar a bela história dos soldados japoneses abandonados no campo de batalha.

''Mais uma vez Clint Eastwood acerta. Seu ''Cartas de Iwo Jima'' é um bom filme. Como os anteriores, trata-se de um produto bem feito ao extremo, quase acadêmico e excessivamente bem cuidado. Colabora para isso o roteiro um tanto esquemático e óbvio de Paul Haggis. Enfim, um filme de septuagenário, algo que Clint é. Inteligente e sensível, com visão humanista, impecável; só não espere inovação. O que ''Cartas de Iwo Jima'' tem de melhor é o fato de ter sido co-escrito por uma mulher, Iris Yamashita, e o olhar dela para a guerra do Japão contra os EUA é caloroso e bastante peculiar, aproximando o filme de Clint de uma das obras-primas dos filmes de guerra, A Harpa da Birmânia, também escrito por uma mulher, Nato Wada. Para quem gosta de história material, é um primor. O Japão não tinha condições de estar naquela guerra. Não tinha dinheiro, nem armamentos, seus oficiais eram aristocratas ligados ao rei sem treinamento militar adequado, a maioria dos soldados era de camponeses recrutados à força. Como disse um deles, um padeiro, ele foi para a guerra porque confiscaram as suas panelas e até os fornos para produzir armamentos. Os soldados japoneses sabiam que iriam perder a guerra desde o início. Estavam lá para morrer. A ordem era de lutar até a morte. Em Iwo Jima, o Japão tinha dois mil homens para 70 mil dos EUA. A frota de 40 navios japonesa de guerra havia sido destruída numa batalha anterior e o que restou dela voltara para as proximidades de Tóquio. Enquanto isso, os 80 navios americanos, com a mais potente tecnologia da época à disponição seguiam firme, fora as duas centenas de aviões. Não foi uma luta, foi um massacre. Os japoneses não tinham sequer água e mantimentos o suficiente e foram abandonados por Tóquio. Muitos soldados se entregavam ao inimigo famintos para ganhar água e uma refeição. A munição era pouca e eles tinham espadas para lutar contra a pesada artilharia americana. Fora isso, tinham de lidar com a cegueira dos oficiais japoneses da Era Meiji, obcecados em fazer do Japão um império e disposta a morrer para conseguir – eram fanáticos. Tanto que quando a guerra acabou, boa parte dos soldados continuou lutando, seja pela ideologia obscurantista, seja pelo precário sistema de rádio, que mentia para a soldadesca sobre a derrota. Tudo isso descrito acima está na obra de Clint, um americano. O filme é baseado nas cartas que vários desses soldados escreveram para amigos, parentes e esposas e que nunca foram enviadas – até o correio fora suspenso, a maior parte das cartas era censurada. Enterradas, foram descobertas mais tarde, perfazendo o retrato sem retoques oficialescos da guerra, dura e sem sentido para os soldados rasos. O resultado é nunca menos que cativante. Clint Eastwood fez um filme forte. A edição de som e os efeitos sonoros são impressionantes, assim como o fato de pintar com cores as cenas de destruição (o filme é em preto-e-branco). Alguns flahsbacks são meio constrangedores pela manipulação escancarada, mas nada que interfira no belo resultado deste lindo Letters from Iwo Jima. As artimanhas e estratagemas do combate são deixados ao longe, a destruição só se insinua até que se torna explícita e violenta. O que interessa a Clint são seus soldados e a história de vida deles, comandantes e comandados. Se não por esses motivos, Cartas de Iwo Jima serve para mostrar o quanto choradeiras e patriotadas como O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, são ruins. A elegância e a inteligência de Clint Eastwood fazem dele um grande cineasta, mas colabora também a baixa concorrência." (Demetrius Caesar)

Clint Eastwood ilumina a guerra sob a ótica dos japoneses.

Ainda que tenha sido dirigido três vezes por um dos maiores estetas do cinema, Sergio Leone, como diretor Clint Eastwood não tem muitos arroubos de estilo. Sua economia visual é célebre, e não só no jeito de filmar, sempre com o mínimo de takes e o máximo de rapidez. Em seus últimos três filmes, porém, Clint parece ter se apaixonado pelos efeitos de luz. Desde Menina de Ouro, com aquele ginásio envolto em sombras, o cineasta encontrou na contraluz e no chiaroscuro uma forma de intensificar o drama de seus personagens. O recurso alcançou momento baixo em A Conquista da Honra, quando se banalizou nas cenas em que o filho do sobrevivente da Guerra entrevista outros veteranos no meio da penumbra, trucagem hiperdramática. A iluminação de cena segundo Clint Eastwood agora encontra sua reabilitação e seu auge com ''Cartas de Iwo Jima''(Letters from Iwo Jima, 2006). O pôster de A Conquista da Honra mostra os soldados entrando na trincheira com a luz às suas costas. O cartaz de Cartas de Iwo Jima é parecido, com o sol ao fundo, mas ao longo do filme sucede o contrário - é o exterior que se torna negro, o interior nós vislumbramos em tons de alto contraste. São as cavernas que os japoneses cavam no interior da ilha, ponto estratégico na disputa entre Aliados e Eixo na Segunda Guerra, para se proteger do ataque dos estadunidenses. É difícil mensurar, mas uns 70% do filme se passam dentro dos buracos mal iluminados. Clint tem em John Ford outra inspiração declarada - ''Cartas de Iwo Jima'' paga tributo, especialmente, a Rastros de Ódio. A cena que abre o faroeste de 1956 é inesquecível, a porta da aconchegante casa dos Edwards se escancarando para a brutalidade do deserto. São dois mundos inconciliáveis: o interior e o exterior. Passar de um para outro implica transformação. Os mais de 20 mil japoneses entranhados na ilha vivem conflito semelhante. Dentro das cavernas, guardam ainda alguma humanidade. Fora delas, alvos fáceis, são apenas o que são: gente mal equipada morrendo num combate que não lhes diz respeito.
Falar que Clint humaniza o inimigo, ao escolher filmar o episódio histórico do ponto de vista dos japoneses, é reduzir a questão ao óbvio. Mais do que isso, ''Cartas de Iwo Jima'' é quase uma recusa do filme de guerra como espetáculo - ao retratar os subterrâneos, geográficos e mentais, o diretor mostra que guerras não são feitas só de heróicos sobreviventes, mas também de medos. Rendição misturada com instinto de sobrevivência misturado com esperança. Tudo isso pode ser encontrado nos buracos de Iwo Jima, signo invertido do mito da caverna de Platão - o clarão das bombas e dos sinalizadores, lá fora, só nos ajuda a ver melhor o interior." (Marcelo Hessel)

"Clint Eastwood é um diretor extremamente corajoso. Retratar a batalha de Iwo Jima do lado americano é fácil, principalmente se tratando de um conflito vencido por seu país. Mas levar o foco para os japoneses e ainda fazer com que nos importemos com eles exige, não só valentia, mas sensibilidade para entender um povo de cultura tão complexa. Falado quase que totalmente em japonês (o que confere maior autenticidade ao filme), "Cartas de Iwo Jima" tem dois protagonistas: o recém chegado à Iwo Jima, General Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), militar de carreira, que estudou táticas militares nos EUA, e o Soldado Saigo (Kazunari Ninomiya), que não vê a defesa de Iwo Jima (e, em última análise, a guerra em si) com bons olhos. Tanto Saigo quanto Kuribayashi possuem algo em comum: ambos são mal-vistos por suas idéias. O soldado, desanimado com a guerra e com o império, sabe que não deveria estar ali. Não sou um soldado, sou um padeiro, diz ele em um momento do filme. Com seu negócio levado a falência, sendo arrancado de sua mulher e não tendo visto o nascimento da filha, tudo por conta da guerra, ele é o contraponto a propanganda do governo japonês. Já o General é extremamente fiel ao império, apesar de saber que o rigor das tradições pode levar seu exército à derrota e vê suas tentativas de modificar o modo de pensar de seus soldados sendo extremamente mal recebidas, principalmente por seus oficiais mais velhos. Kuribayashi não tem de vencer somente o exército americano, tendo pela frente problemas com seus próprios subordinados, sejam soldados doentes, amotinados ou, até mesmo, suicidas. Os personagens secundários são tratados com bastante cuidado pelo filme, vários deles com momentos marcantes, mas dois merecem ser destacados: o soldado Shimizu (Ryo Kase), vindo de uma escola militar de elite, é visto por seus colegas como um suspeito de ser um espião enviado às tropas de frente para ver se algum deles está cometendo atos que possam ser considerados "apatrióticos" (conceito bastante conhecido por nós brasileiros durante a ditadura militar) e o oficial Nishi (Tsuyoshi Ihara), cavaleiro de renome que disputou as Olimpíadas de 1938 em Los Angeles e morou um tempo na Califórnia. Culto, refinado, gentil e fiel às convicções imperiais, é um amigo leal de Kuribayashi e tem um dos momentos-chave do filme, junto de um jovem soldado americano. O roteiro, escrito pelo ótimo Paul Haggis (de Menina de Ouro e Crash – No Limite) e pela estreante Iris Yamashita – americana nascida e criada – é feliz ao enfocar os personagens e suas relações naquelas situações extremas, nos levando a compreender o que passa pela cabeça dos soldados, através de suas cartas, e fazendo com que torçamos que o impossível aconteça e que aqueles personagens tenham um final feliz (sentimento também presente em Vôo United 93, de Paul Greengrass). A câmera de Eastwood, como sempre, não nos poupa dos detalhes viscerais do conflito, podendo desagradar alguns de estômago mais fraco. Essa é uma decisão, no mínimo, digna de aplauso, já que se trata da única maneira do espectador compreender o sofrimento infligido pela guerra a alguém (e é incrível ver os soldados americanos como ameaças a personagens com que nos relacionamos durante o filme). Com sua direção segura, ele faz com que a história seja tocante, sem jamais soar melodramática. A fotografia sóbria de Tom Stern ajuda a ressaltar o realismo da câmera de Eastwood. Já a edição do filme, feita por Joel Cox e Gary Roach, nos mantém atentos aos acontecimentos e os flahbacks são inseridos de maineira adequada e nos momentos certos, acrescentando à história, não tirando o foco desta (algo que ocorreu com "A Conquista da Honra", diminuido muito a força do filme). Interessante notar que vários detalhes de A Conquista da Honra e deste "Cartas de Iwo Jima" se ligam. Por exemplo, a questão dos soldados japoneses serem treinados a atacar enfermeiros, o desembarque das tropas americanas, o ataque durante a noite e a enfermaria dos aliados, tornando a experiência mais completa ao ver ambos os filmes, mas não é necessário assistir a um para compreender o outro. Com uma história emocionante, atuações impactantes e uma direção impecável de Cilnt Eastwood, "Cartas de Iwo Jima" é um filme que merece o renome que está tendo e é (mais) uma prova de que Eastwood é, apesar de sua idade, um dos melhores diretores em atividade no momento, além de um dos mais sensíveis." (Thiago Siqueira)

79*2007 Oscar / 64*2007 Globo ” - kaparecida445-2-230390
 
87.
Ashes of Time (1994)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.2/10 X  
A broken-hearted hit man moves to the desert where he finds skilled swordsmen to carry out his contract killings. (100 mins.)
Director: Kar Wai Wong
“ "O cinema banal nos deixou mal-acostumados a perceber o tempo como uma linha continua, com início, meio e fim. Alguns filmes de gênero ajudam a ver como esse fio pode também se soltar e produzir histórias próximas a vida. "Cinzas do Passado Redux" vem da China e não dispensa as cores locais em suas lutas, figurinos e paisagens. No entanto, beleza maior vem da melancolia de um guerreiro refém de um tempo que nunca se sabe bem qual é, cuja força ficou na memória em vez de se realizar na ação." (Cassio Starling Carlos)

Relançado com novos cortes, ainda assim um filme medíocre de Kar-Wai.

''Cinzas do Passado Redux'' é a versão Director's Cut do filme que Wong Kar-Wai fez em 1994. Na teoria, versões Director's Cut normalmente implicam que a primeira versão do filme não saiu da forma que o diretor vislumbrava, seja por ter de se dobrar às exigências do estúdio, seja por falta de tempo ou recursos. Não foi o que aconteceu aqui, o filme simplesmente não teve uma boa comercialização na época e não havia sido oficialmente lançado nos EUA e vários países da Europa. Agora que Kar-Wai virou figurinha carimbada nos festivais do mundo todo, resolveu relançar o seu filme esquecido, fazendo uma edição diferente e marotamente colocando um redux no título, como fez Francis Ford Coppola com a versão extendida de Apocalypse Now. Só que, ao contrário do longa-metragem de Coppola, ''Cinzas do Passado'' Redux não tem cenas a mais, e sim cenas a menos - algumas das melhores cenas foram inexplicavelmente tiradas - e a nova edição são só perfumarias para inglês ver, pois o filme continua essencialmente idêntico. Baseado bem levianamente num romance de Louis Cha, o filme se passa inteiramente no deserto de Gori, no interior da China, num mundo semifantasioso onde as artes marciais estão presentes em todas as relações humanas, caminhando sempre entre a homenagem e a paródia dos antigos filmes wuxia da companhia Shaw Brothers. Só que aqui as lutas em si têm uma importância bem pequena, o filme só tem três cenas com elas, sendo que uma foi retirada desta versão. Mesmo elas sendo interessantes, estão longe de ser o foco. A história se centra em Ouyang Feng, um ex-lutador que se isolou do mundo numa cabaninha no meio do nada e vive de agenciar artistas marciais ainda em atividade em troca de dinheiro. O filme é quase inteiramente centrado nele, o que deixa o clima meio pesado e incômodo, já que ele é uma pessoa extremamente sacana e ranzinza, chegando a pedir sexo a uma menina que quer vingar a morte do irmão e não tem dinheiro. A menina passa o filme todo com o jegue dela amarrado em frente à casa dele, e ele aproveita toda oportunidade para provocá-la, perguntando se ela estaria pronta para largar o orgulho e se prostituir, e depois ainda zomba de um de seus lutadores de aluguel que resolve ajudar a menina por compaixão. Depois descobrimos que tamanha amargura vem do motivo mais novelão possível: a mulher dele o deixou para se casar com seu irmão. E não pára por aí: todas as várias curtas histórias do filme são desse nível, como o espadachim cego cuja mulher se apaixona por outro homem e vai até Ouyang pedindo pela morte deste homem, que por um acaso é o melhor amigo de Ouyang; ou o príncipe do clã Murong, que é obcecado pela irmã a ponto de arranjar seu casamento e depois querer a morte do marido, enquanto ela quer a morte do irmão, e no final ambos são uma mesma pessoa com distúrbios esquizofrênicos. Chega a ser cômico e deprimente um filme sério com uma história dessas, mas é algo que dá facilmente para relevar se ao menos se assumisse que a história é horrível e tentasse trabalhar em cima disso. Filmes sérios também podem ter enredos cafonas sem que isso os comprometa. Isso é, daria. O grande problema nem é a história em si, mas como ela é contada. Para deixar um clima mais misterioso e onírico, a seqüência lógica dos acontecimentos é embaralhada, muitos elos que fariam a ligação entre as várias histórias são omitidos e há cenas absolutamente aleatórias que não têm relação nem com os personagens, nem com a trama, nem com o tema. Claro, esses são os truques mais velhos do cinema para fazer uma história simples parecer complexa, mas pode funcionar muito bem se feito com um mínimo de discrição ou com critérios. O próprio Wong Kar-Wai já fez isso competentemente em outros filmes como Amor à Flor da Pele e 2046 - Os Segredos do Amor, mas aqui ele parecia estar muito em começo de carreira e tudo ficou muito aleatório e prepotente, e 15 anos depois ele nem se deu ao trabalho de disfarçar isso nessa versão Redux. Fez pior, agora ele dividiu o filme em estações, da mesma forma do Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, de Kim Ki-Duk. Só que ele nem reorganizou as cenas, apenas incluiu umas tomadas em fundo preto escrito a estação que passaria a vir, como se isso fizesse alguma diferença pro filme. Aliás, até faz, quem não sabe o quão gratuita foi a inclusão dessas estações vai achar que elas têm um significado extremamente profundo e filosófico, que de alguma forma explica os acontecimentos sem graça do filme. A estrutura do filme é basicamente essa, começa uma estação, monólogo com alguma indagação filosófica fuleira, algum personagem novo vai procurar o Ouyang, ele reclama da mulher, corte para cena aleatória, volta pra história, corte para algum plano artístico, corte para o desfecho da história anterior, volta pra história atual, outra cena aleatória e termina com a continuação do monólogo que abriu a estação. A única parte interessante da história é bem no final, numa cena onde a sempre talentosa e bela Maggie Cheung, aqui interpretando a ex-esposa do Ouyang, divaga sobre as conseqüências e particularidades da memória - um tema recorrente nos filmes do Kar-Wai - e como isso influenciou nas ações dela, jogando uma nova luz sobre a história e a personagem, que até então só conhecíamos através do ponto de vista do ex-marido. Se todo o resto do filme se focasse nessa idéia e a abrangisse para as outras histórias, teria sido infinitamente mais interessante. Tecnicamente o filme tem seus altos e baixos. A fotografia, que é sempre o ponto alto nos filmes do Wong Kar-Wai, aqui aparenta tão esquizofrênica quanto a princesa transformista do filme. Ora ela está muito bonita, com planos exóticos e estilizados, em outras ela chega a doer os olhos. Aliás, o filme só tem duas cores, amarelo e azul, e é incrível como foram criados planos tão diferentes, com um tecido em azul claro no meio de uma floresta em azul bem fechado e com o rio em azul brilhante para mostrar que está refletindo a lua (sem brincadeira, essa cena é toda azul, e ficou muito legal), ou com um pequeno detalhe em azul contrastando num mar de amarelo e vice-versa. Por outro lado, quando entra a fotografia feia, esquece-se os diferentes tons que permeiam o filme e ditam o clima das cenas, e entra as cores primárias. O amarelo mais forte e o azul mais forte e gritante que existe, ambos super saturados, queimando a retina e impedindo qualquer apreciação da cena em si. Essa composição específica é utilizada ao extremo durante o filme por algum motivo obscuro, talvez o fotógrafo tenha gostado, ou tenha gastado muito tempo desenvolvendo a técnica e quis fazer valer o esforço, mas qualquer pessoa com bom senso mandaria tirar sem pensar duas vezes. Além disso o filme inteiro está coberto por uma camada de granulação muito estranha e artificial, talvez para dar a impressão de um mundo mais cru e triste, o que até funcionou muito bem no filme seguinte do diretor, Anjos Caídos, mas que aqui o tudo que fez foi enfeiar cenas que originalmente seriam muito bonitas. A trilha sonora é muito competente no geral, todos os momentos do filme são acompanhados por alguma melodia ou algum instrumento, mesmo que em volume bem baixo, e isso ajudou muito a criar climas específicos a várias cenas. A trilha como um todo foi bastante alterada em relação à versão de 1994, e sinceramente as músicas originais eram melhores, mas as atuais ainda estão muito boas. As cenas de ação são poucas, mas foram muito bem-feitas. Não há coreografias muito elaboradas, como de costume nos filmes wuxia chineses, pelo contrário, aqui elas estão super estilizadas, com efeitos de blur e falta de quadros, que dão a impressão de ter sido filmado com câmera de mão, só que muito melhor que todos os filmes que de fato empregam câmeras de mão em cenas de ação, já que você consegue ver tudo que acontece com clareza. Inclusive tem uma parte que simula de forma muito interessante as conseqüências de um golpe fatal, com a imagem ficando escura, o som distorcendo e os objetos ficando embaçados e irreconhecíveis, talvez a melhor sacada do filme. Os atores também desempenham bem os seus papéis, todos recorrentes de diversos outros filmes do diretor, porém eles pouco podem fazer para dar mais luz ao projeto, já que a maioria das cenas é expositiva e não dá liberdade. O filme é quase inteiro narrado, contando com poucos e curtos diálogos. Os únicos que realmente se superam são a Maggie Cheung, que tem pouco tempo de tela, mas carrega sozinha a melhor cena do filme, e Jacky Cheung, que interpreta um espadachim que fugiu de casa e é perseguido pela mulher, um papel aparentemente sem atrativos mas que esbanja carisma por conta da performance do ator. Os outros são apenas competentes, em graus diferentes, mas nem as melhores atuações poderiam salvar este filme, cujos problemas são estruturais. ''Cinzas do Passado'' é apenas o terceiro filme do Wong Kar-Wai (ou quarto, já que demorou tanto tempo em pós-produção que o diretor filmou no meio tempo o altamente superior Expresso Chungkin), então é compreensível, e até certo ponto perdoável, as várias falhas que ele apresenta, típicas de um diretor ainda em amadurecimento que se aventurou em fazer um filme artístico demais. Porém este Redux é uma vergonha, um caça-níqueis lançado quase duas décadas depois com a pretensão de ser uma versão diferente e que se mostra o mesmo filme recauchutado. O diretor se deu a trabalho de piorar a trilha sonora e cortar cenas boas, mas foi preguiçoso demais para reorganizar o filme de modo que a nova invenção das estações fizesse algum sentido, mesmo que forçado. Um Wong Kar-Wai de começo de carreira pode até ser perdoado por entregar um filme falho, mas um Wong Kar-Wai macaco velho e mundialmente consagrado, não." (Roberto Ribeiro)

Versão restaurada do quarto filme de Wong Kar Wai é seu único trabalho no gênero das artes marciais.

''Em 1994, seis anos antes de O Tigre e o Dragão transformar os populares filmes de artes marciais chineses em artigo de arte para as massas no Ocidente, o diretor Wong Kar Wai estreava seu primeiro e único filme do gênero, ''Cinzas do Passado''. Com o relançamento agora da versão redux, restaurada, é curioso comparar com os Zhang Yimou da vida e identificar como o gênero wuxia foi sendo simplificado nos anos 2000 para cair no gosto do público estrangeiro. Wuxia é o nome dado ao subgênero de filmes de ação que ambienta novelas de cavalaria na China antiga. Wu vem de wushu, arte marcial, enquanto xia, ou honorável, é o código de conduta dos cavaleiros errantes chineses. Cinzas do Passado pega emprestado da literatura de Jin Yong (pseudônimo de Louis Cha) dois desses personagens para estabelecer um painel poético da complexa relação que o wuxia monta entre natureza, homem, ética e filosofia. Os dois personagens, os espadachins Ouyang Feng (Leslie Cheung) e Huang Yaoshi (Tony Leung Ka Fai), se encontram todo ano, a cada primavera, para dividir histórias. Desta vez, Huang traz um presente que ganhou de uma mulher: um vinho mágico que apaga memórias de quem o bebe. Ouyang recusa. Huang mal entorna a bebida e sai desabalado atrás da mulher - ainda que suas lembranças já tenham sido imediatamente esquecidas. A cada estação do ano que se segue, acompanhamos Ouyang e descobrimos as causas e consequências daquele estranho ato de Huang. Um espadachim quase cego, uma mulher de dupla personalidade, um habilidoso mas displicente manejador de sabre e uma jovem atrás de ajuda cruzarão o caminho de Ouyang - que já não aceita contratos como espadachim muito por conta de uma desilusão amorosa indiretamente provocada por Huang. O jianghu (literalmente, rios e lagos), universo mítico onde se passam as novelas wuxia, já é naturalmente um cenário propício para alegorias bucólicas envolvendo a imensidão do deserto ou o bailado de florestas ao vento. Nas mãos de Kar Wai, essas possibilidades se amplificam. Basta ver as constantes projeções de luz nos rostos dos atores para perceber que o cineasta dos estilizados Dias Selvagens, 2046 e Um Beijo Roubado já era naquele tempo adepto dos exageros. Uma obsessão constante na carreira de Kar Wai são as desilusões amorosas, e Cinzas do Passado não foge da sina. Mais do que um filme de artes marciais - com lutas esparsas, filmadas com arrojo mas sem grandiloquência nem wire-fu - trata-se de uma história de paixões (Kar Wai já enquadrava em 1994 o rosto liso de sua musa Maggie Cheung com afeto). A restauração é, enfim, uma sessão aconselhável tanto para quem aprendeu a gostar de Kar Wai depois de Amor à Flor da Pele (2000) quanto para quem procura um wuxia pré-pasteurização.'' (Marcelo Hessel)

1994 Lion Veneza ” - kaparecida445-2-230390
 
88.
I Killed My Mother (2009)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 7.5/10 X  
A semi-autobiographical story about Hubert as a young homosexual at odds with his mother. (96 mins.)
Director: Xavier Dolan
“ "Se o personagem principal extrapola o limite do bom senso e atrapalha, assim, a empatia do público com ele, o filme consegue transmitir o sufocamente de um menino que tem um defeito grave: ser mimado sem saber." (Emilio Franco Jr)

O retrato de um adolescente ressentido, e não talentoso.

"Eu Matei Minha Mãe, estreia na direção de Xavier Dolan, exala em todos os seus poros um filme de adolescente. Em tempos de Apenas o Fim e o sucesso repentino de Matheus Souza, é interessante ver este filme vindo do Canadá que conquistou Cannes este ano levando três prêmios em mostras paralelas. Assim como em Apenas o Fim é importante perceber sobre o que realmente é o filme. Nenhum deles retrata a sua geração, como podem apontar alguns críticos. Eu Matei Minha Mãe não tenta mostrar um conflito de gerações, e sim apenas uma relação muito mal sucedida, presumidamente autobiográfica, entre mãe e filho. A versão canadense do menino prodígio é Xavier Dolan: ele dirige, escreve, editou uma parte do filme (a cena da pintura) e vive Hubert, o protagonista. Ele é um menino de 16 anos que vai receber uma herança aos 18 anos e vive esperando ansiosamente este dia, em que poderá se livrar de sua mãe (Anne Dorval), por quem nutre um ódio enorme. Essa relação nunca é bem trabalhada justamente pela falta de um roteiro consistente, de personagens tridimensionais. Dolan, aos 20 anos, apresenta uma visão muito particular de sua adolescência no roteiro, tratando o protagonista como um injustiçado que tem sua vida arruinada pelos pais que não o entendem, e a mãe, vilã cuja única função para existir é estragar sua vida. A atuação de Anne Dorval consegue salvar um pouco este tratamento da personagem da mãe, mas o jeito irritante de Hubert ultrapassa uma simples construção de personagem, e demonstra mais a inabilidade de Dolan de criar uma mise-en-scène adequada, desbocando no engraçado, mas inconsistente; interessante, mas mal realizado. A fotografia muito escura, e a direção de arte bastante primária auxiliam em dar o filme um ar bem pobre tecnicamente falando, e isso acaba prejudicando ainda mais o já frágil roteiro. A diferença entre as mães de Hubert e de seu namorado, por exemplo, soam cômicas e bem falsas, para pontuar a diferença de relações entre a mãe e o filho. E com um personagem tão insuportável como o protagonista, e que o roteiro ainda acaba abraçando (as declarações para a câmera em preto e branco reforçam essas impressões), o filme nunca consegue sair do lugar comum e aproximar suas personagens dos espectadores, ou ainda dizer alguma coisa de relevante sobre uma parcela de sua geração. O que foi apresentado nas telas parece apenas uma versão audiovisual de um adolescente ressentido, e não talentoso." (Mateus Nagime)

Filme usa a relação problemática entre mãe e filho para explorar a complexa natureza do amor familiar.

''A produção canadense ''Eu Matei Minha Mãe'' (J'ai tué ma mère, 2009) propõe-se a explorar a natureza da relação entre mãe e filho tomando como exemplo a problemática relação entre Hubert (Xavier Dolan) e sua mãe Chantale (Anne Dorval). Dolan, diretor e protagonista do filme, escreveu a história quando tinha 16 anos, com base em suas próprias experiências. Na forma de um desabafo cinematográfico, as angústias de Hubert são mostradas na tela com muita intensidade e é por se basear em um sentimento real que as situações não parecem extremas ou caricatas. Hubert frequenta o colegial e discute com a mãe no café da manhã, no carro, no jantar... A raiva que ele sente de Chantale se agrava ainda mais quando ele conhece a mãe de seu seu namorado, Antonin (François Arnaud), mulher liberal, que leva garotos mais jovens pra casa, não vê problema na homossexualidade do filho e até permite que ele fume maconha em seu quarto. No entanto, por mais que às vezes Hubert perca o controle e externe sua raiva e frustração de forma violenta, este não é um filme sobre ódio pela mãe. É evidente que Hubert ama Chantale. Se não houvesse amor, não haveria tamanha intensidade na raiva. Temos aqui um sentimento que não é unicamente benigno e está mais para aquele amor em busca de reconciliação de Fernando Pessoa, que pede tempo para acertar nossas distâncias. ''Eu Matei Minha Mãe'' não é maniqueísta. Hubert não discute com a mãe porque ela é má ou o priva de suas vontades. Chantale está ali tão perdida quanto o filho que criou sozinha, sem saber como impor-lhe disciplina ou recuperar a proximidade que existia quando ele era apenas um menino. Além do foco na atuação, Dolan também faz boas escolhas como diretor, utilizando a imagem para complementar a narrativa - peca apenas quando tenta desnecessariamente intensificá-la com simbolismos (borboletas e imagens de santas: quem aguenta?). Mas, para aqueles que se identificam com a situação ali retratada, não há como deixar o cinema intocado. A força do filme está mesmo no emocional." (Carina Toledo)

''Outro filme gay que nos chega, mas que vai além do público especializado. No caso não é francês, mas da parte francesa do Canadá (e por isso foi indicado ao César de filme estrangeiro).
Recebeu três prêmios no Festival de Cannes onde teria tido uma ovação (inclusive da Quinzena dos Realizadores e Prêmio da Juventude), e em vários outros festivais. Também foi indicado oficialmente pelo Canadá para o Oscar de filme estrangeiro em 2010. O diretor Dolan admite que a história é autobiográfica e escreveu o roteiro inicialmente quando tinha 16 anos (na verdade, ele é muito novo, nasceu em 1989 e faz o papel principal). É basicamente a história de um adolescente que tem pensamentos conflitantes a respeito de sua mãe que é a maior parte do tempo intolerável. Pensando mesmo em matá-la. Chama-se Hubert e está aos poucos se descobrindo gay e em guerra com a mãe Chantal (mostrada como comédia). Sua opção sexual é tratada com delicadeza, mas o tema verdadeiro é o eterno conflito entre aceitar e rejeitar as pessoas que amamos e por vezes odiamos. Há também o fato de que o diretor é cinéfilo e até o título é uma citação de Os Incompreendidos, de Truffaut. Há momentos em câmera lenta como nos filmes de Wong Kar Wai. Mas há também citações em nomes (Rimbaud, Lemming) e usa preto e branco quando a história fica meio filosófica. Considerando sua pouca idade, é um talento a se considerar." (Rubens Ewald Filho)

2010 César / 2009 Palma de Cannes ” - kaparecida445-2-230390
 
89.
Black Butterflies (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.2/10 X  
In apartheid-torn South Africa, poet Ingrid Jonker struggles tragically in search of love and a sense of home. (100 mins.)
“ "Assim como Sylvia Plath, a poetisa sul-africana Ingrid Jonker suicidou-se prematuramente, em 1965, aos 32 anos. Sua poesia ganhou projeção apenas em 1994, quando Nelson Mandela leu seu poema mais conhecido em um discurso ao primeiro parlamento democraticamente eleito na África do Sul. "Borboletas Negras" detém-se menos na poesia do que nos dramas pessoais de Ingrid: jovem e já divorciada, mal consegue cuidar da filha pequena, tem um romance turbulento com outro escritor e desafia a rigidez do pai (Rutger Hauer), diretor do Departamento de Censura do apartheid. Apesar da boa atuação de Carice Van Houten (A Espiã) e das belas paisagens da costa sul-africana, o filme é mais uma cinebiografia em que a vida pessoal do artista retratada nas telas é bem menos interessante do que parece ser sua obra." (Thiago Stivaletti)

''Após presenciar um ato de violência contra crianças sul-africanas, a poetisa Ingrid Jonker escreveu o poema The Dead Child of Nyanga, que mais tarde foi lido por Nelson Mandela em seu discurso de inauguração do primeiro parlamento democrata da África do Sul em 1994. Sua história de inconformismo com o regime segregacionista do Apartheid e suas relações precárias com os homens - incluindo seu pai (Rutger Hauer), membro do regime - são mostradas em Borboletas Negras, da holandesa Paula van der Oest (Zus & Zo). O filme se sustenta quase inteiramente na impecável atuação da atriz Carice van Houten (A Espiã), que consegue dar densidade e verdade aos dramas pessoais vividos pela poetisa. Vendo-a atuar quase se esquece dos problemas de fluxo narrativo da trama, de sua pressa em apresentar a personagem e das deficiências adjacentes relacionadas aos coadjuvantes, que entram e saem de cena sem que o espectador consiga captar suas essências. As conexões da protagonista com estes personagens nunca são realmente exploradas a contento, revelando-se pressurosas e rasas. Exceção feita ao escritor Jack Cope, interpretado por Liam Cunningham, único personagem a ganhar dimensão no deficiente roteiro de Greg Latter. Ele vive intenso e conflituoso romance com a protagonista e se destaca pelo bom trabalho de Cunningham, numa interpretação parcimoniosa e equilibrada, que compensa os diálogos mal elaborados que permeiam o filme. Um dos grandes prejudicados pelo texto, que se concentra na personagem central e esquece do entorno, é Rutger Hauer, cuja interpretação fica comprometida graças a mal explorada relação dos conflitos pai-filha, uma das principais fontes da angústia da protagonista. Fica a sensação de que havia muita coisa ali a ser desenvolvida, particularidades que serviriam de base para um melhor entendimento das tensões vividas por Ingrid. As deficiências de ''Borboletas Negras'' jogaram por terra a chance de se fazer um ótimo retrato de personagem interessantíssima num pano de fundo histórico importante. Ainda assim, o bom trabalho de Carice van Houten, as belas imagens do litoral da África do Sul sob trilha sonora marcante e os pungentes versos de Ingrid a pontuar o filme resultam num trabalho agradável de se ver e sentir." (Roberto Guerra)

"Uma mulher à frente de seu tempo, que escolheu amar e criar, a despeito de todas as barreiras, incluindo o apartheid, política de segregação racial em vigor na África do Sul entre 1948 e 1994. Assim é retratada a poeta sul-africana Ingrid Jonker (1933-1965) em Borboletas Negras (Black Butterflies), pela diretora holandesa Paula van der Oest, pouco conhecida no Brasil, mas indicada ao Oscar de filme estrangeiro de 2001 por Zus & Zo. Ingrid Jonker morreu bem jovem, aos 31 anos, em 1965. Em sua curta, mas intensa vida, produziu poemas que ficaram bem conhecidos em seu país e mais tarde foram traduzidos para diversas línguas. Um deles, The Dead Child of Nyanga (A Criança Morta de Nyanga), foi lido pelo ex-presidente e herói nacional Nelson Mandela em seu primeiro discurso na assembleia democrática, em 1994, após o fim do apartheid. O toque trágico e irônico é que ela teve contra si o próprio pai, responsável pela censura na África do Sul àquela época.
O filme concentra-se nos últimos cinco anos de vida da poetisa. Uma breve introdução mostra o momento de sua infância em que conhece seu pai, Abraham Jonker (Rutger Hauer), com quem viria a ter embates até seus últimos dias. Um salto e Ingrid (Carice van Houten) quase morre afogada, mas é resgatada do mar pelo também escritor Jack Cope (Liam Cunningham). Após esse inusitado primeiro encontro, Ingrid e Jack passam a ter um romance, apesar de ambos estarem ainda em processo de divórcio. Um relacionamento conturbado, como quase todos da poetisa. Ao longo dos anos, eles se afastam e reatam diversas vezes, mas Jack, juntamente com outros escritores e intelectuais, foi o responsável pela publicação do livro de poesias que consagraria Ingrid. Narrada de modo convencional, a cinebiografia é enriquecida com a inclusão de poemas em diversos momentos de sua trajetória. Destacam-se o excelente trabalho de fotografia, com as belas paisagens do litoral da Cidade do Cabo contrastando com a pobreza dos bairros periféricos da cidade, onde os negros eram obrigados a viver. Além disso, gradações de tons quentes e frios, claros e escuros, denotam o estado de espírito da personagem. Os atores têm performances notáveis, destacando-se Carice van Houten no papel principal e Liam Cunningham como seu companheiro Jack Cope. Um problema, inerente a qualquer obra do gênero, é a necessidade de se comprimir longos períodos de história em poucos minutos. Por isso, eventos cruciais, como a própria reação da artista contra o apartheid, central no drama, e os atribulados relacionamentos com vários homens parecem pouco aprofundados. Além disso, os diálogos soam um tanto forçados, principalmente no início, como se intelectuais e escritores falassem de modo literário o tempo todo. O cômputo final, no entanto, é que Borboletas Negras cumpre muito bem a missão de reverenciar e tornar mais conhecida a vida e a obra de uma grande artista.'' (Gilson Carvalho) ” - kaparecida445-2-230390
 
90.
Under the Sun of Satan (1987)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.9/10 X  
Dossignan is a zealous rural priest. The dean Menou-Segrais tries to keep him reasonable. But Dossignan will be tempted by Satan, then will try to save the soul of Mouchette, a young girl who killed one of her lovers. (97 mins.)
Director: Maurice Pialat
“ "Alguns filmes levam a Palma de Ouro em Cannes e, por motivos vagos, vão perdendo espaço na memória dos cinéfilos. "Sob o Sol de Satã, que Maurice Pialat dirigiu em 1987, é um desses casos. É um filme pequeno, intimista, de orçamento baixo e centrado em seu ator principal. Gérard Depardieu, então com 39 anos, tem um de seus desempenhos mais celebrados. Carrega no corpanzil o peso do personagem: o padre de uma cidade rural que, apesar de idolatrado pela comunidade, é atormentado por dúvida de fé. Certo dia no campo, ele encontra Satã em pessoa. Perturbado com a aparição, conhece a jovem Mouchette - Sandrine Bonnaire, no auge da beleza. Pialat tira do romance de Georges Bernanos seu simbolismo mais poderoso, a luta do bem contra o mal. Um filme belo e incômodo, mas que não merece ser esquecido." (Thales de Menezes)

''Apesar de ter morado na cidade mineira de Barbacena por sete anos, de 1938 a 1945, e ser considerado um dos principais autores franceses do século 20, o escritor francês Georges Bernanos (1888-1948) há anos não é publicado no Brasil. A Editora É, ao comemorar dez anos de existência, decidiu corrigir a falha. Está lançando o primeiro livro publicado por Bernanos, Sob o Sol de Satã (1926), e comprou os direitos de outros seis romances seus. Para o lançamento da Coleção Bernanos, a editora promove hoje e amanhã, com o apoio do Estado, uma palestra e a exibição do filme Sob o Sol de Satã, adaptado e dirigido por Maurice Pialat. Hoje, o professor de Literatura Comparada João Cezar de Castro Rocha faz uma palestra sobre o livro. Amanhã, ele participa de um debate após a projeção do filme. ''Sob o Sol de Satã'' é uma das obras fundamentais de Bernanos, mais conhecido como autor de Diário de um Pároco de Aldeia (1936) e Nova História de Mouchette (1937), ambos transformados em obras-primas nos anos 1960 pelo cineasta francês Robert Bresson (1901-1999). Além desses livros, que serão lançados em maio de 2011, a Editora É comprou um título que nunca foi traduzido no Brasil, Les Grands Cimetières sous La Lune (Grandes Cemitérios sob a Lua, 1938) e também sua última obra escrita em Minas, Monsieur Ouine (Senhor Ouine), publicada na França em 1946. Outros dois livros formam a coleção: Um Mauvais Rêve (Um Sonho Ruim,1950) e Jeanne Relapse et Sainte (Relapsa e Santa, 1934). Esse último é considerado pelos críticos uma das obras mais puras e concisas de Bernanos, tratando da vida de Joana D'Arc, da qual sua mulher era parente distante. Escritor católico, sua obra foi definida por Tristão de Athayde como uma "cruzada espiritual para restaurar o sentido da honra no homem moderno". Bernanos não o faz como um fundamentalista religioso nem dissolve Cristo numa geleia de ideologias - burguesa ou proletária. Era, para usar mais uma vez uma expressão de Athayde, um católico desassombrado, livre e solitário, que atacava mais seus companheiros de fé que os infiéis. Sua cruzada purificadora contra um mundo dominado pelo tédio e pela indiferença já começa com o confronto com o próprio diabo em ''Sob o Sol de Satã''. Nele, um padre de aldeia, Donissan, duvida de sua vocação e acaba topando com o próprio Satã numa estrada rural. Bernanos propõe uma nova visão do sagrado para o homem moderno, racional, autônomo, sem crenças, distante da transcendência. Já na primeira parte do livro, a presença do mal atinge a adolescente Mouchette no próprio corpo, obrigando-a a matar um marquês que a engravidou, a seduzir um médico para fazer um aborto e, finalmente, conduzindo a menina ao suicídio. Donissan, o padre, considerado um santo na aldeia, ilustra à perfeição a galeria dos personagens atormentados de Bernanos, que enfrentam a tentação voltando-se contra a própria intensidade corpórea, como se trouxessem atados ao físico a serpente do Paraíso. Para transmutar sua incerteza em crença, Donissan vai ao limite, atingindo o paroxismo ao tentar ressuscitar uma criança morta. O padre, em síntese, é uma espécie de Monsieur Ouine antes da existência do mesmo. Já o nome do último grande personagem de Bernanos é uma contradição. Traz o oui (sim) e o non (não) como um insólito cartão de visitas. A simetria entre o bem e o mal vem estampada nesse romance de oposições que aprofunda as questões de ''Sob o Sol de Satã''. Mouchette também é uma variação do mesmo tema. Bernanos retomaria sua trajetória em Nova História de Mouchette, além de usar o padre de seu primeiro livro como modelo para escrever Diário de um Pároco de Aldeia. Nele, um pároco tímido e alcoólatra é ridicularizado por seus paroquianos, que deixam de frequentar a igreja. Morre tuberculoso, aos 24 anos." (Antonio Gonçalves Filho)

''Sob o Sol de Satã'', baseado no romance de Georges Bernanos, trata da história de um padre em conflito, que duvida de sua própria vocação e da possibilidade de que ela faça alguma diferença num mundo que ele vê mergulhado no Mal, mas em momento nenhum a imagem sugere ou busca qualquer espécie de transcendência de si mesma. Para falar do conflito espiritual do padre Donissan a imagem precisa se bastar, o que é o mesmo que dizer que tudo o que há de concreto na imagem precisa se bastar; ou ainda, que tudo está na imagem. Se em Robert Bresson (que também adaptou Bernanos) as lacunas propositais — sobretudo na encenação, mas também na construção dos espaços — sugerem o que não pode ser captado pela câmera, em Sob o Sol de Satã a abordagem talvez seja ainda mais radical: o que não pode ser captado pela câmera é excluído do próprio campo semântico do filme. Tal escolha se reflete até mesmo na seleção dos atores, em especial Gérard Depardieu e o próprio Pialat, ambos com forte presença em cena. E se estende para o uso do som, como demonstram os muitos diálogos e monólogos que parecem ter sido transportados diretamente do livro para a tela, vários deles longe de qualquer pretensão de naturalismo e assumidamente expositivos, sobretudo nos casos em que personagens falam sobre si mesmos. Não se trata de literalidade excessiva na adaptação ou de amor pela linguagem, tampouco de falta de sutileza no trato dos personagens, mas antes outro aspecto da proposta de concretude e não-sugestão de Pialat. Essa concretude, porém, não se basta, e é exatamente a ineficácia de sua própria forma o material básico que compõe Sob o Sol de Satã. O filme é dividido em duas seções, separadas entre si pela peregrinação de Donissan por uma estrada rural e seu encontro com Satã, em carne e osso, em que o padre descobre que lhe será concedida a graça de olhar para alguém e enxergá-lo da forma mais absoluta, assim como ele enxerga a si mesmo. Mas a questão que emerge desse encontro é até que ponto alguém pode conhecer a si mesmo: antes disso, o que acompanhamos são os conflitos de Donissan consigo próprio enquanto tenta achar um propósito para sua existência e alguma esperança de que o mundo não esteja irremediavelmente destruído, de que o Mal não seja nossa essência mais fundamental. Enquanto ele se considera indigno ou incapaz para o sacerdócio por conta de suas dúvidas, muitos fiéis o veem como um santo, e seu tutor se espanta pela forma como consegue cativá-los sem sequer se esforçar para tal. Assim, quando, na manhã seguinte à sua conversa com Satã, Donissan se encontra com a jovem Mouchette, sua visão absoluta do que ela é e fez na primeira parte do filme pode ser factualmente certeira — a única concessão possível da abordagem de Pialat —, mas sua interpretação e reação a isso são outra história; o discurso que oscila entre um pessimismo profundo e a graça redentora que ele faz à moça tem consequências imprevistas, e novamente Donissan se vê às voltas com suas questões sobre o sentido de sua vida e a possibilidade de fazer alguma diferença quando mesmo a comunicação parece tão inelutavelmente fraturada. Pode-se dizer que o maior ponto da estética de Pialat, de tentar, em grande parte do tempo com sucesso, confinar todos os sentidos e significados possíveis dentro da imagem, é encenar justamente essa fratura, em que cada frame morre imediatamente após ser projetado, cada elemento físico, cada palavra, não consegue transmitir nada além de sua literalidade mais óbvia. De modo que o único milagre possível em ''Sob o Sol de Satã'' é uma ressurreição, menos por seu efeito sobre os personagens que por seu efeito na forma do filme. Um corpo que morre, como o de Mouchette, é só mais um elemento que não pode comunicar nada além de si mesmo, mas um corpo que volta à vida não pode significar senão mais do que si mesmo: o milagre ao fim abre uma fenda no tecido construído até ali, faz desabar a estética cuidadosa de Pialat. Isso é evidentemente o desejado desde o início, o momento em que o filme destrói a si mesmo numa tentativa última de significado ou sentido, muito como o próprio Donissan na mesma cena. É daí em diante que o diretor se liberta das amarras autoimpostas e ousa cenas de maior poder sugestivo e metafórico, como a nuvem que se afasta, permitindo que a luz do sol ilumine Donissan. Ou na cena final, em que o padre morre dentro do confessionário em um momento indeterminado, mas os fiéis, inconscientes disso, seguem fazendo suas confissões — se a chance de ver os outros como a nós mesmos pode ser traiçoeira, resta ouvir como esses outros veem a si mesmos, na esperança de que alguma comunicação se torne, algum dia, possível.'' (Robson Galluci)

1987 Palma de Cannes / 1987 Urso de Ouro ” - kaparecida445-2-230390
 
91.
Trespass (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.3/10 X  
As they're held for ransom, a husband and wife's predicament grows more dire amid the discovery of betrayal and deception. (91 mins.)
Director: Joel Schumacher
“ E Joel Schumacher alcança, novamente, o fundo do poço.

''Sejamos realistas: é impossível esperar originalidade de cada filme lançado no circuito cinematográfico; mais difícil ainda é aguardar esse atributo de uma obra de Joel Schumacher. Primeiro, porque trabalhos originais não surgem com tanta facilidade no mercado, seja pelo comodismo do público em relação ao que há de mais habitual ou pelo “bloqueio criativo” de alguns diretores e roteiristas em seus projetos; segundo, porque, vindo de uma longa carreira de mais baixos que altos - que não necessita de uma retrospectiva para ser lembrada -, Schumacher é o tipo de cineasta que se preocupa com qualquer coisa, menos em ser original. No caso de ''Reféns'' (Trespass, 2011), a pretensão da vez é construir um thriller claustrofóbico, filmado quase que inteiramente no interior de uma mansão, com reviravoltas e alto grau de tensão. Contudo, como não foge à regra de quase toda a filmografia de seu diretor, deu errado. A todo instante, o que parece é que Schumacher tem plena consciência das falhas que comete, e, mais adentro, do equívoco que é seu próprio filme. Com isso, ele apela a todo instante para, digamos assim, momentos extremos, em que a situação parece que vai despencar sobre os protagonistas (no caso aqui, sobre uma família completamente estereotipada, e sem qualquer conflito dramático profundo), quando na verdade é apenas um alarme falso para construir tensão. O problema nisso tudo está na inaptidão do diretor em confeccionar uma atmosfera apreensiva, dependendo exclusivamente desse joguinho medíocre de vai-não-vai para estabelecer o mínimo de caos psicológico. Entretanto, aqui todos colaboram para transformar aquele episódio de horror num fiasco sem proporções; das atuações inexpressivas (Nicolas Cage está ordinário novamente; e Nicole Kidman surpreende com sua canastrice) ao roteiro precário, parece haver um consenso para arruinar qualquer qualidade presente na trama. E se foi esse o objetivo, alcançaram. O principal equívoco de Reféns está em suas escolhas. São elas que catalisam o desmoronamento da narrativa, pois as alternativas às quais Schumacher e o roteirista estreante Karl Gajdusek recorrem denunciam uma gravíssima e comprometedora falta de tato. Entre as más opções está, especialmente, as reviravoltas da trama, dignas de uma novela televisiva (envolvendo desde possíveis traições, amores doentios, a outros tantos), que, além de claramente despropositadas, utilizam o perigoso artifício do flashback. Quando bem executado, ele somente enriquece a narrativa, no entanto, o diretor o adiciona naquele meio de maneira arbitrária e até mesmo pueril, em tentativas obviamente frustradas de tapar o sol com a peneira. O que ele não percebe é que, entre outras coisas, o filme em si é um grande rombo; um buraco formado por um elenco sem qualquer inspiração (dos atores protagonistas aos coadjuvantes), um roteiro desengonçado e uma direção trôpega. O fato é que toda essa brincadeira de verdades e mentiras construída pelo diretor logo cansa, à medida que o menosprezo pelos elementos mais promissores vai ficando ainda mais evidente. Em maior exemplo disso, o próprio enredo que, mesmo corriqueiro e propenso a clichês, já resultou grandes filmes dentro de seu subgênero. Dessa vez, porém, a paz de uma família que é destruída por um grupo de bandidos motivados a assaltar sua residência serve somente como uma lona para esse circo ministrado por Joel Schumacher, que afunda ainda mais no abismo de mediocridade que montou para sua própria carreira. Não há muito mais o que comentar, exceto, novamente, a constatação de que é ''Reféns'' é mais outro erro, afinal de contas. Muito embora, devido às inúmeras falhas cometidas pelo cineasta em questão, creio que todos já esperavam por isso." (Junior Souza)

Mais um filme imperdoável de Joel Schumacher, Nicolas Cage e Nicole Kidman.

''Uma vez Joel Schumacher, sempre Joel Schumacher. O cineasta que fez Batman & Robin está de volta aos cinemas com mais um filme ruim. Mentira. Mais um filme péssimo! ''Reféns'' (Tresspass, 2011) é uma versão ainda piorada do já sofrível Refém (Hostage). Aliás, as situações são tão parecidas que um processo por plágio poderia até ser possível - caso algum dos dois filmes fosse sequer digno de algum orgulho por parte de quem os fez. Não é o caso. Os resultados de bilheterias só não são piores porque os nomes de Nicolas Cage e Nicole Kidman (inexplicavelmente) ainda chamam atenção e levam pobres desavisados aos cinemas. A história começa mostrando Kile Miller (Cage) andando no seu Porsche conversível enquanto negocia ao telefone. Ele é um mediador no caríssimo mercado de comércio de diamantes e vive em uma imensa mansão com sua linda esposa Sarah (Kidman já desintoxicada da sua fase botocada) e sua filha Avery (Liana Liberato), uma adolescente que quer sair com suas amiguinhas ricas para curtir a vida. No que parecia ser mais um dia na vida dos Miller, um grupo de assaltantes consegue entrar em sua moradia cheia de alarmes com a missão de sair dali com muito dinheiro em pouco tempo. Kile aproveita a sua experiência profissional para negociar com os gatunos a liberação de sua esposa. A cada brecha, ele vai dificultando a vida daqueles que os fizeram de reféns, mas não conseguem demonstrar o poder de quem está apontando a arma na sua direção. Com bandidos frágeis, instáveis e visivelmente despreparados, metade da graça já foi embora. Se ao menos Macaulay Culkin estivesse por ali poderíamos rir a cada latada de tinta na cara ou tropeções em bolinhas de gude. Nem isso o filme tem. O que vemos é um amontoado de situações incoerentes (Cage com a mão quebrada conseguindo vencer um brutamontes em uma briga mano-a-mano), personagens sem carisma algum (mata logo a filha!) e segredos que não empolgam (o que será que ele estava escondendo da esposa?). O que resta é clichê (bandido caindo na escada após jogarem um monte de bambus em cima dele). Os problemas de Schumacher não são técnicos. A equipe parece ter se esforçado e o filme não tem cara de que foi feito às pressas ou com pouco dinheiro. Ele é apenas ruim mesmo. Depois de assumir publicamente todos os erros de seus dois filmes que enterraram a franquia Batman até o surgimento de Christopher Nolan, resta saber qual vai ser a sua desculpa agora, jogando mais um pouco de terra em cima da rara dignidade de Nic Cage e Nic Kidman. ''Reféns'' prova que o normal do cineasta é errar, e que tiros certeiros - como os bons Por um Fio e O Custo da Coragem - são exceções que confirmam a regra escrita por Batman & Robin, Batman Eternamente, O Número 23 e muitos outros." (Marcelo Forlani)

''Este foi um dos grandes desastres do ano (custou cerca de US$ 35 milhões e não rendeu mais do que 16 ), mas como não é filme de estúdio do independente Millenium não ficou assim tão notório, ate porque já nos acostumamos com as bombas que Nicolas Cate tem estrelado. Aqui, eles chamaram de volta meu amigo diretor Joel Schumacher (o conheci em Paris e depois o reencontrei outras vezes ficamos amigos, mas é difícil manter um contato com os constantes erros que tem cometido) que não consegue salvar um roteiro muito fraco de um certo Karl Gajdusek (só tem como crédito a série Dead Like Me), que ainda por cima é curto a ponto de parecer esticado.Como não passaram o filme antes para a imprensa (ou ao menos não me convidaram), a impressão que fica, vendo numa sala, é que devem ter pago um bom salário para a dupla central, de tal forma que não sobrou grana para o sets (a mansão em que vive o casal depois de uma externas no começo vai ficando empobrecida e descuidada) e menos ainda para o elenco de apoio. A não ser a enjoadinha Liana Liberato, que faz a filha (ela estrelou Confiar), todos os outros são canastrões e jogam fora personagens que poderiam ser interessantes, em particular o australiano Ben Mendelsohn (Especialistas, Reino Animal), que tinha nas mãos um vilão que poderia ser notável. Ainda me lembro da época em que eu era criança, quando vi meu primeiro filme sobre bandidos que invadem uma casa, chamava-se Horas de Desespero, dirigido pelo grande William Wyler e quem fazia o papel do chefe dos bandidos era Humphrey Bogart. Para sentirem a diferença de nível e como esse tipo de história já é velha e cansada de guerra. Hoje virou lugar comum da crônica policial e ficou cada vez mais violenta. Nicole (sem botóx) tem um papel infeliz, onde fica chorando e gritando o tempo todo (merece todos os dólares que levou, embora um fracasso desses no momento delicado de sua carreira não venha a calhar) como a esposa desprezada de um homem muito rico que negocia com diamantes e que ainda está terminando a mansão para onde se mudaram. Além disso, tem o conflito com a filha adolescente que quer ir numa festinha de barra pesada e quando contrariada foge de casa. Em menos de dez minutos, aparecem bandidos disfarçados de seguranças (o filme levanta uma pista falsa quando Nicole parece reconhecer um deles) em busca do dinheiro e das pedras. Mas o marido (Cage) recusa a abrir o cofre. Enquanto a esposa e depois a filha que retorna, ambas burrinhas não dão uma dentro. Ficam histéricas e não conseguem nem fugir, nem reagir direito, nem ajudar Cage. São quatro bandidos e o chefe deles é aquele australiano que eu disse que joga fora a chance de sua carreira. Infelizmente filme desse tipo só funciona tendo um vilão de qualidade, uma grande figura. E aqui são todos ridículos, inclusive uma mulher drogada e o mais tonto de todos, o tatuado Cam Gigandet (Burlesque), que é outro que não chega nem perto das possibilidades do seu personagem (que acaba sendo o mais interessante). Se o filme é puro clichê, ele perde completamente o rumo na meia hora final, ficando cada vez mais absurdo e ate ridículo. Talvez de para se consumido na televisão, mas não merece ser conferido nos cinemas. Mas pelo jeito só o nome de Cage já é garantia de má qualidade." (Rubens Ewald Filho) ” - kaparecida445-2-230390
 
92.
The Nightcomers (1971)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.1/10 X  
Prequel to the Henry James classic "Turn of the Screw" about the events leading up to the deaths of Peter Quint and Ms... (96 mins.)
Director: Michael Winner
“ OS QUE CHEGAM COM A NOITE

''As crianças gostam do Peter Quint de ''Os que Chegam com a Noite''. Gostam de seu jeito de falar, de suas brincadeiras e, no fundo, de encarar a vida como algo passageiro, a ser aproveitada. Quint, vivido por Marlon Brando, reproduz o desejo à beira do abismo: vive como se estivesse, sempre, prestes a morrer. Ao não entender a morte ou mesmo a maldade, as crianças desejam viver como Quint. E, não seria difícil prever, ele é uma fonte de inspiração – às alegrias, em brincadeiras, e também às maldades. O mal está muito próximo à vontade de viver no filme de Michael Winner. Suas qualidades, à felicidade do público, conseguem eclipsar com certa facilidade seus defeitos. Com Os que Chegam com a Noite, sai em busca da história que antecede a consagrada obra A Volta do Parafuso, de Henry James. Trata-se de uma história com tons fantasmagóricos em oposição a esta, centrada em questões físicas. Interessam suas dores, perdas e ambiguidades. Talvez, por elas, seja possível enxergar a grandiosidade além dos enquadramentos das portas que se abrem, dos corpos que as ultrapassam e da luz à beira do lago ao centro do filme. Miles (Christopher Ellis) e Flora (Verna Harvey) são irmãos e estão próximos à adolescência. Próximos demais. São órfãos e não sabem. Acabam de perder pai e mãe em um acidente. A história trágica é contada justamente por Quint, o jardineiro. No relato, há uma carga de sagacidade, como se a morte não fosse tão ruim assim e como se tudo não passasse de um obrigatório estágio rumo à emancipação. Mas Quint não sabe o que suas ideias podem causar a estas crianças, sobretudo a Miles. Deixados naquela casa, eles servem-se das referências que sobraram: a educadora Miss Jessel (Stephanie Beacham) e a senhora Grose (Thora Hird). Nesse meio, é possível entender a busca dos jovens pela figura de Quint, um ser um tanto destemido, astuto, falador. Homem às vezes engraçado, não leva confiança ao público ao passo que a transpassa às crianças com facilidade. Logo, a violência e o modo de ver o mundo típico de Quint são transmitidos às personagens infantis. Se você realmente ama uma pessoa, explica Quint, às vezes você quer matá-la. Não é lá o tipo de inspiração desejada. O filme, por sua vez, carrega outro questionamento: não seria essa proximidade, entre o amor e a morte, inerente à natureza humana? A diferença, aqui, é quando essa questão passa à formação dos jovens, sem qualquer estrutura para lidar com ela. ''Os que Chegam com a Noite'' torna-se um filme sobre educação. A maldade converte-se em fruto fácil, como o amor colhido em galhos. Se na natureza há o belo a contemplar, por um lado, há sempre o mal a extrair: no sapo morto pela fumaça, na tartaruga com o casco para baixo ou na borboleta com apenas alguns dias de vida para pôr em prática a missão de perpetuar sua espécie. As crianças não pensam na violência como modo de sobreviver. Não pensam, também, no amor como amostra das fraquezas do coração. Ao contrário, embaralham as coisas em um jogo simplista e divertido aos seus olhos. O amor e a morte são fórmulas à excitação. Essa transferência da maldade dos adultos aos mais jovens carrega um olhar um tanto conservador. O texto explicita um pressuposto: aos irmãos, resta apenas essa maldade assistida e experimentada. Outras saídas são impossíveis. Ao mesmo tempo, para aliviar essa constatação, todas as personagens do filme surtem a impressão de estarem inacabadas. É difícil julgá-las. Quint, um homem mal, tem também características humanas suficientes para ser compreendido. Na outra ponta está Miss Jessel, visitada à noite pelo jardineiro. A relação carnal tem seus opostos aniquilados: ele deixa de ser o ogro descabelado, o bruto de pele suja; ela, na contramão, deixa tombar o apelo à imagem da professora puritana, exemplo de perfeição. O relacionamento entre esses funcionários da mansão – entre os de dentro e os de fora, os ditos limpos e os sujos – provoca uma interessante fusão. Na cama, são os mesmos. Aos olhos de Miles, a comprovação máxima da proximidade entre o amor e a morte, entre a dor e o prazer. Quint violenta Jessel. Amarra-a e chega a enforcá-la, em uma relação sadomasoquista descoberta, depois, pela senhora Grose. A prática da dor é levada à frente pelas crianças – sem o prazer e como brincadeira. Com um pouco de dor também. As brincadeiras não se limitam a certa distância entre o que é aceitável ou não quando pouco se entende os desdobramentos do mal. E, aqui, está o âmago de ''Os que Chegam com a Noite'': apenas o amor pode explicar a dor. Jessel ama Quint. Já os sentimentos do homem, à primeira vista doente, não estão muito claros. Ao fim, as crianças tornam-se o câncer – e, blindadas pelo signo da inocência, não serão combatidas. Pelo contrário, são como guardiãs da esperança enquanto elevam o gosto pela morte. É uma simples diversão, um jogo cujos fins são impensáveis frente à pulsação dos meios. São crianças e podem ser más. Talvez nessa amostra de força o filme consiga fugir de certo olhar conservador: por que os jovens angelicais não podem ser maus? Eles podem. Uma boa pedida, seguinte ao filme de Winner, é Os Inocentes, adaptação belíssima da obra de James e dirigida por Jack Clayton. Outra governanta chega à mansão. Recebida pelas crianças, ela será levada a vagar pelos corredores escuros para descobrir os espíritos atormentados que, um dia, amaram-se às suas maneiras. Com um castiçal, a governanta busca iluminar seu caminho, pela mansão, e trazer à tona as tragédias passadas. E, quem diria, uma história de amor." (Rafael Amaral) ” - kaparecida445-2-230390
 
93.
Immortals (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.0/10 X  
Theseus is a mortal man chosen by Zeus to lead the fight against the ruthless King Hyperion, who is on a rampage across Greece to obtain a weapon that can destroy humanity. (110 mins.)
“ "Muito estiloso, a fotografia cansativa (à lá "300") denuncia um filme de ação redundante e que empolga em raros momentos, com seu roteiro superficial e efeitos de segunda linha." (Alexandre Koball)

"Excessivamente fantasioso, um filho piorado de 300." (Josiane K)

Mitos desfigurados.

''O cinema sempre adaptou mitologias e muitas delas sofreram com narrativas deturpadas, cujo propósito era apresentar versões distintas das fabulas, sacrificando o original a troco de potencial comercial. Este ''Imortais'' (Immortals, 2011) é o mais recente exemplo disso, e dificilmente agradará admiradores de mitologia grega. O roteiro sabota as lendas, embora em alguns atos busque referenciá-las. A decepção só não é maior pela diversão proporcionada, ainda mais pelo 3D que, se não é exuberante, ao menos não é ridículo como em várias produções recentes. Esquecendo-se – se é que isso é possível – que a história baseia-se em mitos, a obra torna-se um interessante longa de ação-ficção cujos nomes dos personagens foram emprestados dos personagens gregos. A produção é caprichada, contando com aspectos técnicos empolgantes, entre eles a direção artística de Tom Foden, que marca com sombras a guerra entre a humanidade sobre o olhar esperançoso dos deuses. Cenas recorrem à beleza paisagística da Grécia antiga retratada em obras medievais, e o cenário gráfico impressiona juntamente ao figurino espalhafatoso, destacando-se nesse meio os deuses com suas armaduras douradas e os oráculos. Produzido por Gianni Nunnari e Mark Canton, dupla responsável por 300 (idem, 2007), o longa conta com vários momentos que levam o espectador a recordar da obra de Zack Snyder, sobretudo a câmera lenta registrando combates coreografados num travelling vagaroso. No entanto, tantos artifícios artísticos não são o bastante para encobrir a mediocridade narrativa, sem nenhum compromisso com a veracidade dos mitos, o que, de certo modo, pode ser encarado como ofensa por seus mais fiéis apreciadores. Não é que tenha obrigatoriedade de ser idêntico ao conto, mas a trama deveria ganhar atenção. O desenrolar dela é insossa e preguiçosa, cheia de argumentos supérfluos para encaminhar uma ótica discutível a respeito dos interesses de seu herói. Teseu (Henry Cavill, o próximo Super-Homem) é transportado para outra história. Não sabe quem é o pai, ao contrário da fabula mitológica a qual indicava ser filho de Egeu, rei de Athenas. No longa foi treinado por Zeus em forma humana (John Hurt), o jovem que não teme o fracasso, a vergonha e a derrota, deve liderar o exército helenico contra o domínio do rei vingativo Hipérion (Mickey Rourke). Este está em busca do Arco de Epiro para libertar os Titãs aprisionados. A jornada de Teseu se dá após assistir a mãe ser assassinada. Escravizado, se rebela junto a outros escravos e encontra a Oráculo (Freida Pinto) que o adverte sobre um futuro infeliz. O arco dramático se faz nesse percurso com altas doses de ação, ondas gigantes e sangue esguichando. Buscando apoio em algumas alegorias, acompanharemos um duelo decepcionante contra o Minotauro no labirinto. O novelo de linha que marcava o direcionamento de Teseu no labirinto deu lugar a rastros de sangue. Tarsem Singh assumiu o projeto entrando na ode de obras análogas, como os recentes Fúria de Titãs (Clash of the Titans, 2010) e a adaptação literária de Percy Jackson e o Ladrão de Raios (Percy Jackson & the Olympians: The Lightning Thief, 2010) – que não deu certo. Entre tantos embates, fica uma sugestão sobre crenças, intervenções divinas e o livre arbítrio. Soa gratuito e passional, e quando Athena (Isabel Lucas) clama a Zeus (vivido por Luke Evans) para que ele não abandone a humanidade, aí fica difícil de levar a coisa toda a sério. Com atuações convenientes, o filme desenvolve-se de uma maneira expositiva, pouco exigindo de seu recheado elenco. Henry Cavill não tem lá muita simpatia, mas não decepciona nas cenas de ação – um prelúdio ao que virá no novo Superman - Homem de Aço (Man of Steel, 2013). Já a indiana Freida Pinto emula seu encanto notável, exibindo uma beleza divinizada numa cena de nudez. Rourke cumpre bem o papel de vilão, com ditados nada convencionais, violência amplificada e frutas mastigadas. O restante do elenco pouco acrescenta encenando, pairando num tom consentido as pretensões visuais de Tarsem Singh. ''Imortais'' é mais uma obra que se apóia em mitologias e decepciona em sua elaboração, porém inclui razoáveis conflitos capazes de deixar o público minimamente satisfeito – destaca-se a ira dos deuses num ato final – e um aparato técnico competente o bastante para glorificar o projeto pela experiência visual proporcionada. É a pincelada hollywoodiana funcional, buscando franquias quase às escuras, investindo num gênero tradicional para evocar novos seguidores." (Marcelo Leme)

Espetáculo em detrimento da substância.

''Quando Tróia falhou em 2004 em tornar-se o filme que o estúdio desejava, fazendo US$ 490 milhões no mundo a partir de orçamento de US$ 175 milhões (esperava-se muito mais), analistas acharam que se tratava do fim dos épicos gregos. O gênero havia se tornado caro demais. Três anos depois, porém, com 300, o cineasta Zack Snyder mostrou que dava para realizar um filme baseado em histórias da antiguidade, com legiões engalfinhadas em combate e criaturas fantásticas, por muito menos. Com US$ 65 milhões, o filme gerou US$ 470 milhões, um sucesso que colocou no mapa a dupla de produtores Gianni Nunnari e Mark Canton. Rapidamente, comentou-se que o novo formato - o uso maciço de computação gráfica nos cenários e estilização dos gráficos - seria a saída para os épicos. Não foi. Nunnari e Canton não conseguiram emplacar mais nada depois de 300, apesar das diversas ameaças de retorno de um dos gêneros históricamente mais populares do cinema. Quatro anos se passaram até que um novo projeto nessa mesma linha estreasse, pelas suas mãos. ''Imortais'' (Immortals, 2011), dirigido por Tarsem Singh, porém, sofre com as comparações a 300. Os dois filmes dividem o apreço aos clichês do gênero, claro, além de uma ou outra cena de câmera lenta que parece ter sido imposição dos produtores. Singh, porém, é muito mais atento aos detalhes que Snyder - ainda que menos dotado daquela empolgação "de macho". O diretor indiano floreia seu filme com belos figurinos, exageradíssimos, com adereços de cabeça de fazer inveja a carnavalesco carioca, e situa tudo isso em ambientes exóticos, que misturam o gosto pela arquitetura e pela decoração inusitadas. Os adornos têm uma funcionalidade sádica, algo que já fora notado em A Cela, que vale a visita... cada canto do filme, especialmente os que dizem respeito ao Rei Hipérion (Mickey Rourke, à vontade entre torturadores, frutas e escravas), é repleto de pequenas histórias visuais. O touro dourado, por exemplo, nem precisava ser aberto para ser compreendido. Se Zack Snyder é fetichista em sua direção de arte, o mesmo pode-se dizer de Singh, mas as influências de ambos os diretores são diametralmente opostas. Os fetiches do indiano, que também aprecia a estética da violência estilizada, são muito mais bollywoodianos que ocidentais, daí os brilhos, tecidos e arranjos. Até no uso da câmera os dois são parecidos, mas opostos. Enquanto Snyder usa o recurso para evidenciar a brutalidade do impacto e o feito heróico, Singh valoriza o movimento, a coreografia - outro traço cultural aprendido em seu berço. E tudo isso, a construção de cenários, os figurinos, o balé, fica ainda mais interessante em 3D. A volumetria é um bônus aqui. Dramaticamente, porém, Imortais é bastante superficial. Pega pedaços da mitologia grega e os distorce, de maneira sisuda demais, para contar a história de Teseu (Henry Cavill), um bastardo que precisa tornar-se um líder, auxiliado por uma sacerdotisa do oráculo (Freida Pinto), para repelir um exército invasor. As forças do Rei Hipérion, em busca do mítico Arco de Épiro, pretendem vingar-se dos deuses, libertando a raça dos Titãs e deflagrando a guerra entre os imortais do título. Cavill não segura a reponsabilidade e parece pouco entregue ao papel, seu primeiro de destaque no cinema depois de uma ótima participação na série The Tudors. O protagonista simplesmente não convence como o pobretão que sofre preconceito (inspirada no problema de castas da Índia; essa é a maior deturpação do mito, em que Teseu era príncipe) e que se torna um guerreiro carismático da noite para o dia. O elenco de apoio também não ajuda. Stephen Dorff salva-se como pode, Frieda faz adorável cara de preocupada e John Hurt (Hellboy) atua no automático, mas o núcleo de deuses-cool é o mais difícil de assistir. Isabel Lucas (Transformers 2), Kellan Lutz (Crepúsculo), Luke Evans (Fúria de Titãs) e Peter Stebbins parecem mais posando para o calendário Olimpo 2012 do que efetivamente gerando algum drama lá no alto do monte. O esteta Singh ainda precisa dar mais humanidade ao seu cinema - e isso não é obtido de maneira simplista, transformando príncipes em bastardos. Sem ela, espetáculos como o de Imortais não se sustentam." (Erico Borgo)

''Imortais'' é um filme cheio de descobertas visuais em que o espectador fica sem saber onde fixar os olhos diante do espetáculo estético. Em contrapartida, o roteiro com pouca profundidade tira do longa a chance de ser algo mais que uma produção com bons momentos de ação. Na verdade, não esperava mais do que vi. O longa é dirigido por Tarsem Singh, conhecido pelo rigor visual arrebatador de suas obras, como A Cela, mas que parece não se preocupar muito com o desenvolvimento do enredo. A trama de Imortais consiste na busca do rei Hypérion (Mickey Rouke) pelo poderoso Arco de Épiro, capaz de libertar do calabouço os Titãs, trancafiados após a grande batalha que perderam contra os deuses. Cruel, Hypérion elimina todos que atravessam seu caminho, inclusive a mãe de Teseu (Henry Cavill), um jovem de coração puro e valente, treinado por Zeus em sua forma humana, sem que soubesse, e ironicamente descrente na existência dos Deuses. Com essa ferida no peito, motivado pela vingança, Teseu lidera o exército de humanos contra o demoníaco Rei. Henry Cavill (o próximo Super-Homem) ainda não tem o carisma de um protagonista, mas mostra desenvoltura como guerreiro Teseu e deve agradar ao público feminino com seu físico sarado. É esperar que faça melhor como o novo Homem de Aço, tendo em vista que o papel vai exigir mais dele do que exibir seus músculos. Freida Pinto está inexpressiva tal qual no recente Planeta do Macacos: A Origem e nada acrescenta ao filme a não sua beleza indiana. Mickey Rourke é o destaque do filme no papel que lhe cai melhor, o de vilão, mas se vê prejudicado por um roteiro que não abre espaço para os atores imprimirem profundidade em seus personagens. ''Imortais'' é um longa para se para assistir sem compromisso e sem apego à mitologia como descrita nos livros. As cenas de batalhas são muito bem feitas e de uma brutalidade que irá agradar a todos os fãs de filmes de batalhas medievais com direito a muito sangue jorrando nas telas. Seu problema é que o diretor Tarsem Singh pensa que somente seu estilo visual é suficiente para sustentar 110 minutos de projeção. Ledo engano. Preocupa-se mais com a beleza de seu trabalho do que em desenvolver direito a história e os personagens, o que torna o seu longa um espetáculo belo, mas vazio." (Roberto Guerra) ” - kaparecida445-2-230390
 
94.
11-11-11 (2011)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.0/10 X  
After the death of his wife and child, an author travels to Barcelona to see his estranged brother and dying father, where he learns that his life is plagued by events that occur on 11/11/11. (90 mins.)
“ "Poderia simplesmente dizer que é uma grande bobagem." (Alexandre Koball)

11-11-11, um dia qualquer, um filme qualquer.

''A expectativa em torno do 11 de novembro de 2011, com relação a profecias e superstições, motivou a concepção de um longa metragem de horror. Sua divulgação despertou curiosidade, sua temática também, e alguns aguardaram o tal ''11-11-11'' (idem, 2011) com certo interesse. A tentativa de se fazer terror com esta numerologia marcou o projeto constrangedoramente, graças a uma direção espanada, forçando sustos e cenas obscuras, e desenvolvendo uma história cujo potencial religioso, propagado num sentido crítico, mostrou-se propenso a finalidade polêmica sem grandes embasamentos. A reviravolta final, atributo constituído na série Jogos Mortais, residência de seu diretor, perde a força tamanha fenda de sua narrativa. Legitimamente datado, este longa escrito e dirigido por Darren Lynn Bousman vem arrecadar alguma grana nas bilheterias para em poucas semanas ser completamente esquecido. Destino previsível. Vale até recordações: Número 23 (Number 23, 2007), de Joel Schumacher, é inevitavelmente lembrado. A obra desenrola-se fazendo constantes referências ao número 11, desde horários, datas, número de salas e apartamentos. Essa ordenação motiva a obsessão de seu protagonista, o famoso escritor Joseph Crone (Timothy Gibbs), um niilista transtornado por uma tragédia familiar que assombra suas noites com pesadelos. A cena de abertura é um convite aos temores de Joseph. Terrores noturnos, imagens de chamas, gente no meio delas. Recorrentes sonhos que o atormentam, lhe obrigando a encontrar qualquer controle em pílulas. Sem saída, o cara freqüenta grupos de ajuda, tenta escrever um novo livro e flerta com uma estranha garota – que nunca diz a que veio. Quando recebe a notícia de que seu pai está com os dias contados na Espanha, viaja até o país para revê-lo e enfrentar um passado abrupto que nos é temporariamente privado. Desdobram-se especulações sobre os segredos dessa família. O irmão de Joseph, Samuel (Michael Landes), dedicado à religião, leva a palavra à comunidade, acreditando num acréscimo de seguidores da doutrina. O embate entre a descrença e a fé persiste em pelo menos dois atos sem conceitos, exprimindo opiniões como aversão voluntária. Em volta disso, sombras e representações aterrorizantes garantem um clima sombrio, contando com uma fotografia escurecida, esperando uma luz reveladora daquela cegueira aflita e incerta. Imagens aparecendo em gravações, nos espelhos, na penumbra, juntamente a aparições repentinas de personagens hostis, buscam surpreender seu espectador – é a velha fórmula, mas muito mal utilizada. Há passagens que até dão fôlego a história, porém são sabotadas rapidamente quando o filme, quase se convertendo em um romance investigativo, busca aqui e ali algum susto. Sem sucesso, o diretor insere outro artifício a trama, um labirinto cuja única proposta é servir de alusão à busca de Joseph pela verdade. De melhor, o longa de Lynn Bousman oferece uma piada recordando Louca Obsessão (Misery, 1990) e atuações controladas. O clímax sugere uma grande revelação, como às crenças sobre a data. Ela passou e nada aconteceu, igualmente o filme: esperado, passageiro e subitamente ignorado." (Marcelo Leme)

''A cada intrigante data proporcionada pelo fim do século e o começo do novo, surge um filme de terror em Hollywood. “Fim dos Tempos”, no ano “diabólico” de 1999, deu início a essa mania que felizmente não se repete com tanta frequência e que vem provocando cada vez menos fascínio no público. Extremamente dependentes de ousadas campanhas publicitárias, essas produções optam por fortes temáticas religiosas que não hesitam em colocar o futuro da humanidade em questão. Com “11-11-11” não é diferente. Alucinações, inúmeras presenças demoníacas e coincidências cabalísticas de fundamental importância para o mundo cristão retornam à tela grande neste tenso e datado longa-metragem de roteiro falho. Como de praxe, uma figura masculina é a responsável por afastar qualquer ameaça à harmonia universal. Desta vez, trata-se de Joseph Crone (Timothy Gibbs), um escritor de sucesso que, devido à trágica morte da esposa e do filho, tornou-se um ateu convicto, mas ainda atormentado. Nos últimos dias, sonhos perturbadores e recorrentes aparições do horário 11:11 também passaram a intrigá-lo. É exatamente nesta hora que ele sofre um inexplicável acidente automobilístico que não o causa qualquer sequela. Um telefonema do irmão mais novo, Samuel (Michael Landes), informando sobre o péssimo estado de saúde de seu pai, leva Joseph a Barcelona, onde as alucinações ganham enorme intensidade, assim como torna-se visível a relação ruim que possui com seus familiares mais próximos. Inquieto, o escritor, então, realiza diversas pesquisas que parecem explicar quase tudo e o alertam para a chegada do dia 11.11.11, quando todas as manifestações buscarão cumprir seu mais terrível objetivo. Escrito e dirigido por Darren Lynn Bousman (“Jogos Mortais II”), o filme tem um início promissor. Ter um protagonista adulto já soa como um bom sinal em um gênero dominado atualmente por jovens imaturos, mas é o tom sério da narrativa em seus primeiros minutos que agrada. Centrado no drama desse homem de destino trágico que possui pesadelos com a morte da mulher e do filho e que frequenta grupos de ajuda para tentar superar o luto, o roteiro dá uma falsa impressão de que não é tão comercial como a ideia que o concebeu. A falta de crenças (e não de fé) de Joseph não só é bem justificada como transmitida. Trata-se de um homem instruído, inteligente e cheio de argumentos difíceis de serem questionados. Seu isolamento em uma cidade bastante populosa só é quebrado pelos bons diálogos com Sadie (Wendy Glenn), a amiga do grupo de ajuda que reparte com ele a forma com que superou sua tristeza. No entanto, a ânsia por introduzir o sobrenatural em cena limita as pretensões dramáticas da narrativa, que logo são substituídas pelo desenvolvimento de um cenário de expectativa que desagua em um desfecho decepcionante. A verdade é que, ao levar seu protagonista para Barcelona, Bousman concede a ele dias pouco originais e particulares como os que os antecederam. “11-11-11”, enfim, torna-se um terror comum com direito a uma casa amedrontadora dona de papel de parede ridículo, estátuas não menos medonhas e símbolos religiosos que se espalham por todo o seu ambiente escuro. Até mesmo a difícil relação de Joseph com o irmão e o pai vai para um segundo ou terceiro plano quando os sustos passam a ser a meta principal do diretor. Em seu propósito clichê, vale dizer, porém, que o cineasta realiza um bom trabalho atrás das câmeras. Contando com a colaboração da angustiante trilha sonora de Joseph Bishara, o diretor é competente em manter a tensão em alta e esforçado na construção de aparentes planos-sequência, os quais fazem o espectador não tirar os olhos da tela um só segundo. Mas assim como todo o filme, Bousman vacila no desfecho ao não chocar como deveria e também ao colaborar com uma falsa ambiguidade criada pelo roteiro. Sem revelar muito, basta dizer que, assim como na maioria dos filmes de terror, “11-11-11” prejudica quase que completamente seu resultado final ao apresentar uma recorrente reviravolta (que de tão utilizada, surpreende exatamente quando não acontece) sem embasamentos. É incapaz ainda de responder a alguns mistérios exibidos ao longo de seus 100 minutos de duração, fazendo da produção um razoável entretenimento que dificilmente intrigará até os mais supersticiosos, muito menos se conferido em data posterior ao nome que carrega." (Darlano Didimo) ” - kaparecida445-2-230390
 
95.
The Guardian (1990)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.3/10 X  
A young couple with a newborn baby don't realize that the nanny they hired is a magical nymph who sacrifices infants to an evil tree. (92 mins.)
 
96.
Cosmopolis (2012)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.0/10 X  
Riding across Manhattan in a stretch limo in order to get a haircut, a 28-year-old billionaire asset manager's day devolves into an odyssey with a cast of characters that start to tear his world apart. (109 mins.)
“ "Cosmópolis" é um retorno a David Cronenberg. Não o Cronenberg de Freud e Jung, não o dos mafiosos russos - estavam muito OK esses filmes mais recentes, mil por cento acima da média que vemos no cinema. Desde a abertura, porém, "Cosmópolis" é outra coisa: parece o jovem Cronenberg. "Cosmópolis" marca volta de Cronenberg aos filmes mais experimentais. Aquele das interpretações antinaturalistas, em que os personagens parecem, talvez, drogados. Ou sonados como velhos boxeadores depois de apanhar. É assim nos primeiros diálogos do filme, em que o motorista adverte Eric Packer (Robert Pattinson) de que aquele será um dia de trânsito terrível, porque vai passar o presidente. Que presidente?, replica Packer. O importante é que ele deseja cortar o cabelo. Sendo assim, trata de entrar em sua limusine. A limusine de que é inseparável, onde permanecerá até o final do filme. Packer é um jovem magnata das finanças. Acaba de fazer uma aposta contra o yuan -tudo lhe diz que a moeda chinesa não deve ultrapassar um dado patamar. Que importância tem isso? Toda e nenhuma. Toda: nessa aposta ele jogou o que tinha e o que não tinha (é o que se chama de alavancagem). Nenhuma: ele parece indiferente ao risco, tal a certeza de que não é capaz de errar. Dito isso, a vida segue. Logo ele recebe Didi (Juliette Binoche), consultora artística. Ela revela que existe um Rothko dando sopa. Não basta, responde Eric. Ele quer comprar a capela Rothko (Houston, Texas). Para Packer não há limite. Mas, pode-se perguntar, existe vida? Por que ele quer comprar a capela? Porque tem um dinheiro infinito. E esse dinheiro, para quem já tem tudo, não significa nada, exceto poder. E quando se tem poder é preciso buscar mais poder. Essa busca é infinita. O jovem Packer pode transar no seu carro, mas não demonstra nenhum prazer nisso. Ou pode dar um tiro em um auxiliar, sem se abalar. Nada significa nada para ele. Se estamos próximos do Cronenberg do século passado, quando tratava com tanta frequência de seres em estado de mutação, é porque Eric Packer é também, a seu modo, um mutante: o homem-limusine. Pois a limusine branca que habita também não significa muito: existe apenas para definir uma categoria de mutantes, os seres ligados ao mercado de capitais. Eles representam o capitalismo em seu estágio mais recente. Não se trata mais de produzir. Esse capital só consegue se reproduzir, se multiplicar. Esse é Eric Packer. Não estamos mais às voltas com um manipulador, como em Wall Street, nem com o deslumbrado de A Fogueira das Vaidades. Packer não tem medo nem prazer. Não conhece nenhuma espécie de emoção que não venha da acumulação (e da demonstração) de poder. É o homem-limusine, inexistente como um zumbi e perigoso como uma arma de fogo: essa duplicidade será demonstrada em muitos diálogos e poucos cenários. Pois "Cosmópolis" é um filme de que deve fugir quem procura ação. Um filme que amará quem percebe quanta ação está ali implicada." (* Inácio Araujo *)

"Cosmópolis" é a cidade-todo-o-tempo. Não é um lugar, é uma promessa contínua de negócios nonstop: assim sãos as Bolsas, assim são seus milionários, como o jovem Eric Packer.
Como está em todo lugar, Packer, vivido por Robert Pattinson (Crepúsculo), não está em lugar algum. Ou antes, está sempre em sua limusine. Sua esperança: algum novo ganho. Seu pesadelo: a hipótese de uma perda gigantesca. À parte isso, o mundo inexiste, exceto naquilo em que pode servi-lo. Não há presidentes, nem trânsito capaz de impedi-lo de ir ao barbeiro favorito: é um mundo de desejos, não raro supérfluos. Visão cruel do universo do capitalismo financeiro, essa de David Cronenberg. Talvez agora superada pelo Martin Scorsese do filme "O Lobo de Wall Street"."
(** Inácio Araujo **)

*****
''Em "Cosmópolis" tudo é questão de poder e mercado. David Cronenberg, antes tão empenhado em captar nossas mutações físicas, aqui se concentra nas mutações do mundo. O que é o mercado? Ninguém explica isso direito. Mas sabemos que hoje é algo que funciona 24 horas por 24 horas. Ou seja: quando Nova York fecha, abre Xangai, se fecha Xangai abre Mumbai e assim vamos.
Não é de estranhar que o jovem magnata Eric Packer coma, beba, ame e, sobretudo, cuide de negócios na sua magnífica limusine. Uma limusine mundo. Ela vive por ele. Resta-lhe o poder, o dinheiro. São a mesma coisa. Exclua-se a discussão um tanto obscura do final e temos uma bela ideia do gênio contemporâneo: nada de vidas dedicadas a pesquisar o bem do mundo. Nada de Eistein ou Curie. Agora gênioé que produz a própria fortuna rápida: por alguma invenção ou pela especulação."
(*** Inácio Araujo ***)

"A saga do homem rico adentro de sua cidade carece de qualquer profundidade, exibindo caracteres esquisitos como são no cinema de Cronenberg, mas com pouco a dizer. O tom diferenciado do cineasta está lá - o melhor do filme." (Alexandre Koball)

"Numa existência diluída por máquinas, gráficos, janelas e telas, a grande surpresa do protagonista é descobrir que, ao atirar em sua mão, ela doi terrivelmente. Doi e sangra. Codifica-se e virtualiza-se o mundo, mas a violência ainda tem o mesmo efeito." (Daniel Dalpizzolo)

"Um Cronenberg novamente instigante. O capitalismo tecnológico, que passou a manipular o tempo, com os temperos de violência e sexo. Mas o ritmo sabota o diretor. Verborragia e pouco tempo para refletir as imagens. Assim, perdemos o essencial. O prazer." (Emilio Franco Jr)

"Em sua queda por livros infilmáveis que resultam em filmes estranhos, Cronenberg conta sobre um vampiro moderno que suga a todos a sua volta e depois se autó-destrói. Filme de horror político." (Vlademir Lazo)

"Conceitos de tempo, dinheiro, sociedade e tecnologia são redimensionados nesta distópica retratação de um futuro não tão distante de nossa realidade, no filme em que enfim se convergem todas as principais questões levantadas pelo cinema de Cronenberg." (Heitor Romero)

"Nem me dei o trabalho de refletir sobre as questões por trás de toda verborragia, hipnotizado pela atmosfera caótica de Nova York e pelo comportamento de Packer (até o fluxo de seu raciocínio exala soberba e desprezo) em sua visão distorcida da realidade." (Rodrigo Torres de Souza)

{A verdade de tudo esta numa próstata assimétrica. E a morte vem assim mesmo} (ESKS)

Personagens femininas e diálogos extraídos quase intactos do livro de Don DeLillo são o melhor dessa obra que, por vezes asséptica, nem parece Cronenberg.

''Na sua primeira experiência com câmeras digitais, o cineasta canadense David Cronenberg aproveitou-se do tamanho diminuto, da agilidade e dos ângulos inusitados oferecidos por esses aparelhos para criar todo um claustrofóbico universo para seu novo filme, ''Cosmopolis'' (idem, 2012), distopia escrita pelo americano Don DeLillo em 2003 e roteirizada pelo próprio Cronenberg na sua adaptação às telas. Como a obra se passa quase inteiramente dentro de uma limosine, dá-se a impressão de que Cronenberg estaria de volta ao universo de Crash - Estranhos Prazeres (Crash, 1996), filme mórbido sobre gente apaixonada por defeitos físicos ocasionados em acidentes automobilísticos no qual a espuma de lavar os carros torna-se metáfora de esperma, entre outras alucinações. Mas Cronenberg está em outra bem diferente: como o foco é um jovem milionário, o diretor discute o capitalismo "por cima", na ótica dos vencedores, não a rabeira, como os estranhos seres ficcionados por acidentes com/em veículos. Mesmo que Cronenberg tenha deixado boa parte dos diálogos do livro intactos (o que faz Cosmopolis ser prolixo), o diretor/roteirista mexeu no conteúdo. Talvez a maior mudança (ou a mais cruel) tenha sido a eliminação da cena de sexo entre o milionário e sua fria esposa, pois Cronenberg acredita ser, no livro, apenas um delírio do rapaz. No entanto, está lá integral a felação do mesmo com um músico, de forma que os espectadores terão a oportunidade de ver o galã Robert Pattison fazendo sexo oral em outro homem – é evidente que se trata de um 'clin d'œil' do diretor para tudo que Pattison representa hoje para suas fãs adolescentes, que o veneram como o vampiro romântico dos açucarados filmes kitsch da série Twilight. Cronenberg parece ter caído numa armadilha. Se preservou os diálogos, são eles a força do filme, e a primeira hora, com as mulheres em cena, transcorre de maneira excepcional. Juliette Binoche lhe presta serviços sexuais no assoalho do carro, mas se recusa a vender-lhe uma coleção inteira do Rotko enquanto discutem arte. Samantha Morton, uma espécie de guru sobre o atual estágio do capitalismo, explica de maneira implacável a dinâmica dos protestos globais que hoje se disseminaram ainda mais fortemente com as mídias sociais, gerando fenômenos como o Occupy Wall Street. Mesmo a presença da enigmática mulher, uma loura gelada interpretada por Sarah Gadon, traz a tensão e o estranhamento dos antigos filmes do canadense – ela não quer consumar o casamento, arranjado, supõe-se. Porém, quando os homens entram em cena, o filme cai num palavrório infinito e nada, mas nada justifica o longuíssimo encontro das personagens de Pattison e Paul Giamatti, que produz um final anti-climático e arruína, em parte, o filme. Giamatti representa o oposto do jovem milionário, um loser pobretão, barbudo e gordo, prostado na frente da televisao, e que pretende matá-lo. Mas o encontro de Eric Parker com seu duplo tem o clima esvaziado pela falação ininterrupta (quase meia hora). Antes, uma constrangedora aparição de Mathieu Amalric, como o militante que disfere o tradicional discurso contra tudo que o jovem representaria – é um desses que joga torta nos outros. Talvez do elenco masculino, só a passagem do rapper e do médico não soam excessivamente alongadas – o médico fará um exame de próstata em Pattison, filmado integralmente por Cronenberg, em mais uma cena em teoria constrangedora para o ator. Pattison não atrapalha o filme. Sua face impassível, sua falta de expressividade contribuem positivamente para o psiquê da personagem, um milionário que tem seu império ameaçado pela flutuação da moeda chinesa. Não atrapalha, mas também não ajuda – porém, diretor e ator anunciaram que vão trabalhar juntos novamente no próximo projeto de ambos, parece que a parceria funcionou. Ao ser analisado pelo médico, Pattison tem o corpo exposto à maneira de Cronenberg, esquisita, para dizer o mínimo, como se seu corpo estivesse infestado de algum vírus desconhecido que tanto estrago fizeram nos filmes anteriores do cineasta, e a parafernália da limosine faz lembrar os trabalhos mais físicos e elaborados do diretor, em especial os video-cassetes falantes de Videodrome - A Síndrome do Vídeo (Videodrome, 1983) ou mesmo o laboratório de A Mosca (The Fly, 1986), seus melhores filmes. O horror agora vem na forma de estatísticas, análises, armas sofisticadas, seguranças opressores, informações secretas, câmeras de vigilância, ativistas destruindo as ruas. Enquanto sua limosine desfila com toda dificuldade do mundo pelas ruas de uma Nova York em pé de guerra, seja pelos infindáveis protestos contra o capitalismo, seja por conta de um suposto complô para matar o presidente, Eric Parker vai recebendo visitas, e o carro vai sendo destruído aos poucos. Um grupo de anarquistas propõe a substituição do papel-moeda pelo rato, o famigerado animal. Vemos tudo pelas janelas, enquanto os habitantes continuam alheios ao tormento externo. Asséptico assim, nem parece Cronenberg. Ou melhor, é o Cronenberg de Marcas da Violência (A History of Violence, 2005) e Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007) que se vê nessas cenas. Não há muito a discutir, pois a diarréia verbal termina por encobrir as boas ideias, muito explícitas para suscitar qualquer debate, apesar da atualidade e pertinência das questões levantadas. O niilismo faz o filme cair num vazio tal que, às vezes, se assemelha a A Origem (Inception, 2010), de Christopher Nolan. Teria melhor se quem tivesse feito Cosmopolis fosse o cineasta de Scanners - Sua Mente Pode Destruir (Scanners, 1981) ou Calafrios (Shivers, 1975): não soaria tão artificial mesmo com um conteúdo tão denso.'' (Demetrius Caesar)

O organismo infectado de Cronenberg.

''O mundo em ''Cosmópolis'' (Cosmopolis, 2012) só é visto através de uma tela. De janelas de carro, de televisões embutidas em limusines, da própria tela do cinema. A violência selvagem e desvairada, as revoluções que não são televisionadas, a morte de ícones de uma geração, os atentados políticos e corporativos... Tudo é contemplado, ao longe, por Erick Parker. Que conversa, conversa e conversa. Realista, cínico, cruel e franco com as pessoas que saem e entram da sua limusine com aparência de salão real – e elas são tão alienadas e irônicas quanto o protagonista. Erick quer conseguir um corte de cabelo, e cruza uma metrópole em nome disso. Ele transa, realiza exames médicos, bebe e confere os últimos dados da bolsa dentro da limusine. Esse é o seu trono e a sua prisão: o acuado dono do mundo de Cosmópolis quer fugir da sua fortaleza sobre rodas. A narrativa distante, estranha e desdramatizada de Cronenberg é como a atmosfera que o próprio cria: dentro do grande carro de luto, Erick é testemunha de tudo mas não é participante de nada. Os longos diálogos, tirados de forma praticamente integral do romance de Don Delillo, conciliam duas óticas de mundo sob uma mesma obra: convergindo o interesse de Delillo e sua linguagem contemporânea e crítica às mídias de massa, a guerra fria, a era digital, o terrorismo e a televisão, há o interesse de Cronenberg em retratar um homem e seu interior criado para ser perfeito (a limusine) e sua relação exteriorizada com o resto do mundo: sempre que ele sair do luxuoso veículo irá, progressivamente, tornar-se mais vulnerável. Esta parece ser justamente a sua busca: se dentro do veículo manda e desmanda, arranca confissões, dá ordens, transa com mulheres, lá fora tenta transar com sua esposa frígida em três momentos diferentes do dia (café da manhã, almoço e jantar), pede para uma segurança atirar com uma arma de choque em seu peito e, finalmente, ao final do filme, tem de encarar aqueles que pagam o preço pela sua concentração excessiva de renda, estimada na casa dos bilhões – o quanto, nem ele sabe dizer. A aberração física típica dos filmes de Cronenberg dessa vez é mínima mas o suficiente para, por algum motivo, inquietar: o momento em que o filme começa, de fato, é quando durante um exame de próstata que ele faz, dentro do carro, enquanto conversa com uma conhecida sua sobre negócios e o médico constata que Erick tem uma próstata assimétrica. Uma informação sem finalidade nem forma para o homem que quer saber da origem de tudo (do seu dinheiro, do dinheiro dos outros, e inclusive para onde vai a limusine que dirige) que, pouco a pouco, vai tirando-o do eixo. Se o que acontece, de fato, é alterado por um detalhe mínimo, assim é a história de Cosmópolis, assim é a maneira que Cronenberg filma: assim como partes anatômicas do protagonista (ou de qualquer indivíduo), a câmera do canadense é infectada igualmente pelo vírus da anormalidade; disforme e fora da linha do horizonte, com alturas de câmera desconfortáveis, planos fechados esmagadores, lentes e movimentos que descrevem toda a tecnologia concentrada da vida moderna em um só lugar – conciliada com a cenografia do filme, os cenários simétricos e claustrofóbicos e as roupas perfeitamente alinhadas sugerem, ainda que vagamente, o ambiente de uma prisão – a prisão dos abastados, dos homens do capital, dos superadaptados. Que, como em Calafrios (Shivers, 1975) e A Mosca (The Fly, 1986), irão através de algum pretexto liberar o lado bestial e sempre confinado. E a missão de Cronenberg e de alguns personagens nesta obra que podem vagamente lembrar seus alter-egos (como um protestante que gosta de arremessar tortas ou o homem falido interpretado por Paul Giamatti, apresentado no ato final) é mesma missão do escritor, matador de insetos e guerreiro do submundo Bill Lee, de Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1991): a guerra contra o racionalismo frio e indiferente, contra o desejo castrado, contra as ditaduras da estética. E é por isso que, mais uma vez, o diretor compõe personagens que apenas parecem normais à uma primeira vista: no final das contas, eles são justamente a palavra que perturba Erick: assimétricos. Robert Pattinson, na pele do já não tão jovem e angustiado magnata, tem a grande atuação da sua carreira até o momento: longe da saga pré-adolescente que protagoniza, o mesmo sente-se à vontade para arriscar vôos maiores e mais ambiciosos. Em um filme formado por minúcias, sua atuação é um dos principais componentes ao encenar o desespero contido que resulta tanto nas cenas mais ternas do longa – quando Erick finalmente consegue o corte de cabelo e, em uma longa conversa, é criticado pelo barbeiro que corta-lhe o cabelo desde a tenra infância e pelo motorista de sua limusine da sua falta de ação, de agressividade, da sua passividade, inércia e contemplação. De não ter tomado nenhuma decisão, apenas ser derrotado por uma companhia chinesa enquanto manda comprar imóveis e chora pela morte de seu rapper favorito. A entrega do ator atinge um dos seus ápices na tal seqüência, após testemunharmos praticamente a autópsia de um ser vivo durante o resto da sua projeção, com seu corpo sendo mexido, remexido e explorado incansavelmente. É quando o interior conturbado desse homem parece finalmente vir à tona: aumentam-se as linhas tensas de expressões faciais e modulações vocais de fragilidade. O todo no qual a seqüência é trabalhada – grande parte dos ângulos de câmera escolhidos “esmagam” visualmente o protagonista mostra entre ator e diretor uma compreensão singular do material. E se entre cabeças explodindo, armas sendo tiradas do ventre, homens sofrendo metamorfoses monstruosas, homens enfrentando-se violentamente em uma sauna e agentes heroinômanos combatendo ditaduras inconscientes, uma seqüência de Cosmópolis que deveria entrar no rol das cenas antológicas da filmografia de Cronenberg é justamente sua última, a chegada de Erick ao inferno, onde um homem falido moralmente encontra um homem falido economicamente. O homem que não consegue consumar o casamento, não consegue tomar decisões e dispensa (e despacha) a segurança, onde o conceito de estranheza e assimetria encontra seu potencial máximo quando Pattinson encara Paul Giamatti, um vingador, um homem despedido da empresa Packer Capital de Erick que é um dos muitos que ambicionam matar Erick ambicionando encontrar a redenção. Esses homens tão distantes e tão próximos que tornam Cosmópolis uma peça verdadeiramente contemporânea: em tempos de era digital, sabemos de tudo, o tempo todo. Mas praticamente não participamos. Engrossamos o volume de uma massa disforme e bestial que responde a estímulos persistentes e contínuos. Erick arrasa com tantas vidas indiretamente todos os dias e está alienado dentro de um cubículo super luxuoso e ultratecnológico e que por mais que transe, abrace, compre e sinta os pequenos abalos (como quando revoltosos balançam seu carro), nada responde sua angústia: o personagem apenas contempla um mundo em rota de colisão direta consigo mesmo. E seu arauto é seu espelho: o homem quarentão, baixo, gordo e feio, que quer se vingar de Erick não por altruísmo, mas por orgulho. E por identificação. A longa conversa que têm jamais é conclusiva, jamais explana. Em todo o seu confronto de raiva, angústia e cinismo, apenas confunde mais ainda. Ao trabalhar com dois extremos, Cronenberg mais uma vez cria uma grande seqüência baseada na transformação degradante originada lá atrás, no conflito da relação entre exterior/interior. O principal mote do filme – a citação que o abre, um assunto que é discutido de forma jocosa em uma de cenas que não fazem desenvolver uma trama em si, mas a história, os personagens, uma atmosfera, é que a ratazana tornou-se a moeda de troca. Tal epígrafe do poeta polonês Zbigniew Herbert resume bem o sentimento de decadência e entropia que cerca Cosmópolis, onde nada nunca esteve tão estético, tão limpo, tão futurista – e talvez aí que more nosso maior vírus: essa superadaptação descrita nas atuações reservadas, minimalistas e lacônicas e vomitada através de uma montanha de diálogos criou a tal montanha de instintos repulsivos disfarçada de ser humano, o protagonista recorrente da carreira de Cronenberg. Dessa vez, a forma final do monstro é atraente, adaptada, bilionária; o ápice do sonho de um sistema sócio-econômico. O vírus já mora em nós há muito tempo: o tom monocórdico de Pattison, Cronenberg, Dellilo e Herbert contemplam e descrevem sangue, fome, morte e doença. Mas o desejo pelo acúmulo nos tornou inertes, e nossa moeda de troca pode ser papel ou animal morto, às toneladas e milhões ocorrerão negociações que nenhum de nós tem certeza do tamanho e será nossa ruína, por mais bela que seja nossa prisão: esse é o terror cronenberguiano de sempre, encerrado em um filme que não pertence a lugar nenhum – e por contigüidade, pertence a qualquer lugar. E com sua estética desconfortável e incômoda dentro da simetria atraente e doentia, poucas vezes Cronenberg descreveu o cenário de “terra arrasada” de forma tão eficiente e, justamente, tão perturbadora. Do nível das suas grandes obras-primas, Cosmópolis representa o auge da maturidade, tanto de discurso quanto estética-narrativamente de um outsider por opção e vocação, mostrando mais uma vez a razão de ser um dos diretores mais relevantes de sua geração." (Bernardo D I Brum)

Que tipo de mutação pode acontecer em um mundo imaterial?

''Os filmes de David Cronenberg frequentemente tratam de transmutação entre homem e máquina, um processo ora surrealista (nos filmes de horror como Videodrome e eXistenZ, com seus revólveres de carne e os corpos usados como videocassete ou joystick) ora realista (as taras de Crash são tipicamente cronenberguianas embora não tenham nenhuma mutação manifesta). Cosmópolis, o romance de Don DeLillo sobre um gênio milionário de 28 anos que raciocina na velocidade dos fluxos do mercado de ações, se presta bem a esse universo... Mas como transmutar em corpo uma máquina - a nuvem digital de dados que nos cerca - que não tem forma? Esse é o desafio a que se dispõe Cronenberg, um cineasta visivelmente em transformação. John Carpenter desdenha, diz que o canadense começou a se levar a sério demais, mas filmes como Marcas da Violência e Um Método Perigoso apontam para uma depuração - não apenas uma interiorização - daquele cinema de horror que tratava da violência das mutações em um nível epidérmico. Embora Cosmópolis tenha muito em comum com outros trabalhos do cineasta (o fetiche do automóvel de Crash, a vida vista pela TV/janela e o desfecho idêntico ao de Videodrome), é também seu filme mais "depurado", por assim dizer, no sentido em que sua dramaturgia é mínima, embora o texto seja verborrágico. Basicamente acompanhamos em ''Cosmópolis'' a jornada de Eric Packer (Robert Pattinson, papel difícil, atuação adequada), o gênio milionário, em sua limusine durante um dia especialmente congestionado pelas ruas de Manhattan. Eric quer ir ao barbeiro cortar o cabelo, e, enquanto não chega, aposta na Bolsa uma jogada arriscada contra a moeda chinesa. À medida em que ele faz reuniões dentro do carro, discutindo desde a natureza da modernidade até os clichês dos suicidas, sua fortuna vai diminuindo - e Eric se transforma. O filme comprime ainda mais que o livro as cenas das reuniões. A ideia é nos situar no tempo suspenso do protagonista, onde não se sentem as horas. Mas eis que o tempo alcança Eric. O que está em curso aqui é menos uma metamorfose, como se esperaria, e mais uma súbita tomada de consciência da mortalidade (outro tema bem ao gosto do diretor). Eric fala idiomas, sabe de tudo, mas aos 28 anos não consegue lidar com a descoberta da morte - seja a de um rapper que ele admirava, ou o fim da sua fortuna, ou sua possível morte em decorrência de um diagnóstico de "próstata assimétrica". Eric vive num mundo etéreo movido por ciclos iguais (uma personagem ressalta que ao redor do planeta, por causa dos fusos, o mercado de ações nunca fecha) e nesse mundo, autosustentado e fadado a se repetir, descobrir a morte é o mesmo que descobrir a História. É uma mutação diferente, portanto, daquelas a que estamos acostumados nos filmes do diretor, e Cronenberg não tateia sem tropeços essa transformação que ocorre mais na percepção do mundo (o antídoto da imaterialidade da máquina seria a passagem do tempo?) do que na experiência vivida com o mundo físico em si. Não por acaso, a única mudança pesada que o diretor faz em relação ao livro é a eliminação do último e redentor encontro de Eric com sua esposa, em que DeLillo dava ao protagonista a oportunidade de experimentar o mundo da forma mais óbvia possível: nu ao ar livre. Para Cronenberg, que nessa hora nos poupa de ver Robert Pattinson pelado, a única forma de Eric Packer vivenciar de verdade o mundo material é, como em todos os filmes do cineasta, por meio da violência." (Marcelo Hessel)

''O novo filme de David Cronenberg é feito de ambiguidades e incertezas, assim como é mostrado o universo de seu personagem principal, Eric Parcker (Robert Pattinson). Ele é um bilionário autodestrutivo que vive um casamento de fachada e passa 24 horas por dia cercado de subalternos e bajuladores que recebe em encontros furtivos em sua limusine blindada, uma espécie de fortaleza inexpugnável que o mantém distante do caótico mundo lá fora. Nesse seu espaço sagrado, tem do exterior o que lhe convém, manipulando pessoas e informações em benefício próprio e de seus negócios. Parcker é a personificação de uma sociedade moderna regida pelo controle da informação e pautada pela volatilidade dos mercados financeiros. É esse mundo que Cronenberg pretende criticar em Cosmópolis, cujo o resultado é tão ou mais confuso e desordenado que o sistema que pretende censurar. O mundo fora da limusine de Parcker está desmoronando. Em certa medida o personagem tem bons motivos para se isolar. Há ameaças de assassinato de líderes mundiais, incluindo o presidente dos Estados Unidos. Ele mesmo é uma vítima em potencial, ou pelo menos acredita que é. Manifestantes tomaram as ruas atacando os símbolos de poder, incluindo sua fortaleza sobre rodas. Packer, no entanto, não se preocupa com nada disso. Tanto que decide cortar o cabelo em seu lugar de costume, do outro lado da cidade, mesmo contra as recomendações de seu chefe de segurança. Sua expressão é constantemente fria e suas atitudes parecem as de um robô, no que Pattinson (desta vez menos careteiro que de costume) ajuda bastante. Parece que nada é capaz de mudar sua rotina diária. Para deixar isso bem claro, há uma cena na qual discute negócios enquanto passa por um exame de próstata. Dentro de seu santuéario sobre rodas, realiza reuniões de trabalho com seus técnicos, faz sexo com uma garota de programa interpretada por Juliette Binoche e só sai algumas poucas vezes para comer ao lado de sua esposa (Sarah Gadon), unicamente porque precisa comer e pensa em fazer sexo com ela novamente. ''Cosmópolis'', adaptação feita por Cronenberg do romance do dramaturgo e ensaísta norte-americano Don DeLillo, se perde no seus propósitos graças a um emaranhado de diálogos prolixos e desnecessários que terminam por tornar o filme enfadonho a certa altura. Gostamos da originalidade da ideia conceitual que existe por trás de tudo, mas sentimos também que há uma verborragia supérflua que não leva a nada. Mesmo na sequência final, quando temos um diálogo tenso entre Parcker e o Paul Giamatti, que interpreta um homem em busca de vingança contra seu ex-patrão, há todo um fraseado enigmático que parece querer dar uma aura filosófica a algo que já está muito bem assimilado pelo público: a crítica à acumulação de riqueza desenfreada e incongruências dos mercados financeiros. Estes costumam, muitas vezes e sem razão aparente, atribuir valor a algo artificialmente, o que ironicamente a ocorre em Cosmópolis, uma boa ideia original inflada como um balão de hélio em vias de estourar por Cronenberg." (Roberto Guerra)

2012 Palma de Cannes ” - kaparecida445-2-230390
 
97.
Capriccio (1987)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.1/10 X  
After the renewed flings with their former lovers prove to be disastrously unlike the romantic memories, an unfaithful couple returns to each other. (98 mins.)
Director: Tinto Brass
“ AMOR E PAXIÃO ” - kaparecida445-2-230390
 
98.
The Doom Generation (1995)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6.0/10 X  
Jordan White and Amy Blue, two troubled teens, pick up an adolescent drifter, Xavier Red. Together, the threesome embark on a sex and violence-filled journey through an America of psychos and quickiemarts. (83 mins.)
Director: Gregg Araki
“ "Segunda parte da tri­lo­gia ado­les­cente apo­ca­líp­tica — que tam­bém inclui Totally beep Up (1993) e Nowhere (1997) – con­ce­bida pelo dire­tor e rotei­rista Greg Araki, Doom — Geração Maldita (1995) é um filme que tem tudo para agra­dar fãs de Robert Rodriguez (Sin City e Planeta Terror) e quem gosta de assis­tir tra­mas reple­tas de vio­lên­cia, sexo e um certo grau de psicodelia. O longa-metragem não pre­cisa de muito tempo (tem ape­nas 85 minu­tos de dura­ção) e de um roteiro con­ven­ci­o­nal para cha­mar a aten­ção. Pois já começa dando um chute na porta e cho­cando men­tes puri­ta­nas, com um iní­cio repleto de pala­vrões, para depois alter­nar altas seqüên­cias de sexo (incluindo o famoso “ménage à trois”) do jovem Jordan White (James Duval), da garota Amy Blue (Rose McGowan, de Planeta Terror) e do deso­cu­pado Xavier Red (Johnathon Schaech) e assassinatos. Os cami­nhos dos três se cru­zam quando Jordan e Amy deci­dem apa­nhar Xavier no cami­nho em dire­ção a uma boate. Depois que entram em uma loja de con­ve­ni­ên­cia, acon­tece um grande desas­tre. Acidentalmente, eles matam o pro­pri­e­tá­rio ori­en­tal do esta­be­le­ci­mento e em seguida fogem para um motel. A par­tir daí, se desen­ro­lam todas as rela­ções con­tur­ba­das e vio­len­tas que vão per­mear a vida do trio, cri­ando inclu­sive, um tri­ân­gulo amo­roso com­ple­ta­mente atípico. O filme trata-se de uma deri­va­ção das obras de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, repleto de gore, sexo, mor­tes, mem­bros dece­pa­dos, esca­to­lo­gia e tons psi­co­dé­li­cos, que iro­niza a gera­ção 90, e tem cenas que reme­tem a Assassinos Por Natureza (cujo roteiro era de Tarantino, mas a influên­cia aqui é dis­si­pada pela ausên­cia de cita­ções pop e diá­lo­gos inte­res­san­tes), que mesmo treze anos depois de lan­çado, deve cho­car men­tes con­ser­va­do­ras, porém soar alta­mente diver­tido para quem não o levar a sério. E claro, a pre­sença de Rose McGowan (que tra­ba­lha­ria com Rodriguez e Tarantino em Grindhouse, do ano pas­sado) novi­nha, exi­bindo mui­tas de suas cur­vas, é um grande atrativo. Assim, se enca­rado como diver­são trash, o expec­ta­dor tal­vez não ligue tanto para os exces­si­vos 666 que sur­gem freqüen­te­mente na trama, a cabeça dece­pada que con­ti­nua falando, os quar­tos de motel colo­ri­dos ou as pes­soas que apa­re­cem pelo cami­nho dos três, dizendo-se lem­brar de Amy e, em seguida, ten­tando matá-la – quem não enca­rar a pro­du­ção assim, deverá achá-la com­ple­ta­mente sem pé nem cabeça. Os ato­res encar­nam com per­fei­ção seus per­so­na­gens, com aquele estilo um pouco jun­kie, lar­gado, de rebelde sem causa auto­des­tru­tivo. E a dire­ção de Araki não poupa clo­ses nos mio­los estou­ra­dos, jor­ros de san­gue e cenas tór­ri­das de sexo. Destaque para a tri­lha sonora bacana, com músi­cas de artis­tas come­mo­ra­dos da década pas­sada como Nine Inch Nails, Porno For Pyros, Jesus & Mary Chain, Aphex Twin, Pizzicato Five e The Verve, entre outros." (Andre Azenha)

Trilha Sonora / Rock = Nine Inch Nails + Porno For Pyros + Jesus & Mary Chain + Aphex Twin + Pizzicato Five + The Verve + Front 242 + Love and Rockets + Curve + Coil + Cocteau Twins + Meat Beat Manifesto + Medicine + Lush + Ride + Belly + Slowdive + The Wolfgang Press ” - kaparecida445-2-230390
 
99.
When in Rome (2010)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 5.6/10 X  
Beth is a young, ambitious New Yorker who is completely unlucky in love. However, on a whirlwind trip to Rome, she impulsively steals some coins from a reputed fountain of love, and is then aggressively pursued by a band of suitors. (91 mins.)
“ "O básico água-com-açúcar, previsível dentro do esperado." (Josiane K)

''Vamos direto ao assunto, ''Quando em Roma'' (when in Rome, 2010) é um péssimo filme. Sabe-se lá onde estavam as cabeças dos roteiristas David Diamond e David Weissman (também roteiristas do recente Surpresas em dobro) quando começaram a imaginar esta comédia romântica com toques de fantasia. O script segue os passos de Beth (Kristen Bell), uma jovem curadora de artes plásticas, que vive uma fase de grande carecia afetiva, e que vê sua vida mudar ao viajar a Roma para participar do casamento de sua irmã. Durante a cerimônia conhece Nick (Josh Duhamel), um jovem bem humorado que rapidamente conquista seu amor. Porém, Beth se decepciona ao descobrir que o rapaz vive um relacionamento amoroso com uma italiana. A desilusão faz com que a jovem tome a inesperada atitude de saltar dentro de uma fonte mágica para retirar moedas com intuito de roubar os desejos amorosos de outras pessoas. Em decorrência disso, os donos dessas moedas (incluindo Nick) passam a persegui-la em busca de seu amor. A partir daí, por incrível que possa parecer, a história só piora. Todo desenvolvimento da trama é baseado nas idas e vindas do casal protagonista, ora separados pela ira dos deuses do amor, ora por investidas dos outros três enfeitiçados. Mas a fita, infelizmente, não fica só no romance, ainda sobra espaço para tentativas frustradas de criar situações engraçadas, além de dramas forçados e discussões irrelevantes sobre relacionamentos amorosos. Nem mesmo participações especiais de rostos conhecidos como os de Danny DeVito e Anjelica Huston dão credibilidade ao projeto dirigido por Mark Steven Johnson, diretor do também insuportável Motoqueiro Fantasma. É difícil encontrar qualidades em ''Quando em Roma''. Talvez a Cidade Eterna seja o único ponto positivo da produção. De resto, apenas uma colcha de retalhos feita com o pior do que cada tipo de gênero pode oferecer." (Bruno Marques)

“Quando em Roma” está aí pra provar que comédias absurdas não precisam ser necessariamente imbecis como “Plano B“. Kristen Bell (“Encontro de Casais“) é Beth, uma workaholic que faz uma viagem relâmpago para Roma por conta do casamento da irmã mais nova. Lá, conhece o charmoso Nick (Josh Duhamel de “Transformers“) e quando pensa que achou o homem ideal, ela o flagra beijando outra (logicamente um mal entendido). Revoltada, ela vai a fonte dos desejos na frente da igreja e pega algumas moedas, o que vai se provar perigoso, pois a fonte é mágica os homens que jogaram as moedas automaticamente ficaram apaixonados por Beth e irão perseguí-la em todos os lugares. A ótima decisão do diretor Mark Steven Johnson (Motoqueiro Fantasma) foi de trazer os comediantes americanos de sucesso na atualidade para interpretar os homens que se apaixonam magicamente: Will Arnett (Primavera Maluca) como um pintor fanático; Jon Heder (Não Quero Ser Grande) como um mágico paranóico; Dax Shepard (Uma Mãe Para Meu Bebê) como um modelo narcisista; e finalmente o veterano Danny DeVito (Virando a Mesa) um empresário e o mais normal de todos. As piadas conseguem, no mínimo, animar o público, parte por causa do desempenho sempre engraçado dos coadjuvantes, parte por conta de algumas ótimas gags físicas do personagem de Duhamel. Kristen Bell, apesar de não ser dona de um grande carisma consegue convencer no papel e dá certa empatia à personagem. A produção é sim bastante previsível. Cenas cruciais podem ser antecipadas até pelo espectador mediano sem tanta atenção. E até mesmo o maior mistério da história (sobre a ficha de cassino) pode ser rapidamente pode ser rapidamente descoberto. Mas “Quando em Roma” é daqueles filmes onde mesmo se conhecendo o resultado, a viagem até lá continua sendo o mais importante e isso sim é o que torna o longa eficaz, além dos aspectos técnicos sempre bem elaborados, como a ágil cena abertura dos créditos. Infelizmente é uma comédia altamente recomendável que por não ter atrizes do porte de Jennifer Lopez, sai direto em DVD, enquanto temos que pagar um ingresso pra ver o podre Plano B. “Quando em Roma” é o plano A." (Cine Críticas) ” - kaparecida445-2-230390
 
100.
The Devil Inside (2012)
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4.2/10 X  
In Italy, a woman becomes involved in a series of unauthorized exorcisms during her mission to discover what happened to her mother, who allegedly murdered three people during her own exorcism. (83 mins.)
“ "A ideia já está batida, mas rende frutos: filmes de baixo orçamento apostam em câmeras subjetivas, estilo documentário, para contar histórias de terror.É o caso de A Bruxa de Blair, Atividade Paranormal e deste "Filha do Mal". Aqui, Isabella vai até uma escola de exorcismo na Itália tentar descobrir por que sua mãe matou três pessoas - alguns sustos bobos e muita lorota baseada em fatos reais. Mas até que dá para se divertir por pouco mais de uma hora." (Iuri de Castro Tôrres)

"Um teatrinho mal articulado, mal interpretado, previsível e ordinário. Os filmes de exorcismos já não conseguem apresentar novidades há mais de uma década, mas este se supera na preguiça."(Alexandre Koball)

O exorcismo em xeque.

"Com roteiro e direção dos responsáveis pelo medonho Stay Alive - Jogo Mortal (Stay Alive, 2006), o que já é suficiente para desestimular qualquer espectador a ir ao cinema, Filha do Mal, novo exemplar do estilo de horror pseudo-documental, vem somar a uma leva de trabalhos medíocres sobre exorcismo. O filme ignora a narrativa para se importunar com generosas cenas de exorcismo, levando ao público questionamentos religiosos e científicos como tentativa de solucionar os “surtos” numa abordagem sagrada, apropriando-se de sustos fáceis para vez ou outra funcionar com o público temente – os ossos deslocados das possuídas é o ápice de uma trama que pouco horroriza, anulando tomadas bem mais interessantes pela necessidade de causar terror a qualquer custo. A justificativa criada para filmar os eventos é absurdamente pobre. Basta ignorar, é verdade. Mas uma garota sair de seu país, Estados Unidos, para fazer um documentário a respeito do passado de sua mãe assassina é algo que demônio algum nos faria compreender. Não apenas isso: seu objetivo se prolonga numa tentativa de compreensão da prática dos exorcistas na Itália. Para começar o longa, legendas nos avisam sobre a veracidade das cenas e supostas proibições da fita no Vaticano. Exorcismos não podem ser filmados, alguém explica. Quem engolir essa, aproveitará melhor a obra. A busca de respostas de Isabella Rossi (vivida pela brasileira Fernanda Andrade) é uma investigação quase obsessiva, cujas respostas perdidas no passado ganharam interpretações médicas com internação, remédio e isolamento. Quadros psiquiátricos são levantados, explicações científicas dividem padres em aulas teóricas sobre exorcismos. Entre diagnósticos mensuráveis e suspeitas religiosas, o filme surpreende com uma discussão centrada, acompanhando, através da lente de um amigo, o oportunista Michael (Ionut Grama) e as indagações furtivas de Isabella, um duelo verbal a respeito da validade do papel do exorcista. O tema favorece o desenrolar do filme que ganha status documental pela pesquisa experimental aplicada, estendendo-se até um trabalho clandestino de dois padres, exorcizando às escondidas o que acreditam tratar de verdadeiras possessões demoníacas negadas pela igreja. Essa ponte entre as divergências tradicionais com a necessidade de provocar temor no público é instantânea, não demora e as filmagens descambam unicamente na proposta do terror. E tome seqüências de horror com câmera em punho, exaltando o visual trêmulo de quem acompanha de perto e corajosamente as manifestações. Largar a câmera, jamais. Pena insistirem tanto nesse estilo de filmagem, sem profundidade e propriedade, seja lá qual tema se trabalhe. A finalidade usual do falso documentário está saturada, previsível e esquemática. Desde A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), foram tantas as investidas no cinema que atualmente o gênero ganha aversão de seu próprio público. E pensar, também, que tratar o exorcismo nesse tipo de projeto fosse alguma novidade: contorcionismos demoníacos já foram registrados antes no banal O Último Exorcismo (The Last Exorcism, 2010). Tão cedo não veremos algo comparado ao clássico O Exorcista (The Exorcist, 1973). A habituação dos personagens com as câmeras em volta são sintomas do confuso roteiro, externalizando dúvidas de seus protagonistas a respeito do que vêem ou esperam encontrar. A apresentação inicial, por exemplo, nos insere na trama através de imagens registradas por algum canal de televisão, mostrando a prisão de uma mulher após 3 pessoas serem assassinadas. Este ato lembra o início da refilmagem de O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 2003) onde um homem empunhando uma câmera entra num porão explicando sobre os incidentes com o serial killer, evidenciando marcas de violência no local. Outra cena que remete ao confuso trabalho de câmeras é a tentativa da protagonista de se adequar às máquinas montadas num carro. É a tradução da experiência equivocada que é ''Filha do Mal''. Breves e bons momentos de tensão garantem, no mínimo, o ingresso da sessão, ainda mais para aqueles que buscam uma experiência masoquista. Encontrarão, caso não tenham visto muita coisa do tipo. As situações são pouco inventivas e o elenco esforçado pouco acrescenta aos repetitivos acontecimentos. Filha do Mal é tecnicamente limitado e com uma direção assombrosa, no pior sentido da palavra, e a sensação de realidade não demora a se desfazer, deixando restos de um produto leviano, de intenções óbvias e competência questionável. Fica pior se o espectador esperar dele uma lógica, um estudo de caso arrebatador. Parece óbvio, e a fundo dessa obviedade, o filme ocasiona algum susto, breve tensão e termina como um resquício de mockumentarie, quase que debochadamente." (Marcelo Leme)

''Uma súplica ao leitor: caso encontre fitas de vídeo com algum material gravado nunca antes revelado, deixe-as onde estão. Estará fazendo um favor a todos aqueles que não aguentam mais assistir aos falsos documentários sobre um fato tenebroso qualquer que, só agora, chega ao conhecimento do público. A Filha do Mal é a mais nova empreitada do gênero. E como a maioria do que se produz nessa linha, ruim. Muito ruim. Um subproduto do subgênero exorcismo filmado com recursos limitados e criatividade zero. Pronto, este é o resumo do que o espectador vai ver na telona caso resolva encarar o longa que assustou as bilheterias norte-americanas – estreando inesperadamente em primeiro lugar -, mas que não é capaz de meter medo nem em criança. A produção conta a história de Isabella Rossi (a atriz brasileira Fernanda Andrade ), uma mulher que busca descobrir a verdade sobre a mãe, Maria (Suzan Crowley), que mata três pessoas durante um ritual de exorcismo nos Estados Unidos. 20 anos depois ela parte em busca da verdade, recorrendo a um cinegrafista para documentar sua investigação. Já na Itália (onde a mãe está internada em um manicômio), se envolve com dois jovens padres que tem métodos próprios de realizar rituais exorcistas. ''Filha do Mal'' tenta ser um Atividade Paranormal e passa longe. Este conseguiu aproveitar as claras vantagens de se fazer um filme de terror no estilo mockumentaries: não precisar de estrelas e driblar a falta de grana para efeitos especiais sofisticados. Filha do Mal, no entanto, é um filme nu, desprovido de tudo: de suspense, de terror, de boas cenas e de clímax. Seu final é tão tacanho que dá margem a questionarmos se o diretor e roteirista William Brent Bell não estava possuído por algum espírito zombador. Para quem nunca viu um outro filme de exorcismo na vida, vale a experiência. Para o resto da audiência, haja paciência..." (Roberto Guerra) ” - kaparecida445-2-230390